quarta-feira, setembro 06, 2006

Vens falar comigo, vens-me falar do teu amor, do que esta tua nova relação te trouxe. Dizes estar feliz. Dizes que nunca antes tinhas conhecido tamanha felicidade. Dizes que nada poderá derrubar este amor. Porque o amor verdadeiro não se derruba. Falas-me que vivem juntos. Falas-me dos jantares que fazem a dois. Falas-me dos fins-de-semana de loucura. Falas-me que o sexo nunca foi melhor. Para ti tudo o antes não foi um nada de viver. Agora sim isto é viver.

Vens até mim, e eu oiço-te como a grande amiga que sou, e adoro saber que estás feliz, mas preciso de te avisar sobre o amor, sobre esse teu estado de felicidade que julgas inabalável:

Esse teu amor não é eterno, acabará, e quando acontecer tu vais cair, vais deixar de acreditar na vida. Vais deixar de acreditar nas pessoas. O amor para ti igualará a morte. Vais-te esquecer de ti. Vais fechar-te em casa. Sexo para ti será a mesma coisa que nada. Poderão entrar de ti que só um nada sentirás. Sim, para ti tudo será indolor. A partir de agora.

Porque o amor é assim. Preciso de te avisar, que o amor dá-te a provar o melhor que existe. E depois ele foge, acaba, morre – porque é assim que as coisas são…e depois viverás com o desespero de estares num fundo de um poço negro…e as pessoas chegarão até ti, e falarão contigo e a única coisa que tu vais dizer para ti será: Estas pessoas são tão diferentes de quando eu vivia o amor.

Porque tudo é diferente. Os dias. As horas. A forma do teu corpo na cama. A textura dos teus lábios. A humidade do teu sexo. A fragilidade de como se vê as coisas. As palavras caem no vazio. O coração fica eternamente fechado. Tudo é diferente, até nós somos diferentes, porque quem prova o melhor que há deixa de saber viver no depois.

E dizem que o amor é a melhor coisa do mundo. Preciso de te avisar que depois a vida não será a melhor coisa do mundo.

Nem tu.

domingo, setembro 03, 2006

A mulher chegou ao quarto já passavam das seis da manhã, nas últimas quatro horas tinha feito de tudo um pouco. Devolveu-se à serenidade que o álcool lhe parecia dar. Recolheu-se às palavras dos seus livros predilectos. Dançou as músicas que tiveram sucesso na sua adolescência. Embriagou-se de emoção ao tentar saber se a vida agora teria um sentido. Um só rumo. Masturbou-se tentando assim enganar a solidão dos seus dedos, do seu corpo magro, gasto. Nesta noite tentou enganar-se a ela própria. Mais uma vez.

A sua casa era branca. Num branco sujo rabiscado de memórias das coisas que nela estavam atulhadas. Coisas que na verdade não tinham a sua identidade. Não eram suas. Pertenciam às suas pessoas. Deixava-se aconselhar, deixava que os outros partilhassem consigo os seus gostos particulares e na angústia desmedida de sentir, fazia desses mesmos gostos os seus. E quando já os tinha adquirido gabava-se que se tinha apaixonado por tais coisas. E os outros sorriam, achando que tinham um grande sentido de persuasão ou muito bom gosto. Sorriam, as suas pessoas.

A sua vida era uma farsa, eram as únicas palavras que dizia a si própria nas suas muitas conversas para tentar matar as insónias. Sim era uma farsa, e dizia aos seus amigos, que agora seria outra pessoa. Porque ela era uma outra pessoa. Mas ninguém sabia, nem ela mesmo sabia. Os seus amigos, com gestos surpreendidos, diziam que só o tempo poderia fazer com que eles reconhecessem esta nova pessoa. E ela na tentativa desesperada que eles a ouvissem dizia para dentro que o tempo era a ilusão dos que precisavam de desculpas.

Daqui a dois dias, iria destruir tudo o que não era seu, achando que assim também iriam embora os últimos restos da outra mulher. Da outra assinatura que vivia na sua pele. As que os outros gostavam. A verdadeira – diziam eles. A falsa – sentia ela. O seu apartamento deixaria de ser branco. Deixaria de ser cheio. Deixaria de ser um espaço para convívio entre artistas. Pseudos. Porque os verdadeiros artistas não têm espaço próprio, tem vários espaços, aqueles que se escondem pela arte que criam.

