quarta-feira, agosto 16, 2006


Deito-me nos sonhos que o teu corpo me dá a descobrir.
Deito-me sobre essa tua alma vazia de interrogações, cheia de entrega.
Preciso de ti. Preciso de me agarrar aquilo que me dás.

Mesmo que eu nada sinta
Mesmo que eu saiba que isto não tem futuro
E que vou ter que partir

Mas agora é disto que preciso
De sentir que te tenho
Que és minha

O meu egoísmo explode dentro de mim
Mas não resisto

A fazê-lo de novo.

Preciso

Porque nada mais
Me consegue fazer sentir.

E sei que te vou magoar
E sei que te podia avisar

Mas não o vou fazer

Porque tu és a presa
E eu a caçadora

E no final serás mais um troféu.

Não te vou pedir desculpa,

Porque ninguém pede desculpa por sentir.

E é assim que eu sinto,
Só assim.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Desassossego (E até já...)


As palavras

Morderam-se

de desejo



E na tua ausência


Morreram-me.




(Perdi-me no número de noites em que quis que me acolhesses.)


E tu?

sexta-feira, agosto 04, 2006

Encontrámo-nos uma última vez. No verão ardente que se imponha nos nossos sentimentos já tão gélidos. Tínhamos nos nossos olhos a tristeza de quem deambula nos dias. A mágoa de quem não conseguiu fazer as coisas direitas. A frustração de mais uma vez o amor não ter tido força suficiente para nos manter juntas. Naquele dia, o adeus era a sombra que separava os nossos corpos. Era o movimento dos corpos que queriam sair dali. Eram os batimentos que a pouco e pouco desfaleciam nos nossos corações moribundos. Não me lembro das palavras que trocámos, não me lembro se ainda te amei naquele dia. Ou se ainda mantinha em mim a esperança de que as coisas pudessem mudar e estarmos juntas ainda fosse uma opção. Não me lembro. E talvez isso seja a salvação. Porque tudo o resto nos morreu.

Cruzámo-nos ainda outras vezes. Com os olhos quase fechados disfarçávamos um sorriso. As palavras afogavam-se em saliva e cada qual mantinha a sua rota. Ainda tenho tanta coisa para te dizer. Coisas que agora talvez tenham perdido o seu sentido. Nunca soube apreender muito facilmente o tempo certo das palavras. Porque tudo tem um tempo único. Exacto. Em que nada lhe poderá roubar o protagonismo. As palavras também revelam esse tempo e eu deixei passar o nosso. Agora a única coisa que se salvou foi um sorriso, que se mantém ano após ano sempre que nos encontrámos. Se um dia tiveres atenta, poderás entender, que é o mesmo sorriso que soltei da primeira vez que te vi. Continua intacto. Verdadeiro.

Se um dia, voltares a este espaço onde me revelo,
Quero que saibas que lamento o dia em que desisti de nós.
Mesmo não sabendo que isso era desistir.
Mesmo nunca entendendo que assim te perderia.

Tinhas razão,

A minha porta nunca esteve aberta para ti.

Nem para ti
Nem para ninguém.


Beijo.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Cheguei à tua porta de madrugada, unicamente com as roupas que tinha no corpo, um maço de tabaco e um sorriso de quem quer foder. Abriste-me a porta, com os olhos carregados de sono. Não me disseste olá, nem bom dia, nem como estás. Perguntaste que fazia eu ali. Respondi-te que as insónias estavam a dar cabo de mim e precisava de foder. De preferência com alguém que me desse muito tesão. De preferência com alguém que não fosse muito complicado. Mandaste-me embora. Disseste que já não querias continuar com aquilo. Acendi um cigarro. Fiquei a olhar-te enquanto esfregavas os olhos. Olhei-te enquanto os teus pés não ficavam quietos. Enquanto via as tuas mãos trémulas. Via tudo e não via nada. Apaguei o cigarro. Despi-me à porta da tua casa. Arranquei-te a roupa com a velocidade de quem não tinha tempo a perder. Fechei a porta, enquanto enterrava a minha mão na tua boca, de forma a te calar os gritos que me desconcentravam. Levei-a para a sala e com movimentos bruscos consegui deitá-la no chão e prender-lhe as mãos. Escorreguei a minha saliva pela sua boca, obrigando a sua língua a unir-se à minha. O seu corpo lutava contra o meu, enquanto o calor se derramava e o tesão me inundava. Fartei-me dos seus nãos. Fartei-me daquela luta. Desamarrei-lhe as mãos, beijei-a na testa e servi-me de um whisky puro como o sexo que queria fazer. Pendurei-me no sofá, acendendo um cigarro enquanto a olhava incrédula, completamente sem palavras. Perguntou-me porque tinha eu parado. Respondi-lhe que fartei-me, que fiquei impaciente e que a vontade de foder mudou de cara e que já não era a dela. Levantou-se e tentou fixar um estalo na minha cara. Agarrei-lhe a mão e puxei-a para mim, sentei-me no sofá e abri-me em desejo para ela. Desfrutei da sua língua quente, envolta na prova do meu prazer, deslizando a textura dos seus dedos para dentro de mim, fazendo com que me baloiçasse no sofá. Com a mão entrelacei-lhe o cabelo, agarrando-o vorazmente quando me sentia a ser devorada, fodida em todos os meus recantos de desejo. Sentia-me satisfeita, com o orgasmo ainda presente no meu corpo. Lambi-lhe os lábios e as mãos. Envolvi-a num beijo que mais do que ser quente, era frio. Era um beijo de despedida.

