sexta-feira, outubro 13, 2006

Tu – minha Mulher.

Eu – tua Menina-Mulher.

Somos-nos
Reconhecemo-nos
Inteiramo-nos
Abrimo-nos
Assumimo-nos
Alimentamo-nos
Possuímo-nos
Invadimo-nos
Quebrámo-nos

Tu singular, na minha pluralidade.
Eu certeza, nos teus medos.

Duas. Sempre Duas.

Sexta-feira 13 – Um dos nossos dias. Por dentro de todos os outros que ainda não iniciámo-nos.

Os teus olhos abrem-se
No silêncio
Do que sentimos.

E as madrugadas são os beijos que nos fecham do que nos atinge.

Brindemos à indefinição, a que demos um nome, no último suspiro de um orgasmo.

(Lê-o nos meus lábios)

segunda-feira, outubro 09, 2006

(Re)nascer


Este dia. Esta tarde. Tudo se multiplicou em mim. O destino ficou-nos nas mãos. Deixámos de controlar e a palavra "fugir" começou a desaparecer das nossas visões. Encarámo-nos, vivemo-nos, respirámo-nos, confundimo-nos nisto que agora é nosso.
Deixei as teias no passado. Apaguei os medos e sinto agora em mim uma coragem que até então me era desconhecida. Que estes dias se prolonguem na esfera das nossas vidas. Que as nossas palavras nunca percam o seu sentido. Que os prazos se esqueçam no tempo. Que o sermos seja tatuagem nos nossos corpos.
Alimentamo-nos nesta viagem intemporal, com o reencontro sempre presente sejam quais forem as partidas. Os erros. Os desentendimentos. Saber-nos-emos, sempre, neste magnetismo que nos detém juntas.
O agora é mais do que hoje. É para além do amanhã. É tudo o que queremos e sabemos que vamos ter.

sexta-feira, outubro 06, 2006

As palavras cansam-me. Quando leres esta primeira frase, vais pensar para ti: “Quem diria...sendo tu uma miúda tão faladora”. E apetece-me sorrir ao imaginar-te. Não, não vou começar com os devaneios atordoantes. Não vou dar rasgos à loucura. Não me apetece escrever. A escrita é sobrevivência, mas é bom morrer nestes intervalos, preciso-os também. Como preciso de ti. Neste momento esperas-me, o teu corpo ressente-se da minha ausência, apenas de minutos. Poder-te-ia contar em silêncio a forma como rasgas toda a minha vivência até agora. Como me enalteces os momentos. E os sentidos. Hoje senti-nos a respirar.

E agora?

Daqui a horas despedimo-nos. E já me alucina a ausência. A perda. A premonição que isto só vai aumentar a intensidade. O desatino. A inquietação. E agora sim, vamos sentir-nos a enlouquecer. Querer e não querer. Sentir e não assumir. Ir e voltar. Perdermo-nos sabendo que temos na palma das mãos as direcções todas anotadas. Decoradas. Assimiladas.


Leva-me de volta aquele pôr-do-sol e demora a trazer-me de volta à realidade.


Fecha os olhos, pressente a cadência da minha voz ao teu ouvido e ouve-me:

“Não existe outro agora que não o nosso. Esqueci-me da palavra “temer” no ontem. Fiquemos. Aqui. Por ora. Ou mais, no nada que nos é tudo.”

sábado, setembro 30, 2006

História de Embalar

"A tua verdade é tão frágil...parece que é fantasma.
As omissões são mais imperiais.
Cadências.
Mentiras mutantes."
- P.F




Era uma não só vez, uma Puta. Dormia nas masmorras do meu coração. Dormia em véus de desejo. Fumava cigarrilhas francesas. Bebia vinho tinto. Lia pouco. Falava muito. Fodia outros corpos menos crentes que o seu. Gemia em silêncio. Gritava em loucura. Dormia abraçada ás presas expostas no seu talho pessoal. Sorria muito. Soltava gargalhadas infernais. Alimentava-se de banquetes com tons negros de orgasmos.
Nas suas folgas de caçadora infalível atirava-se às mamas de mulheres ingénuas que viviam com o terror de serem novamente magoadas. E morriam orando ao Deus Nosso Senhor que lhes salvassem o coração partido e lhes devolvessem a alegria de viver (que sem o amor se perde, tenho ouvido eu dizer(Posso-me rir?).
Nas madrugadas das suas ditas folgas, metia-se dentro da banheira e afundava cada vez mais os seus sonhos à medida que sentia a excitação no meio das suas pernas. Sonhos de outras vidas. De outras faces que pretendia encarnar. Sonhos que morriam na água que a lavava.
(Se, por um acaso, se perguntarem se isto faz algum sentido, posso desde já adiantar que não, não existe qualquer sentido nisto, apenas se trata de um acaso. Um acaso da escrita.)

quarta-feira, setembro 27, 2006

Regresso(te)

Entrego-me em raízes ao teu corpo, enquanto te rego com a língua as profundidades que escondemos de nós próprias. Solto-me quando me beijas a alma, devagarinho contrariando a intensidade do que vivemos. Sinto-te por dentro quando a tua respiração se prende ao meu ouvido e oiço-te em palavras que não dizemos.