Existiu uma partida. Definitiva. Ela sabia que sim. Mas vivia ainda na crença que a mudança ainda poderia acarretar regressos. Ela queria aquele regresso. Queria. Mas sabia, com mágoa, que ele não era mais do que um sonho. Daqueles com muitas cores. E sem um trilho de branco.

O quarto perdera a sua luz. Tudo perdera a luz. Com a partida.

E agora com os retalhos esquecidos de orgasmos sentidos nos lençóis, ela deitava-se tentando estabilizar a sua alma. Em vão. Nos próximos dias tudo seria em vão.

Até a morte.

sexta-feira, setembro 01, 2006

No depois-amor existe um período de negação
não do que nos morreu
mas sim do que nos restou.

terça-feira, agosto 29, 2006

Acordou nua com o corpo como prova dos movimentos, dos sons ensurdecedores de dois corpos unidos pelo prazer. Quis abrir os olhos e ver a pessoa que estava deitada a seu lado. Quis ver quem ali estava e respirar de alívio. Não queria que o prazer que o seu corpo latejava fosse resultado de apenas um sonho. Queria não estar sozinha naquele dia. Queria falar ou apenas sorrir. Queria ali alguém, mesmo que soubesse que a realidade levaria essa pessoa horas mais tarde porque para si aquele seria o resultado esperado das suas saídas de sábado à noite. Uma noite de sexo nada mais que isso.

Abriu os olhos e olhou para o lado esquerdo da cama, os seus olhos abriram-se mais ao verem um corpo nu, um corpo bonito enfeitado com marcas de outro corpo, de outras mãos, dentes ansiosos por carne humana. Reparou nos cabelos curtos castanhos-claros com traços leves de vermelho, reparou na forma como aquela pessoa dormia. Gostou estranhamente, gostou. E naquele momento assaltou-a um instinto de ternura e quis abraçar aquele corpo anónimo, que lhe ponha vontades nas mãos, que lhe acelerava a sua respiração. Quis mas controlou-se porque tudo na sua pessoa era controlado. Era algo nato. Controlou-se, virando-se para o outro lado, vestiu-se calmamente sem mais nunca olhar para aquele corpo. Aceitou que aquele era o fim e saiu daquela casa que não era a sua.

quinta-feira, agosto 24, 2006

"And then I looked up at the sun and I could see
Oh the way that gravity turns on you and me
And then I looked up at the sun and saw the sky
And the way that gravity pulls on you and I, on you and I"

Quisemos crescer dentro das palavras, daquelas que semeámos, tentando com isso cortar com as amarras quebradiças do passado. Do que nos corre pela respiração. Fizemos de nós, o elo de ligação, a virtude da sobrevivência. Unimos as mãos tentando com isso provar que agora será diferente. Que o medo poderia nos morrer. Que o amor poderia deixar de se arranhar nas paredes e renascer na nossa cumplicidade.

Quero que pares. Quero que me olhes e tenhas certeza do que sou. Em ti. Em nós. No que durante tanto tempo escondemos. Preciso dessa certeza, tens que entender…
Agora é o tempo de pararmos, de deixarmos de arranjar desculpas, outras pessoas, outros contratempos.

Nenhuma história vai esperar por nós. Nada espera por nós. E o nosso caminho há muito que está feito, precisámos sim de o agarrar.
Mais do que nos entranhar por dentro, mais do que nos sentirmos, mais do que tudo o que existe, é preciso decidir.

Deixei de saber esperar por nós. Não o suporto mais.

Já não me conheces o suficiente?
Já não sabes que me ferem os minutos?
Esta vida que se prolonga?

É agora
Este momento

Preciso que decidas
Que me abraces
Que me cheires
Que me deixes ficar em ti

Porque no amanhã
Já nos perdemos


De novo
Sempre
Até que deixe de haver espaço para nós

Para os nossos nomes
Para tudo o que poderia nascer.


Sei de ti
Nesta ausência
Que me vinca a alma.