Enquanto ela foi buscar gelo, peguei nas minhas coisas e parti.

terça-feira, agosto 01, 2006

Deixei de me esconder pelo tempo. Deixei de renegar o que sinto. Não consigo ser mais uma sobrevivente. Não consigo mais ser um poço de ar que se arranha para conseguir acreditar. Acreditar. Durante os últimos quatro anos, falaram-me de amor, tentaram encantar-me com palavras, não sabendo elas que já eu sou a rainha das palavras. As palavras são o meu alimento diário. Não é por elas que me provarão o amor que dizem sentir por mim. Não será por sorrisos. Não será por beijos infiltrados na pele. Não será por histórias encantadas e por destinos inventados. Deixei o poder de me encantar num monte verde. Deixei a fé no amor num barco que construí no meu corpo. Engoli-o ao mesmo tempo que mastiguei o amor rezado pelas mulheres que me disseram amar. Acusaram-me de pouca entrega. De ser egoísta. De só pensar em mim. De só querer sexo e desafios a toda a hora. Acusaram-me de dar pouco. De não saber o que é sentir a entrega de um abraço. Um afago. Uma palavra bonita. Acusaram-me de desistir de um amor que nunca foi por mim sentido.

Não quero que espraiam o amor sobre o meu ser
Não o saberiam fazer.

Vocês nada percebem do amor
Confundem-no com palavras
Com sorrisos
Com entrega
Com dar
Com receber

Com orgasmos
Resolvidos
Depois de fazerem o tal amor.


Digo agora:

Vocês que me acusaram
Vocês que me choraram
Vocês que me quiseram prender o coração
Vocês que quase que morreram
E após tão pouco tempo
Já estavam nos braços de uma outra
A quem amariam da mesma maneira
Como a mim disseram amar.

Tudo o que saiu da vossa boca
Das vossas mãos

Soa-me a mentira
A repetição
A maldição.


Eu não percebo nada de Amor,
Só percebo:

As palavras
Os sorrisos
O querer
O desejo
O escuro
A dor
A frustração
A inquietação
As insónias
A razão
A mentira
O fingimento.


Vocês
Que julgam
Saber o que é o amor

Vocês que julgam
Que me souberam amar


Nada sabem.

Pouco sabem
Sobre o sentir.

segunda-feira, julho 31, 2006


Possuir-te-ia
numa
dança
que começaria
pelos sentidos,

que se prenderia
pelos
movimentos.

O teu

orgasmo

seria

larva

na minha língua

quarta-feira, julho 26, 2006

Regressaste a casa pelas 6h da manhã. Tinhas os efeitos da noite marcados nos teus olhos. No aspecto da tua roupa. No teu cheiro de mistura de pessoas. Mistura de tudo e mais alguma coisa. Fizeste barulho. Acordaste-me. Estavas num amanhecer em que te apetecia conversar. Despiste-te e sentaste-te a meu lado. Tocaste-me o cabelo. Olhaste-me mais profundamente do que eu poderia querer. Falaste da tua noite. Das pessoas. Dos lugares. Escutei-te num silêncio de quem não quer saber o que fizeste. Num silêncio de quem se está a foder para ti. É isto que acontece quando chegas de madrugada e queres conversar. Eu simplesmente deixo de me importar. E tu danças pelas palavras como se fosses importante. Como se fosses importante para mim. Mais do que o meu sono. Mais do que a minha própria insanidade mental. Não o és. Mas gosto que penses que és. Assim fodes mais outras pessoas e tens menos necessidade de foder comigo. A nossa relação é perfeita. Sempre to disse. Eu vivo os meus dias concentrada em mim enquanto tu achas que és o que mais importa na minha vida. E passeias-te cheia de luz pelos dias. Com um sorriso vitorioso. Com um ego patético de quem se conhece muito bem e de quem acha que é o centro do mundo.