Amanhã retomarei o nosso caminho e tudo fará sentido.

Tudo.

sábado, setembro 23, 2006

Deito-me nesta mesa dos pressentimentos, de nudez colada a uma madeira escura pernoitada de luz que antecipa o nascer de um dia. Mais um, na contagem decrescente da leitura da minha vida. Ou quase vida. Rastejo as minhas mãos pelos caracóis desconcertados que se ficam pelos meus ombros calejados de beijos raivosos, penetrantes.
Trago em mim os cheiros de Outubro, das folhas secas que me ferem o corpo em desatino de desejo, de quebras desalinhadas de lábios fundidos pela minha pele arranhada de perdição nos tragos de luxúria que encontraram aqui o seu leito.
Procuro-me com a ponta dos dedos como se seguisse um rastilho de pólvora pront0 a ser despertado, atormentado com o receio de explodir. Sigo-me pausadamente, como se a ponta dos meus dedos fossem os teus emprestados, cedidos à vontade nossa de me liberares, de me ouvires pronunciar as palavras que anunciassem o meu nascimento.
Encadeio-me em sons que são silêncio sequestrado na minha garganta, sufoco nesta ausência que me prende o calor ao corpo e faz-me revirar apoiando os meus seios estonteados ao vidro embaciado da mesa, enaltecendo a pressão nos joelhos aguardando que tomes posição neste espaço e me esventres a solidão do meu desejo. Depois de sentir-me presenteada desenfreadamente pelo cansaço de todo o meu corpo, dar-te-ei a beber o que ainda me resta nesta espera desinquietante que é me sentir descoberta pelos teus olhos.

terça-feira, setembro 19, 2006

Nasceste submersa nas verdades que tento esconder. Nas mentiras que invento para as conseguir acreditar. E no fundo eu já não sei quem sou. Sei que sou má pessoa. Sei que nada em mim me impede de magoar os outros. Sei que quero, quero muito mas a meio caminho já me fartei do que me espera, do que sei que vou ter. Não consigo deixar de querer, e isso tens de saber que é verdade, é esta a minha natureza. E tudo o que quero vou conseguir. Porque para além de o querer, sou forte o suficiente para o concretizar. Com muitos entraves, com muitas dúvidas. Nem sempre à minha maneira mas consigo. E isso é que me faz dormir descansada (ou não). Já to disse uma vez, visto todos os dias a pele de um camaleão e sou todas as pessoas que queres que seja. E poderei fugir dos outros à vontade. Ninguém me irá conseguir apanhar. Conhecer. Arrancar de mim o meu coração. O amor que duvido que exista em mim.

Preenches-me a carne dos desejos sem nunca me alimentares. Não me queres alimentar. Não me queres deixar provar o prazer da insaciedade. E eu gosto desta guerra. Deste destino que nos sai das mãos, que deixou de pertencer às nossas vontades racionais. Gosto como se abortasse um orgasmo. Ou dois. Ou todos os que fazes crescer por dentro. No interior do meu ventre.

Um dia. Apenas um só dia, eu permitirei que me tomes. Que te escrevas na minha pele. Que me alimentes sem me viciares. Que me sorrias sem te dares. Que me beijes sem me atormentares. Que comas o meu coração inteiro. Um só dia. Só assim conseguirei acordar no outro dia e sentir que posso estar sem ti. Sem amarras. Sem as memórias a invadirem-me o corpo com o teu cheiro. Com as tuas mãos a concretizarem-me.

Um dia, nada mais do que isso.

sábado, setembro 16, 2006

Entreabres-me o ventre com a fúria que antecipa a satisfação máxima que não existe sequer. Aguardo-te na impaciência que não sei fingir, e faço orações aos deuses dos desejos para que não te demores. Para que encerres já esse teu jogo que criaste para me tentares controlar. Neste momento em que te aguardo, estou-me a foder para os teus jogos e se não tens coragem para me possuíres como eu gosto, então nada estás aqui a fazer.