Agora

terça-feira, agosto 22, 2006

Noite de Verão

A noite começou como uma normal noite de Verão. Precisava de libertar os demónios dos últimos dias, e a ideia de ir beber um copo com as minhas amigas, não me soou nada mal.
Entrei no bar já usual das noites de Agosto. Vi-te logo ali a socializar perto da entrada. Revisitaste-me os olhos. Já nós tínhamos cruzado algumas vezes, mas a tensão nunca permitiu qualquer aproximação. Até esta noite, em que as palavras precisavam de som e os corpos de alento. Continuamos observando os passos uma da outra, as nossas amigas eram o pretexto para não arriscarmos qualquer aproximação. Até que o teu olhar se permaneceu de mais no meu e dirigiste-te à casa de banho. O instinto levou-me a seguir-te. Sentia o pânico a engolir-me os pés mas tinha que ir ter contigo. Abri a porta e estavas encostada a uma parede negra com poesia escrita a tinta branca. Tu e as palavras. Gostei demasiado da combinação para contrariar as minhas vontades.
A minha boca assaltou a tua num ímpeto que não dava para ser controlado. As minhas mãos prenderam-se às tuas ancas e a força do corpo obrigou-nos a entrar dentro de um dos compartimentos. A rapidez do desejo que nos ameaçava nem nos deu oportunidade para perguntarmos os nossos nomes. Naquele momento isso era o que menos importava.
Sentia a tua língua a embriagar-me, sentia-te a criar em mim novos desejos. As minhas mãos agarraram-se ferozmente às tuas nádegas enquanto sentia o meu sexo a latejar cada vez mais em desejo. O teu corpo colou-se ao meu e cravei-te beijos inquietos nos teus ombros. Viraste-te e pregaste o meu corpo já quase nu à parede, abriste-me as pernas e rasgaste-me o sexo de prazer. Enquanto te movimentavas dentro de mim, perguntaste-me se queria ir para tua casa. Respondi-te que sim depois de me dares o orgasmo. O primeiro daquela noite.
Arranjaste-te e disseste que me esperavas à porta. Logo a seguir encontrámo-nos.
Dentro do carro, dei de beber à sede que se ancorou na minha língua, e já em tua casa algemei-te a alma ao sexo e dei-te prazer até amanhecer.

Presenteaste-me com a melhor noite deste Verão. E eu dei-te a conhecer o que o teu corpo pedia e tinhas receio de lho dar.

Ficamos ambas a ganhar.

sábado, agosto 19, 2006

Chego a casa, com a luz a pressionar-me o corpo ao descanso. Chego após mais uma noite de sedução, de esbanjamento de olhares, de troca de palavras viciadas em vista de um único resultado: descarga corporal. Existe um jogo, uma disputa, uma argumentação que está preparada ao mínimo detalhe e que não tem hipóteses de falhar. Tudo está descrito na minha mente. Cada palavra. Cada sorriso. Cada toque. Tudo elaborado subtilmente de forma a ganhar o seu espaço sem que a outra pessoa repare. Ás vezes o jogo tem sucesso, e temos companhia no máximo para um mês. Mais do que isso é proibido. Tudo começa com um jantar, um lugar que surpreenda, que eu conheça bem para não haver qualquer tipo de deslize. O sucesso está em surpreendermos sempre. Causarmos espanto e surpresa mas nunca sermos surpreendidos. Se isso acontecer, está tudo condenado a um fim muito mais rápido. Do restaurante, passámos para um bar com música calma com vista para o rio. Sem carros. Apenas táxis. O toque começa aí, na parte de trás do táxi, cria-se o ambiente, com a articulação certa das palavras, com a respiração bem controlada, com o contacto entre os olhos sempre presentes, captámos a atenção e a mão poderá dar um pequeno avanço, poderá se descair. Nervosismo é coisa que está fora de moda, e não pode ser usado. Confiança é outra palavra-chave. A confiança é uma das virtudes do charme mas nasce mais cedo. A confiança escolhe as pessoas, possuía-la é algo muito dispendioso, quase que nos assassina a alma. Não a trocaria por nada. É um bem necessário. Molda-nos tudo. E a partir daí possuímos a arte de conseguirmos também moldar as pessoas como queremos, sem nunca estas o perceberem. Se o conseguirmos fazer, merecemos os aplausos finais. Merecemos o corpo nu estendido à nossa frente, pronto a ser mutilado em suor gasto, despejando o nosso desejo por todos os seus poros. Do nosso orgasmo nascem os outros orgasmos. Multiplicam-se, porque a arte também está em saber o ouvir o corpo das vítimas. Ele nós dirá como o deixar viciado, pronto a ser mutilado as vezes que o desejarmos. O corpo leva a mente aonde nós o desejámos e o resto o tempo fará.
Do restaurante e do bar, passamos a uma rotina de fazer crer. Fingir que essa pessoa faz parte da nossa vida. Fazê-la acreditar que está a viver algo de muito especial, que ela própria é especial. Afinal o que lhe oferecemos nós? Felicidade momentânea que lhe pertence durante um mês. Talvez nunca mais a venha a provar. Serviço público eficiente é o que nós fazemos. Deviam-nos agradecer. Mas isso não acontece. Portanto quando esse mês acaba o melhor que temos a fazer, é pegar nas nossas coisas e mudar de espaço. De linhas da cidade. Assim evitámos ser testemunhas de alguns suicídios ou testemunhas do nosso próprio massacre. Sim porque depois de provar tamanha felicidade, as pessoas enlouquecem e acham que a vida acabou. E talvez tenha acabado. Deixem lá. Temos outras vidas para viver, isto se acreditarem claro, se não acreditarem, então esqueçam não há fé para vocês, o melhor é mesmo matarem-se.