Daqui a minutos calas-te.
Daqui a horas acordas com o tesão a morder-te o corpo.
Daqui a dias a nossa relação deixará de ser perfeita
Porque vou dizer-te
Que tudo o que achas que é verdade, certeza
É mentira
É incerteza.

segunda-feira, julho 24, 2006

I want you


“I I I I I I want you you you you you you
Oh I I I I I I want you you you you you you
Said I I I I I I want you you you you you you
So what we gone do? What we gone do?”



Quero-te hoje fora de mim. Quero que desocupes o meu coração. Quero apenas que exista um sinal de ti na minha mente. Não quero pensar no que esperar de ti. Não quero pensar no que quero de ti. Não quero perguntas. Nem respostas. Quero-te apenas sem o rasto do passado, nem a pressão que se acomoda no presente e sem os sonhos do futuro. Hoje não precisamos disso. Precisamos de encontrar um tempo próprio nos nossos corpos. Precisamos de saborear o desejo, arriscar as palavras, não respirar fundo e sim saber perceber o que pode acontecer. Sem ideias pré-estabelecidas. Sem conceitos esmagadores de sentires. Sem travões e sem aceleradores.

Quero que te sintas a ti, quero que te explores, e ao o fazeres me encontres em ti. Quero desnudar-te a alma com o toque das minhas mãos, romper-te o peito e abraçar-te o coração. Quero entrar em ti com um beijo que não tem nome, que apenas se espelha no desejo que deixas esvair em mim. Quero partilhar contigo estes sentires, de um corpo que se aceita, que se vê como completo mas que se repercute no teu. Desmaiar-te em sonhos de toques, que se derramam na tua boca, que é seguida pela lentidão da minha língua, desflorando-te os pensamentos. Confundindo-te a pele com cheiros que me atravessam o tesão. Quero que te deixes ficar de pé, com a nudez colada à minha, que te deixes conduzir com os passos que as minhas mãos te dão, com a velocidade controlada de quem sabe como dançam as pontas dos meus dedos, ao som de uma melodia que te cresce na respiração, à medida que deixas de perceber se é a tua ou a minha que ouves.

Quero que pares quando te puxar para mim e revelar à tua língua o percurso que quero seguir. A viagem que quero iniciar na tua boca, com todos os trajectos possíveis e que quero que acabe novamente nos teus lábios que estarão doridos dos desejos que irão conceder e receber.

Quero que te deites desembaraçada de lençóis, despir-te-ei os medos com a ponta da minha língua, que se perde inquieta nos recantos do teu corpo, desenhando palavras que se deixam ficar encostadas às tuas expressões, recolho-me nos teus seios, fazendo suscitar arrepios demorados, que se deixam prender ás minhas mãos e à sede que trago na boca. Permaneço o tempo suficiente para te sentir deliciosamente em mim, para arriscar cravar-me na tua pele, para arriscar fazer-te derramar em desejo, transpirando em nós sentires, silêncios encobertos de vozes…

Quero que te soltes em mim, que me tomes como tua nesse resguardo que é o teu ventre, em que quero escrever sentidos,

Em que quero….

(Entra na minha mente, fecha os olhos, e saberás que quero eu….)

domingo, julho 23, 2006

Desencontros. Desencontros entre duas noites. Imaginámo-nos a dançar. Imaginámo-nos gelo preso entre duas línguas. Clandestinamente reservámo-nos de espaços e abrimos recantos no desmembramento dos sonhos. Quantas vezes invadimos as roupas coladas ao corpos nos dias chuvosos de um Inverno que se demorará a chegar. Tomamos pequenos-almoços de sexo, enfrascadas de desejo numa banheira de algum hotel da capital. Esvaziámos a loucura dos bolsos ilusórios da nossa mente nos dias em que nos desgastamos tentando criar em nós a cumplicidade dos momentos. Juramo-nos arte perante ruelas sujas nas horas vagas das madrugadas que quisemos fazer nossas.


Hoje acordamos, sem os lençóis da nossa presença.

Deixamo-nos ficar naquelas noites, naqueles devaneios inventados por nós, sempre à espera que um dia se tornassem realidade

Os caminhos

Que deixamos de percorrer

quinta-feira, julho 20, 2006

Sentas-te à minha frente. É a primeira vez que o fazes nesta jornada que se tornou a nossa vida em comum. Antes era a meu lado que te sentavas, aceitavas a distância que eu precisava de manter entre nós. Não a julgavas. Não a questionavas. Dizias que o mais difícil não era essas reticências nascidas em mim mas sim o facto de não me angustiar a tua falta de interesse. E tinhas razão. Quanto mais intacta estiver o que sou perante os outros, melhor durmo eu à noite. Menos descubro eu, menos dou a descobrir aos demais. Principalmente a ti que me eras tão próxima. Mas para ti o caminho tinha de ser outro.