terça-feira, setembro 12, 2006

Encontrámo-nos em mais um dos meus desencontros. Retorno às tuas mãos quando a vida me pára. Quando a vida deixa de fazer sentido. Deixas-me entrar, sempre o deixaste, nesse pormenor de amor perfeito que não existe mas que não deixas de o fazer crer.
Acolhes-me quando o silêncio se impõe como destino último e lês-me palavras antigas que descobriste, por um acaso, na tua livraria favorita. Fazes listas do que ainda não fizemos juntas e no meu peito desfolhas beijos com sabores tardios de madrugadas neste verão já quase findo. Depois sorris quando me enfureço e me desenho bruscamente contra as paredes, sorris da minha insatisfação entorpecida. E quando me deixo cair no chão com o rosto de menina a brotar nos meus olhos, lanças gargalhadas que me sossegam a histeria.
Quando a noite está quase a desaparecer estendes uma manta cinzento velho pelo chão da tua sala e estendes-me a mão, abraças-me e dizes-me que daqui a horas eu estarei bem, de volta com as palavras presas à alma e no meu mais alto auge. E eu deixo-me ficar nos braços da tua serenidade, bebendo os sorrisos que me dás a conhecer.

A manhã chega e eu estarei bem. Deixarei a tua casa sem uma única palavra, sem um único sinal de agradecimento e sem demonstrar a ternura que sinto por ti. Tu não estranharás mas não me sorrirás e sei que o meu renascimento será resultado da mágoa que te irá acompanhar o resto do dia.

Embora me custe, não sei abandonar esta minha estranha forma de ser.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Massagem sem ética

Entrámos em tua casa. Entrámos naquele espaço só teu. Percebi-te em todos os recantos. Existias em todos eles com rasgos de memórias de outras pessoas. Trocámos olhares. Trocámos sorrisos de peles quando propositadamente nos sentíamos. Levaste-me até ao teu quarto, até à tua cama que se dividia em duas. Despi-me das roupas que me prendiam o calor, pedi-te ao deitar-me para me tirares o soutien. Assim o fizeste, deixando-me a pele a palpitar de arrepios. Começaste a fazer a massagem que te pedi e que à muito estava prometida. Senti as tuas mãos a caminharem tensas pela minha pele e à medida que me queimavas os sentidos, sentia-te também com a respiração mais ofegante. Paraste por minutos, voltaste e sentas-te no outro lado da cama à minha frente. Levantei a cabeça, deixando-te anteveres os meus seios, sorriste atrapalhada. Também gosto de te ver atrapalhada e ligeiramente provocada. Pus-me novamente em posição para te sentir em mim, sabendo, que aquela massagem, tinha à porta um letreiro em que se lia “Massagem sem ética”. Continuaste a deixar-me desfrutar dos alongamentos das tuas mãos….deitaste-te em cima de mim…senti-te mais perto. Senti-te com as temperaturas elevadas. Sorri de olhos fechados, como se não estivesse a perceber nada. E sei que te perguntavas o porquê de não reagir mesmo que soubesses que o faria para te provocar. Para te começar a levar ao limite. Dizes-me ao ouvido: “esta parte não faz parte da massagem” e apetecia-me dizer-te que nada daquilo fazia parte da massagem, mas fiquei uma vez mais em silêncio. Virei-me para ti. Quis que me visses toda. Começamos na troca de provocações. Com os nossos corpos mais juntos…roubaste-me um beijo e com a minha colaboração nos confundimos. Não deixei que me beijasses mais. Sabes como gosto de controlar tudo. Sabes e gostas. Pediste-me um abraço. Disse-te que teria de ser a fingir. E demos um abraço a fingir. Sentimo-nos mais perto, sentimos os movimentos dos corpos uma da outra. Irrompeste pelos meus seios, pelos meus mamilos. E a tua respiração….tão descontrolada ao pé da minha.

- Queres sentir o meu coração? (perguntei-te com a inocência que perdi há muito)
- Sim quero.

(pego na tua mão e ponha-a no meu sexo)

- Puta!

E sou. E gosto de sê-lo contigo. Mas o meu coração principal é o meu sexo e tu que me apelidas da pessoa mais sexual que conheces, já o deverias saber.

Afastei-me de ti. Fui para o outro lado da cama. Com o sexo em fogo. Com o corpo a precisar de ser fodido. Mas não era o momento. Não seria naquele dia em que nos iríamos acontecer.

Levantei-me e comecei a vestir-me. Tiraste a t-shirt e vi os teus seios. Vestiste o soutien, e eu chamei-te para perto de mim. Tirei-to e bebi dos teus seios que me cegavam os olhos. E retomei a vestir-me. Saímos de tua casa e fomos almoçar.

Se fores à tua agenda, irás reparar que marquei outra massagem para a próxima semana.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Vens falar comigo, vens-me falar do teu amor, do que esta tua nova relação te trouxe. Dizes estar feliz. Dizes que nunca antes tinhas conhecido tamanha felicidade. Dizes que nada poderá derrubar este amor. Porque o amor verdadeiro não se derruba. Falas-me que vivem juntos. Falas-me dos jantares que fazem a dois. Falas-me dos fins-de-semana de loucura. Falas-me que o sexo nunca foi melhor. Para ti tudo o antes não foi um nada de viver. Agora sim isto é viver.