Aleluia.

quarta-feira, agosto 16, 2006


Deito-me nos sonhos que o teu corpo me dá a descobrir.
Deito-me sobre essa tua alma vazia de interrogações, cheia de entrega.
Preciso de ti. Preciso de me agarrar aquilo que me dás.

Mesmo que eu nada sinta
Mesmo que eu saiba que isto não tem futuro
E que vou ter que partir

Mas agora é disto que preciso
De sentir que te tenho
Que és minha

O meu egoísmo explode dentro de mim
Mas não resisto

A fazê-lo de novo.

Preciso

Porque nada mais
Me consegue fazer sentir.

E sei que te vou magoar
E sei que te podia avisar

Mas não o vou fazer

Porque tu és a presa
E eu a caçadora

E no final serás mais um troféu.

Não te vou pedir desculpa,

Porque ninguém pede desculpa por sentir.

E é assim que eu sinto,
Só assim.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Desassossego (E até já...)


As palavras

Morderam-se

de desejo



E na tua ausência


Morreram-me.




(Perdi-me no número de noites em que quis que me acolhesses.)


E tu?

sexta-feira, agosto 04, 2006

Encontrámo-nos uma última vez. No verão ardente que se imponha nos nossos sentimentos já tão gélidos. Tínhamos nos nossos olhos a tristeza de quem deambula nos dias. A mágoa de quem não conseguiu fazer as coisas direitas. A frustração de mais uma vez o amor não ter tido força suficiente para nos manter juntas. Naquele dia, o adeus era a sombra que separava os nossos corpos. Era o movimento dos corpos que queriam sair dali. Eram os batimentos que a pouco e pouco desfaleciam nos nossos corações moribundos. Não me lembro das palavras que trocámos, não me lembro se ainda te amei naquele dia. Ou se ainda mantinha em mim a esperança de que as coisas pudessem mudar e estarmos juntas ainda fosse uma opção. Não me lembro. E talvez isso seja a salvação. Porque tudo o resto nos morreu.

Cruzámo-nos ainda outras vezes. Com os olhos quase fechados disfarçávamos um sorriso. As palavras afogavam-se em saliva e cada qual mantinha a sua rota. Ainda tenho tanta coisa para te dizer. Coisas que agora talvez tenham perdido o seu sentido. Nunca soube apreender muito facilmente o tempo certo das palavras. Porque tudo tem um tempo único. Exacto. Em que nada lhe poderá roubar o protagonismo. As palavras também revelam esse tempo e eu deixei passar o nosso. Agora a única coisa que se salvou foi um sorriso, que se mantém ano após ano sempre que nos encontrámos. Se um dia tiveres atenta, poderás entender, que é o mesmo sorriso que soltei da primeira vez que te vi. Continua intacto. Verdadeiro.

Se um dia, voltares a este espaço onde me revelo,
Quero que saibas que lamento o dia em que desisti de nós.
Mesmo não sabendo que isso era desistir.
Mesmo nunca entendendo que assim te perderia.

Tinhas razão,

A minha porta nunca esteve aberta para ti.

Nem para ti
Nem para ninguém.