Aqui te tenho eu à minha frente, a antever nos teus olhos a vontade que tinhas em entrar por dentro, a tua vontade intimidante de pores em cima da mesa tudo o que sempre escondi de ti.
O silêncio dos olhares sempre foi uma boa forma de me alucinares os momentos. Questionaste-me. Puseste em primeiro lugar o teu recente medo do desconhecido. E não sairias dali enquanto não respondesse a todas as tuas dúvidas, interrogações, inquietações que te desmembravam o sentido deste amor, deste qualquer coisa…

Nada te disse. E aí perdeste o controlo. Levantaste a voz e disseste-me que não fazia sentido estes dias se não soubesses quem eu era. Falhaste ao me encostares à parede branca da realidade e me podes duas opções: ou eu me despia de enigmas ou tu partirias.

Escolhi-me a mim e aos meus enigmas. Nunca poderia escolher outra coisa.

Sabes qual foi o teu maior erro? O momento em que falhaste?

Quando não conseguiste compreender que era eu que estava sentada a teu lado. Era eu. Mesmo com códigos ilegíveis era eu.
A tua ânsia de me conheceres fez com que perdesses a razão do que erámos

segunda-feira, julho 17, 2006

Dançamos pelos rios que se iniciam nas nossas bocas. Provocas-me rasgando-me os lábios com os dentes. Chupas. Lambes. Incendeias. Penetras-me a boca com a tua língua. Roçamo-nos em palavras. Mergulhámos dentro das nossas roupas. Levas-me a puxar-te para mais perto. E afastas-te com o meu sangue impregnado na tua boca. Sentas-te altiva. Olhas-me enquanto te transpareces de desejo. Dás-me a descobrir os teus seios que te soltam da pele. Dás-me a prová-los através dos dedos que te humedecem os mamilos. Transformando-os em pérolas. Embrulhas-te nas paredes. Afagas o teu cabelo, deixando-o cair pelos teus olhos. Nunca chegas a quebrar a nossa ligação. Nunca deixas que os meus olhos se afastem da tua sensualidade encoberta de sexualidade. Alicias-me o corpo. Movimentas-te, alimentas-me a mente. Deixas que as tuas mãos se deslizem ferozmente pelo teu ventre. Trazes-me os teus dedos à minha boca, e entras dentro de ti. Sentas-te à minha frente, prendes-me os movimentos. Conduzes tu. Mexes-te freneticamente pousando sempre os teus olhos nos meus. Sempre gostaste de teres em ti o poder de me veres a descontrolar. Sempre gostaste de me deixar cambaleando no desejo que é teu. Continuas a tua dança. Pintas-te no orgasmo que te quero oferecer. Resistes sempre à espera dos meus passos em falso. Sabes que não sei esperar. Conheces bem a minha impaciência em te possuir. A minha vontade de foder quem se recolhe da minha pele. Paras. Recomeças. Soltas-te em sons abertos. Sais de ti e trazes novamente os teus dedos à minha saliva. Gostas de me dar a beber o teu tesão. Pego em ti e prendo-te em mim. Tentas-te libertar. Não o queres, mas tentas. Gostas das marcas que ficam depois destas noites. Do fogo que te marca a pele. O mesmo que te fode mesmo quando dizes não querer. Que estás farta que tudo entre nós comece e acabe na cama. Repetes-te vezes sem conta. Repetes-te até deixarmos de ser duas pessoas. Rasgamo-nos. Folheio-te até te sentir a pele gasta. Até sentir que até os mares secam. Resigno-me a me deixar ficar na tua pele. Na tua boca salgada. Acordo em sonhos o teu sexo. Acordo-o e adormeço-o. Sem intermédios. Esgotamo-nos. E a partir daí a única coisa que sentimos é a cinza que cai por acidente nos nossos corpos.

quinta-feira, julho 13, 2006

“Take me down to your river
I wanna get free with you.”