Beijo.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Cheguei à tua porta de madrugada, unicamente com as roupas que tinha no corpo, um maço de tabaco e um sorriso de quem quer foder. Abriste-me a porta, com os olhos carregados de sono. Não me disseste olá, nem bom dia, nem como estás. Perguntaste que fazia eu ali. Respondi-te que as insónias estavam a dar cabo de mim e precisava de foder. De preferência com alguém que me desse muito tesão. De preferência com alguém que não fosse muito complicado. Mandaste-me embora. Disseste que já não querias continuar com aquilo. Acendi um cigarro. Fiquei a olhar-te enquanto esfregavas os olhos. Olhei-te enquanto os teus pés não ficavam quietos. Enquanto via as tuas mãos trémulas. Via tudo e não via nada. Apaguei o cigarro. Despi-me à porta da tua casa. Arranquei-te a roupa com a velocidade de quem não tinha tempo a perder. Fechei a porta, enquanto enterrava a minha mão na tua boca, de forma a te calar os gritos que me desconcentravam. Levei-a para a sala e com movimentos bruscos consegui deitá-la no chão e prender-lhe as mãos. Escorreguei a minha saliva pela sua boca, obrigando a sua língua a unir-se à minha. O seu corpo lutava contra o meu, enquanto o calor se derramava e o tesão me inundava. Fartei-me dos seus nãos. Fartei-me daquela luta. Desamarrei-lhe as mãos, beijei-a na testa e servi-me de um whisky puro como o sexo que queria fazer. Pendurei-me no sofá, acendendo um cigarro enquanto a olhava incrédula, completamente sem palavras. Perguntou-me porque tinha eu parado. Respondi-lhe que fartei-me, que fiquei impaciente e que a vontade de foder mudou de cara e que já não era a dela. Levantou-se e tentou fixar um estalo na minha cara. Agarrei-lhe a mão e puxei-a para mim, sentei-me no sofá e abri-me em desejo para ela. Desfrutei da sua língua quente, envolta na prova do meu prazer, deslizando a textura dos seus dedos para dentro de mim, fazendo com que me baloiçasse no sofá. Com a mão entrelacei-lhe o cabelo, agarrando-o vorazmente quando me sentia a ser devorada, fodida em todos os meus recantos de desejo. Sentia-me satisfeita, com o orgasmo ainda presente no meu corpo. Lambi-lhe os lábios e as mãos. Envolvi-a num beijo que mais do que ser quente, era frio. Era um beijo de despedida.

Enquanto ela foi buscar gelo, peguei nas minhas coisas e parti.

terça-feira, agosto 01, 2006

Deixei de me esconder pelo tempo. Deixei de renegar o que sinto. Não consigo ser mais uma sobrevivente. Não consigo mais ser um poço de ar que se arranha para conseguir acreditar. Acreditar. Durante os últimos quatro anos, falaram-me de amor, tentaram encantar-me com palavras, não sabendo elas que já eu sou a rainha das palavras. As palavras são o meu alimento diário. Não é por elas que me provarão o amor que dizem sentir por mim. Não será por sorrisos. Não será por beijos infiltrados na pele. Não será por histórias encantadas e por destinos inventados. Deixei o poder de me encantar num monte verde. Deixei a fé no amor num barco que construí no meu corpo. Engoli-o ao mesmo tempo que mastiguei o amor rezado pelas mulheres que me disseram amar. Acusaram-me de pouca entrega. De ser egoísta. De só pensar em mim. De só querer sexo e desafios a toda a hora. Acusaram-me de dar pouco. De não saber o que é sentir a entrega de um abraço. Um afago. Uma palavra bonita. Acusaram-me de desistir de um amor que nunca foi por mim sentido.

Não quero que espraiam o amor sobre o meu ser
Não o saberiam fazer.

Vocês nada percebem do amor
Confundem-no com palavras
Com sorrisos
Com entrega
Com dar
Com receber

Com orgasmos
Resolvidos
Depois de fazerem o tal amor.


Digo agora:

Vocês que me acusaram
Vocês que me choraram
Vocês que me quiseram prender o coração
Vocês que quase que morreram
E após tão pouco tempo
Já estavam nos braços de uma outra
A quem amariam da mesma maneira
Como a mim disseram amar.

Tudo o que saiu da vossa boca
Das vossas mãos

Soa-me a mentira
A repetição
A maldição.


Eu não percebo nada de Amor,
Só percebo:

As palavras
Os sorrisos
O querer
O desejo
O escuro
A dor
A frustração
A inquietação
As insónias
A razão
A mentira
O fingimento.


Vocês
Que julgam
Saber o que é o amor

Vocês que julgam
Que me souberam amar


Nada sabem.

Pouco sabem
Sobre o sentir.

segunda-feira, julho 31, 2006


Possuir-te-ia
numa
dança
que começaria
pelos sentidos,

que se prenderia
pelos
movimentos.

O teu

orgasmo

seria

larva

na minha língua

quarta-feira, julho 26, 2006

Regressaste a casa pelas 6h da manhã. Tinhas os efeitos da noite marcados nos teus olhos. No aspecto da tua roupa. No teu cheiro de mistura de pessoas. Mistura de tudo e mais alguma coisa. Fizeste barulho. Acordaste-me. Estavas num amanhecer em que te apetecia conversar. Despiste-te e sentaste-te a meu lado. Tocaste-me o cabelo. Olhaste-me mais profundamente do que eu poderia querer. Falaste da tua noite. Das pessoas. Dos lugares. Escutei-te num silêncio de quem não quer saber o que fizeste. Num silêncio de quem se está a foder para ti. É isto que acontece quando chegas de madrugada e queres conversar. Eu simplesmente deixo de me importar. E tu danças pelas palavras como se fosses importante. Como se fosses importante para mim. Mais do que o meu sono. Mais do que a minha própria insanidade mental. Não o és. Mas gosto que penses que és. Assim fodes mais outras pessoas e tens menos necessidade de foder comigo. A nossa relação é perfeita. Sempre to disse. Eu vivo os meus dias concentrada em mim enquanto tu achas que és o que mais importa na minha vida. E passeias-te cheia de luz pelos dias. Com um sorriso vitorioso. Com um ego patético de quem se conhece muito bem e de quem acha que é o centro do mundo.

Daqui a minutos calas-te.
Daqui a horas acordas com o tesão a morder-te o corpo.
Daqui a dias a nossa relação deixará de ser perfeita
Porque vou dizer-te
Que tudo o que achas que é verdade, certeza
É mentira
É incerteza.

segunda-feira, julho 24, 2006

I want you


“I I I I I I want you you you you you you
Oh I I I I I I want you you you you you you
Said I I I I I I want you you you you you you
So what we gone do? What we gone do?”



Quero-te hoje fora de mim. Quero que desocupes o meu coração. Quero apenas que exista um sinal de ti na minha mente. Não quero pensar no que esperar de ti. Não quero pensar no que quero de ti. Não quero perguntas. Nem respostas. Quero-te apenas sem o rasto do passado, nem a pressão que se acomoda no presente e sem os sonhos do futuro. Hoje não precisamos disso. Precisamos de encontrar um tempo próprio nos nossos corpos. Precisamos de saborear o desejo, arriscar as palavras, não respirar fundo e sim saber perceber o que pode acontecer. Sem ideias pré-estabelecidas. Sem conceitos esmagadores de sentires. Sem travões e sem aceleradores.

Quero que te sintas a ti, quero que te explores, e ao o fazeres me encontres em ti. Quero desnudar-te a alma com o toque das minhas mãos, romper-te o peito e abraçar-te o coração. Quero entrar em ti com um beijo que não tem nome, que apenas se espelha no desejo que deixas esvair em mim. Quero partilhar contigo estes sentires, de um corpo que se aceita, que se vê como completo mas que se repercute no teu. Desmaiar-te em sonhos de toques, que se derramam na tua boca, que é seguida pela lentidão da minha língua, desflorando-te os pensamentos. Confundindo-te a pele com cheiros que me atravessam o tesão. Quero que te deixes ficar de pé, com a nudez colada à minha, que te deixes conduzir com os passos que as minhas mãos te dão, com a velocidade controlada de quem sabe como dançam as pontas dos meus dedos, ao som de uma melodia que te cresce na respiração, à medida que deixas de perceber se é a tua ou a minha que ouves.

Quero que pares quando te puxar para mim e revelar à tua língua o percurso que quero seguir. A viagem que quero iniciar na tua boca, com todos os trajectos possíveis e que quero que acabe novamente nos teus lábios que estarão doridos dos desejos que irão conceder e receber.

Quero que te deites desembaraçada de lençóis, despir-te-ei os medos com a ponta da minha língua, que se perde inquieta nos recantos do teu corpo, desenhando palavras que se deixam ficar encostadas às tuas expressões, recolho-me nos teus seios, fazendo suscitar arrepios demorados, que se deixam prender ás minhas mãos e à sede que trago na boca. Permaneço o tempo suficiente para te sentir deliciosamente em mim, para arriscar cravar-me na tua pele, para arriscar fazer-te derramar em desejo, transpirando em nós sentires, silêncios encobertos de vozes…

Quero que te soltes em mim, que me tomes como tua nesse resguardo que é o teu ventre, em que quero escrever sentidos,

Em que quero….