Aspirámos sonhos no calor que nos humedece a textura dos sentimentos. Embrulhamo-nos como se apenas em nós recaísse uma só pele. No final da noite, derramamo-nos em beijos, sufocamos, entranhamo-nos nos poros do prazer que bebemos como larva que se abre nos nossos sexos. Saboreamos palavras enquanto desfilamos com a nudez suada, que se desliza por caminhos proibidos. Tentamos combater este tempo que não é o nosso, este tempo que não se escreve apenas com os nossos nomes. Tentamos combater a distância que nos enclausura em ausência do que ainda temos fé de vir a provar. Discutimos, tentando prever o abraço que daríamos se a presença fosse algo nas nossas vidas. Tentamos prever os momentos, os sentires que nos caem como angústia, como impossibilidade de nos virmos concretizar neles. Invadimos as madrugadas, na masturbação que nos põe mais próximas, repetindo os orgasmos como se estivéssemos coladas uma na outra, rasgando o espaço que é grande demais para o desejo. E sofremos, sei que também enlouqueces na amargura que nasce o após, o após mais uma vez não termos estado juntas quando o desespero do desejo nos cai na pele, como vício não satisfeito. Recolho-me em ti nessas noites. Escolho o recanto que ainda não é meu. E quando acordas sobressaltada pela noite fora, sou eu a possuir-te, a cravar-me em ti de forma a que me sintas mesmo que não penses que sou eu.

terça-feira, julho 11, 2006

Sexta-feira à noite. Três mulheres, 22, 35, 50 lançam-se na noite. Brinda-se à lua, a tantas outras coisas. Pegamos em nós e vamos para o bairro alto. Passeamos pelas ruelas. Encontramos pessoas. Sorrimos. Trocamos palavras. Purex. Madrugada. Bebe-se vinho do porto, água e licor beirão. Sentámo-nos. Deixam-me embalar pela música. Trocámos olhares. Desenhamos mensagens. Escrevem-se palavras em postais de publicidade. Fumo os meus cigarros. Vocês queixam-se de sono. as palavras sobreviveram e chegaram a casa. Aqui estão elas:

1º Postal
Abranda a solidão neste preciso minuto.
Afaga os olhos neste afecto que te brilha por dentro e que apenas o sabes renegar.
Alivia-me a cadência desta espera. Atormenta-me pelas pausas da loucura.
Lança-me grades de sufoco enquanto a tua boca em silêncio se desfaz na minha.



2º Postal
Prefiro-me indecência. Salubridade.
Prefiro-me tudo aquilo que achas que não sei ser.
Nos abraços que me mentes, na inocência de que me levas a desejar.
Entrego-me por instantes. O tempo breve em que me sinto tua.
Em que não consigo ver o que tu gostas em mim.
São estes momentos intemporais em que inicio a minha fuga para longe de ti.


3º Postal
Inicio esta dança sob a negritude dos candeeiros.
O ritual da ambivalência das minhas próprias mãos que se arrastam em lentidão pelo rasto incendiado do meu corpo.
Não me descubro em caminhos, recrio-me mapas de palavras descentradas.
No princípio da pele encontro-me.

quinta-feira, julho 06, 2006

Energias. Desde que te conheci que deixei de conseguir renovar as minhas energias. As da minha sobrevivência. A que começaste a questionar. Virámo-nos uma para a outra. Tomamos a liberdade fazendo conta que nada tínhamos a perder. Sugaste-me o desejo pela pele. Como se se tratasse da tua bebida favorita. Olhas-me pelos recantos dos silêncios que inventei para te afastar de mim, relatas-me palavras que eu não consigo entender. E quando estás preparada para me dares a mão, reconduzes-te à ignorância de achares que é sempre tarde demais. Levo tempo demais até regressar a este livro que ando a escrever há tanto tempo. Rasgo-me das personagens quando as sinto perto. Muito perto. Perto daquele abismo que separa toda a minha racionalidade do fantasma que é a loucura. E se quando te olho apenas consegues ver uma imagem embaciada. Peço-te que não te assustes. Que não fujas. Que não penses o pior. As imagens são demasiado desfragmentadas da verdade. Dissimulo-me, como se quisesse que acreditasses que sou apenas uma mentira. O que não deixa de ter o seu nexo. Na maior parte das vezes a realidade que pensas haver entre nós, é ironia das palavras. É apenas um circuito cortado. Que nunca consegue chegar ao coração. Existem muitos porquês. O porquê de eu insistir nesta existência em que me anulo a mim própria. Ou o porquê de me fechar dentro de um cubículo que na verdade é mais aberto do que julgas. Quando nos convencemos de alguns factos, é tão mais fácil que os outros acreditem em nós. Torna tudo mais credível e ao mesmo tempo começas a perder as partículas que fazem o que tu és no pormenor de tudo. Por detrás de todos os jogos. Chego ao pé de ti farta de estar sempre a me sequestrar do que me corre por dentro. Por medo, de que seja tudo verdade.

segunda-feira, julho 03, 2006

Esqueces-te vezes demais das histórias que me contaste. Se as lembrasses, ver-me-ias tão melhor. Saber-me-ias criação tua, criação nascida das tuas histórias. Mas a cegueira ocupou-te todos os teus sentidos, perdeste a clareza de quem tinha o privilégio ou não de ver além do óbvio. Foi essa clareza a razão de me ter apaixonado por ti. Conseguires contemplar o que nunca ninguém antes tinha conseguido. Agradeci-te com a minha paixão alucinante por ti. Foi a pior coisa que podia ter feito. Os outros conseguirem-nos ver para além da vulgaridade de outros olhos, não devia ser agradecido, melhor, não era eu que tinha que te agradecer. Serias tu a felizarda. Ver alguma pela primeira vez, de forma tão clara, tão inesperada é algo que nem todos podemos alcançar. Tu conseguiste. Eras tu que me tinhas que agradecer. Não o fizeste. Nem eu o permiti. Colocámos o jogo ao contrário. E as regras eram poder teu. Adiantou-nos de alguma coisa? Se calhar tu com as tuas ideias sacrificadas de bom senso achas que melhor não poderia ter acontecido. Mas até tu erras. E sabe-me bem saber desse teu erro e de te ver a ti a dançar num ritual absurdo de quem nunca erra. De quem consegue tudo. Fazes-me rir. Um riso canibal. De quem tem uma fome voraz de te despedaçar o coração. Esse antro que é alimentado, que se impregna como mancha nos sentimentos a desflorar dos outros.
Esta noite, quererás ser alimentada de novo pelas minhas fragilidades. E serás alimentada, oferecer-te-ei a minha única fragilidade: Tu.

domingo, julho 02, 2006

Um post à parte...

Sexta à noite. Regressar às noitadas que tanto me marcaram nos primeiros anos de universidade.
Desta vez não começamos pelo bairro alto. Começamos com a ousadia de duas garrafas de vinho tinto, entre muitos risos, alguns cigarros, um charuto, alguma contestação pelo cheiro. Sobrevivemos a isso tudo. Arranjamo-nos. Perfume para cá, pasta de dentes numa mão. E os sorrisos agora eram risos. Contagiantes por sinal. Duas da manhã. Próxima paragem: Lux. Eu escolhi o sítio e graças à minha técnica persuasiva convenci-vos a virem conhecer a minha capela musical. Porteiros. Pagar e receber um ticket. Bengaleiro. Bebidas. E primeira pista, a minha favorita. Porquê? Porque nessa pista os corpos não têm medo de se tocarem. Os olhares não fogem. Continuam noite fora. Já vos tinha dito que saudades tinha eu de dançar, de me libertar enquanto a música me sobe pelo corpo. E dançamos os três. Era a tua noite de despedida, meu menino, agora quem me vai acompanhar à tasca do lado para beber sangria? Quem me vai levar à loja de conveniência à uma da manhã, quando os desejos de gelado me assaltam a mente? Com quem vou comentar as miúdas da Suécia? E os seus atributos? Mesmo que eu prefira as morenas. E as conversas que tínhamos? Firmámos uma amizade. Vou ter saudades de te ter a tocar nos meus caracóis. E eu vou ter saudades de te encaracolar mais o cabelo. Mas foste embora. Agora espero que consigas estágio em Lisboa para continuarmos nesta jornada. O trio maravilha: a endiabrada, a morena esbelta, e o menino dos caracóis. Continuaremos sempre a ser um trio. Mesmo que por agora seja difícil voltarmo-nos a encontrar.

Com isto digo que gosto muito de ti, és um dos meus meninos.

Até já

quinta-feira, junho 29, 2006

Temos as mãos desnudadas. O corpo lavado de sorrisos. De sentires. Quisémo-nos construir com gotas de saliva. Com o corpo assinado por várias pessoas. Quisémos o nosso sexo cheio de desejo. Quisemos chegar ao mais alto possível. Pensamos que assim conseguiríamos. Fodemos corações. Fodemos almas. Fodemos sorrisos. Fodemos esperanças. Fodemos palavras. Fodemos certezas. Fantasíamo-nos de verdade. De conquista. De amor. De paixão. De ternura. De compreensão. Despimo-nos como se assim pudéssemos sentir o que na verdade sempre quisermos. Errámos nos caminhos. Errámos nas pessoas. Errámos na fantasia. E continuamos a errar. Deixamos de procurar um equilíbrio. Decidimos que a saída seria sobreviver. Sobreviver. Mesmo que essa sobrevivência fosse escape. Fosse desabafo. Fosse procura. Fosse falhanço.