(Entra na minha mente, fecha os olhos, e saberás que quero eu….)

domingo, julho 23, 2006

Desencontros. Desencontros entre duas noites. Imaginámo-nos a dançar. Imaginámo-nos gelo preso entre duas línguas. Clandestinamente reservámo-nos de espaços e abrimos recantos no desmembramento dos sonhos. Quantas vezes invadimos as roupas coladas ao corpos nos dias chuvosos de um Inverno que se demorará a chegar. Tomamos pequenos-almoços de sexo, enfrascadas de desejo numa banheira de algum hotel da capital. Esvaziámos a loucura dos bolsos ilusórios da nossa mente nos dias em que nos desgastamos tentando criar em nós a cumplicidade dos momentos. Juramo-nos arte perante ruelas sujas nas horas vagas das madrugadas que quisemos fazer nossas.


Hoje acordamos, sem os lençóis da nossa presença.

Deixamo-nos ficar naquelas noites, naqueles devaneios inventados por nós, sempre à espera que um dia se tornassem realidade

Os caminhos

Que deixamos de percorrer

quinta-feira, julho 20, 2006

Sentas-te à minha frente. É a primeira vez que o fazes nesta jornada que se tornou a nossa vida em comum. Antes era a meu lado que te sentavas, aceitavas a distância que eu precisava de manter entre nós. Não a julgavas. Não a questionavas. Dizias que o mais difícil não era essas reticências nascidas em mim mas sim o facto de não me angustiar a tua falta de interesse. E tinhas razão. Quanto mais intacta estiver o que sou perante os outros, melhor durmo eu à noite. Menos descubro eu, menos dou a descobrir aos demais. Principalmente a ti que me eras tão próxima. Mas para ti o caminho tinha de ser outro.

Aqui te tenho eu à minha frente, a antever nos teus olhos a vontade que tinhas em entrar por dentro, a tua vontade intimidante de pores em cima da mesa tudo o que sempre escondi de ti.
O silêncio dos olhares sempre foi uma boa forma de me alucinares os momentos. Questionaste-me. Puseste em primeiro lugar o teu recente medo do desconhecido. E não sairias dali enquanto não respondesse a todas as tuas dúvidas, interrogações, inquietações que te desmembravam o sentido deste amor, deste qualquer coisa…

Nada te disse. E aí perdeste o controlo. Levantaste a voz e disseste-me que não fazia sentido estes dias se não soubesses quem eu era. Falhaste ao me encostares à parede branca da realidade e me podes duas opções: ou eu me despia de enigmas ou tu partirias.

Escolhi-me a mim e aos meus enigmas. Nunca poderia escolher outra coisa.

Sabes qual foi o teu maior erro? O momento em que falhaste?

Quando não conseguiste compreender que era eu que estava sentada a teu lado. Era eu. Mesmo com códigos ilegíveis era eu.
A tua ânsia de me conheceres fez com que perdesses a razão do que erámos

segunda-feira, julho 17, 2006

Dançamos pelos rios que se iniciam nas nossas bocas. Provocas-me rasgando-me os lábios com os dentes. Chupas. Lambes. Incendeias. Penetras-me a boca com a tua língua. Roçamo-nos em palavras. Mergulhámos dentro das nossas roupas. Levas-me a puxar-te para mais perto. E afastas-te com o meu sangue impregnado na tua boca. Sentas-te altiva. Olhas-me enquanto te transpareces de desejo. Dás-me a descobrir os teus seios que te soltam da pele. Dás-me a prová-los através dos dedos que te humedecem os mamilos. Transformando-os em pérolas. Embrulhas-te nas paredes. Afagas o teu cabelo, deixando-o cair pelos teus olhos. Nunca chegas a quebrar a nossa ligação. Nunca deixas que os meus olhos se afastem da tua sensualidade encoberta de sexualidade. Alicias-me o corpo. Movimentas-te, alimentas-me a mente. Deixas que as tuas mãos se deslizem ferozmente pelo teu ventre. Trazes-me os teus dedos à minha boca, e entras dentro de ti. Sentas-te à minha frente, prendes-me os movimentos. Conduzes tu. Mexes-te freneticamente pousando sempre os teus olhos nos meus. Sempre gostaste de teres em ti o poder de me veres a descontrolar. Sempre gostaste de me deixar cambaleando no desejo que é teu. Continuas a tua dança. Pintas-te no orgasmo que te quero oferecer. Resistes sempre à espera dos meus passos em falso. Sabes que não sei esperar. Conheces bem a minha impaciência em te possuir. A minha vontade de foder quem se recolhe da minha pele. Paras. Recomeças. Soltas-te em sons abertos. Sais de ti e trazes novamente os teus dedos à minha saliva. Gostas de me dar a beber o teu tesão. Pego em ti e prendo-te em mim. Tentas-te libertar. Não o queres, mas tentas. Gostas das marcas que ficam depois destas noites. Do fogo que te marca a pele. O mesmo que te fode mesmo quando dizes não querer. Que estás farta que tudo entre nós comece e acabe na cama. Repetes-te vezes sem conta. Repetes-te até deixarmos de ser duas pessoas. Rasgamo-nos. Folheio-te até te sentir a pele gasta. Até sentir que até os mares secam. Resigno-me a me deixar ficar na tua pele. Na tua boca salgada. Acordo em sonhos o teu sexo. Acordo-o e adormeço-o. Sem intermédios. Esgotamo-nos. E a partir daí a única coisa que sentimos é a cinza que cai por acidente nos nossos corpos.