E quando me pegas nas mãos que vês tu? Um espelho com duas faces? Uma escultura inacabada? Um intermédio de qualquer coisa? Talvez vejas mais do que isso. Mas as respostas não estão em mim. Estão guardadas numa gaveta sem chave. Num olhar cego de movimentos.

As horas passam. As insónias amontoam-se. Os pés ferem-se nos passos que não damos. Os livros queimam a ponta dos dedos. A alma rasga-se em várias partículas podres. As portas batem-se com força. A memória perde-se em acontecimentos passados. A espontaneidade deixou-se adormecer. A emoção transformou-se em calculismo.
E quando as horas se terminam que vês tu?

segunda-feira, junho 26, 2006

Entre nós existe um tempo. Um tempo desfragmentado. Um talvez que cada vez mais se perde na ausência. Estilhaçamo-nos em sorrisos, em noites que nos comprometem a sobriedade do que dizemos sentir. Ou que já sentimos. No final da noite já nada sabemos, as palavras bebem-se umas atrás de outras. Roçam-se em demasia à medida que sabe-nos a pouco este tempo. Quisemos expandir-nos, sempre o conseguimos fazer. Mas existem pormenores que nos falham. Nunca deixam de existir quebras. E o medo…esse que nunca deixa de existir, amanhece connosco, amanhece mais cedo e agride-nos os sonhos…as lembranças que nos podiam fazer equilibrar as manhãs. No mais negro do abraço que te dou existe medo. Medo que o corpo responda mais forte do que a acção em si. Medo que o que nos palpita por dentro queira voar para além de todos os limites a que nos impomos. E quero recordar-te. Recordar-te o momento em que as manhãs terminam, esse ponto intermédio em que o medo é-nos retirado da pele, se recolhe nos nossos olhos e nos nasce em sorriso, em mãos que se despedem em saudade do que não se chegou a viver, do não dito. Esse momento supera-nos. Existe por si mesmo e marca-me a cadência dos passos seguintes ao terminar das nossas manhãs

quinta-feira, junho 22, 2006

Hoje enquanto dormes a meu lado vou contar-te um segredo, em silêncio vou fazer que ele chegue ao teu ouvido, em passos curtos à medida que o teu corpo se mostra sereno nos lençóis.
A culpa de saber cada detalhe teu de cor, são das insónias que me atentam o pensamento…mas me dão alento aos olhos quando te olho, dão sentido ás minhas mãos quando ao me deitar te puxo para mim. Sei quantos sinais tens no teu corpo inteiro, sei todas as expressões que fazes ao dormir, sei a matemática que fazes quando queres mudar de posição, sei os sons, sei os silêncios…sei cada pormenor enraizado na tua pele meu amor. Dizes que um dia canso-me de te olhar, que saberei tudo e perderei o interesse. Como posso eu perder o interesse pelo amor que me ofereces e eu te ofereço mesmo quando só estou cá eu, a observar-te pelas noites a dentro há já tanto tempo. A tua serenidade dá-me sede, sede de também conquistar essa calma, essa expressividade que se alonga em ti mas facilmente percebo que ela a ti te pertence. Talvez por isso nos entendemos tão bem enquanto os anos passam por nós.

E sei que daqui a horas, acordarás tu, e ficarás a me olhar também, a me sussurrar palavras aos ouvidos para que acorde e te dê um beijo de bom dia para que assim possas invadir a vida bem cedo e para que logo logo te oiça a chegar a casa com as saudades que dizes ter de mim mesmo sem que eu te pergunte nada. E no abraço que me dás a conhecer consigo ainda sentir o porquê de tudo isto, o porquê de tudo fazer sentido quando ao te olhar, reconheço-te toda, e saber que também tu me reconheces, e que ambas nos reconhecemos no amor.

sábado, junho 17, 2006

Guardamo-nos pela noite fora, pernoitando pela música que nos chove, ancorando num abraço as saudades dos dias em que nos libertamos.
Lembro-nos sempre assim, inter-ligadas pela pele, questionadas pelos porquês desgastantes das voltas que damos, dos beijos em que se prendem as nossas bocas. Regressamos sempre ao momento que antecedeu uma qualquer partida. E andamos neste ciclo até que o cansaço chegue e decida o que fazer de nós.

Sentamo-nos no café de sempre. Dentro ou fora. De noite ou de dia. Com a mesma marca de tabaco. Com a mesma marca de café. Com os mesmos copos entupidos de água. Conversamos pelas mãos, sorrimos pelos toques, chateamo-nos pelos porquês que são as tuas respostas às minhas perguntas. Chegamos bem, discutimos a meio, e saímos bem. Nunca pressupus qualquer coisa contigo sem estes três degraus. Se assim não fosse deixaríamos de sermos nós. Seríamos outras dentro de nós. Deixaria de ter piada. Gosto da rotina da turbulência na minha vida. Gosto de discussões. Só contigo. Porque só contigo consigo ser eu, consigo dizer o que realmente penso, sem pensar duas vezes se é apropriado ou não.

- Gosto de ti.
- Porquê?
- Por não saber é que te gosto.
- Dizes isso a todas!
- E?
- E gosto que o digas a mim...
- Então estamos bem!
- Não sei, não gosto de estar bem contigo.
- Vai à merda!
- Vês? É assim que gosto de ti!
- Assim como?
- Insuflada em incertezas.


Nunca dormimos no mesmo sítio duas noites seguidas. Não fazemos rituais. Não dormimos abraçadas. As peles colam-se e nós fazemos tudo para que isso não ultrapasse o sexo. Trocamos beijos em demasia. Sim, sempre achei que nós funcionávamos em excesso. Não nos sabemos conter com tão pouco. E por vezes pedimos um quase-nada. Adormecemos a olhar uma para a outra. Com a chama dos corpos escondida pela distância segura do que temos receio. Talvez seja nesse preciso momento em que nos vemos melhor. No silêncio que se fala em palavras nunca ditas antes. Umas vezes esquecidas. Outras vezes deixadas em nós sem rasto para não as podermos seguir. Mas é nesse silêncio que nos amamos.

- Queres ir passear amanhã? Fugir durante um dia?
- Não sei...
- Porquê?
- Não me enerves. Deixa-me dormir!
- Se calhar fugia era hoje. És impossível!
- Foge. Não voltes. Hoje não te quero mais.
- Desprezo-te

Voltamos. Fugimos. Regressámos intactas com um sorriso na boca. Tratamo-nos mal tantas vezes que já não nos incomodamos. E dizes tu que não te acomodas. Acomodamo-nos ambas aos dias assim. A nunca acabarem como começaram. E mesmo assim são tão iguais. O máximo de tempo que estivemos separadas foram dois dias. Foi a primeira vez que nos tratamos mesmo mal. Gritámos. Assustámo-nos. Fizemos avisos, ameaças. Gritámos mais ainda. Partimos coisas. Dissemos nunca mais. O nunca mais durou 48horas. E custou.

- Já não gosto disto...
- Porquê?
- Porque não podes estar desintegrada de mim.
- A culpa é nossa. Tu gostavas de despedidas.
- Deixou de ter piada. Agora fere!
- Desde quando é que tu sentes dor?
- Desde que te disse nunca mais.
- Estiveste bem agora.
- Eu sei!
- Queres foder?
- Descobre...

Encontramos um equilíbrio. Já por várias vezes to disse. O equilíbrio no desequilíbrio. O desequilíbrio que descobrimos na nossa loucura. A loucura que foi o que nos atraiu. Atracção que se tornou em dias longos. Entendemo-nos bem em quase tudo. Menos nos gostos literários e decoração. Aí discutimos. Cada qual num lado, desistimos da nossa vontade em pouco tempo. Atiramos os desentendimentos para um canto qualquer e voltamos a comunicar. E aí voltamos a ser diferentes. Voltamos à rotina de nunca repetirmos o feito na véspera. Sentimo-nos vencedoras. E brindamos. E sorrimos. E quando estamos perto de dar um abraço, vamos cada qual novamente para seu lado. Se a distância um dia se quebra, todo o vidro que nos envolve se parte. E aí como nos reconheceremos?

- Tenho frio! Vem para mais perto...
- Não me apetece, eu estou bem.
- Egoísta, nunca o irás deixar de ser!
- Paciência.
- Vem!
- Não me canses.
- Merda!
- Queres gelado?
- Depende...
- Diz lá!
- Se o aqueceres primeiro...

Voltamos ao início da noite. Voltamos ao início de tudo.
A madrugada vem-se adiantando nos minutos. Os corpos esquecem-se de se protegerem e aproximam-se. Identificam-se. Cheiram-se. Encontram um espaço em comum. Regridem com os movimentos. Mas voltam a aproximar-se. A manhã não se atrasou e ensaiou-se com a luz nos dois corpos. Os olhos abrem-se. As mãos prendem-se. Dois olhares que se cruzam ainda na ternura do sono. Acordam numa só. Com a pele a transbordar entrega. Com os corpos a quererem conduzir outras noites como esta. Aos poucos sentem que se querem mais. Que a distância nem sempre é tão exacta quando sem nos apercebemos ainda nos guardamos.