quinta-feira, julho 13, 2006

“Take me down to your river
I wanna get free with you.”

Aspirámos sonhos no calor que nos humedece a textura dos sentimentos. Embrulhamo-nos como se apenas em nós recaísse uma só pele. No final da noite, derramamo-nos em beijos, sufocamos, entranhamo-nos nos poros do prazer que bebemos como larva que se abre nos nossos sexos. Saboreamos palavras enquanto desfilamos com a nudez suada, que se desliza por caminhos proibidos. Tentamos combater este tempo que não é o nosso, este tempo que não se escreve apenas com os nossos nomes. Tentamos combater a distância que nos enclausura em ausência do que ainda temos fé de vir a provar. Discutimos, tentando prever o abraço que daríamos se a presença fosse algo nas nossas vidas. Tentamos prever os momentos, os sentires que nos caem como angústia, como impossibilidade de nos virmos concretizar neles. Invadimos as madrugadas, na masturbação que nos põe mais próximas, repetindo os orgasmos como se estivéssemos coladas uma na outra, rasgando o espaço que é grande demais para o desejo. E sofremos, sei que também enlouqueces na amargura que nasce o após, o após mais uma vez não termos estado juntas quando o desespero do desejo nos cai na pele, como vício não satisfeito. Recolho-me em ti nessas noites. Escolho o recanto que ainda não é meu. E quando acordas sobressaltada pela noite fora, sou eu a possuir-te, a cravar-me em ti de forma a que me sintas mesmo que não penses que sou eu.

terça-feira, julho 11, 2006

Sexta-feira à noite. Três mulheres, 22, 35, 50 lançam-se na noite. Brinda-se à lua, a tantas outras coisas. Pegamos em nós e vamos para o bairro alto. Passeamos pelas ruelas. Encontramos pessoas. Sorrimos. Trocamos palavras. Purex. Madrugada. Bebe-se vinho do porto, água e licor beirão. Sentámo-nos. Deixam-me embalar pela música. Trocámos olhares. Desenhamos mensagens. Escrevem-se palavras em postais de publicidade. Fumo os meus cigarros. Vocês queixam-se de sono. as palavras sobreviveram e chegaram a casa. Aqui estão elas:

1º Postal
Abranda a solidão neste preciso minuto.
Afaga os olhos neste afecto que te brilha por dentro e que apenas o sabes renegar.
Alivia-me a cadência desta espera. Atormenta-me pelas pausas da loucura.
Lança-me grades de sufoco enquanto a tua boca em silêncio se desfaz na minha.



2º Postal
Prefiro-me indecência. Salubridade.
Prefiro-me tudo aquilo que achas que não sei ser.
Nos abraços que me mentes, na inocência de que me levas a desejar.
Entrego-me por instantes. O tempo breve em que me sinto tua.
Em que não consigo ver o que tu gostas em mim.
São estes momentos intemporais em que inicio a minha fuga para longe de ti.


3º Postal
Inicio esta dança sob a negritude dos candeeiros.
O ritual da ambivalência das minhas próprias mãos que se arrastam em lentidão pelo rasto incendiado do meu corpo.
Não me descubro em caminhos, recrio-me mapas de palavras descentradas.
No princípio da pele encontro-me.