Vens até mim, e eu oiço-te como a grande amiga que sou, e adoro saber que estás feliz, mas preciso de te avisar sobre o amor, sobre esse teu estado de felicidade que julgas inabalável:

Esse teu amor não é eterno, acabará, e quando acontecer tu vais cair, vais deixar de acreditar na vida. Vais deixar de acreditar nas pessoas. O amor para ti igualará a morte. Vais-te esquecer de ti. Vais fechar-te em casa. Sexo para ti será a mesma coisa que nada. Poderão entrar de ti que só um nada sentirás. Sim, para ti tudo será indolor. A partir de agora.

Porque o amor é assim. Preciso de te avisar, que o amor dá-te a provar o melhor que existe. E depois ele foge, acaba, morre – porque é assim que as coisas são…e depois viverás com o desespero de estares num fundo de um poço negro…e as pessoas chegarão até ti, e falarão contigo e a única coisa que tu vais dizer para ti será: Estas pessoas são tão diferentes de quando eu vivia o amor.

Porque tudo é diferente. Os dias. As horas. A forma do teu corpo na cama. A textura dos teus lábios. A humidade do teu sexo. A fragilidade de como se vê as coisas. As palavras caem no vazio. O coração fica eternamente fechado. Tudo é diferente, até nós somos diferentes, porque quem prova o melhor que há deixa de saber viver no depois.

E dizem que o amor é a melhor coisa do mundo. Preciso de te avisar que depois a vida não será a melhor coisa do mundo.

Nem tu.

domingo, setembro 03, 2006

A mulher chegou ao quarto já passavam das seis da manhã, nas últimas quatro horas tinha feito de tudo um pouco. Devolveu-se à serenidade que o álcool lhe parecia dar. Recolheu-se às palavras dos seus livros predilectos. Dançou as músicas que tiveram sucesso na sua adolescência. Embriagou-se de emoção ao tentar saber se a vida agora teria um sentido. Um só rumo. Masturbou-se tentando assim enganar a solidão dos seus dedos, do seu corpo magro, gasto. Nesta noite tentou enganar-se a ela própria. Mais uma vez.

A sua casa era branca. Num branco sujo rabiscado de memórias das coisas que nela estavam atulhadas. Coisas que na verdade não tinham a sua identidade. Não eram suas. Pertenciam às suas pessoas. Deixava-se aconselhar, deixava que os outros partilhassem consigo os seus gostos particulares e na angústia desmedida de sentir, fazia desses mesmos gostos os seus. E quando já os tinha adquirido gabava-se que se tinha apaixonado por tais coisas. E os outros sorriam, achando que tinham um grande sentido de persuasão ou muito bom gosto. Sorriam, as suas pessoas.

A sua vida era uma farsa, eram as únicas palavras que dizia a si própria nas suas muitas conversas para tentar matar as insónias. Sim era uma farsa, e dizia aos seus amigos, que agora seria outra pessoa. Porque ela era uma outra pessoa. Mas ninguém sabia, nem ela mesmo sabia. Os seus amigos, com gestos surpreendidos, diziam que só o tempo poderia fazer com que eles reconhecessem esta nova pessoa. E ela na tentativa desesperada que eles a ouvissem dizia para dentro que o tempo era a ilusão dos que precisavam de desculpas.

Daqui a dois dias, iria destruir tudo o que não era seu, achando que assim também iriam embora os últimos restos da outra mulher. Da outra assinatura que vivia na sua pele. As que os outros gostavam. A verdadeira – diziam eles. A falsa – sentia ela. O seu apartamento deixaria de ser branco. Deixaria de ser cheio. Deixaria de ser um espaço para convívio entre artistas. Pseudos. Porque os verdadeiros artistas não têm espaço próprio, tem vários espaços, aqueles que se escondem pela arte que criam.

Existiu uma partida. Definitiva. Ela sabia que sim. Mas vivia ainda na crença que a mudança ainda poderia acarretar regressos. Ela queria aquele regresso. Queria. Mas sabia, com mágoa, que ele não era mais do que um sonho. Daqueles com muitas cores. E sem um trilho de branco.

O quarto perdera a sua luz. Tudo perdera a luz. Com a partida.

E agora com os retalhos esquecidos de orgasmos sentidos nos lençóis, ela deitava-se tentando estabilizar a sua alma. Em vão. Nos próximos dias tudo seria em vão.

Até a morte.

sexta-feira, setembro 01, 2006

No depois-amor existe um período de negação
não do que nos morreu
mas sim do que nos restou.

terça-feira, agosto 29, 2006

Acordou nua com o corpo como prova dos movimentos, dos sons ensurdecedores de dois corpos unidos pelo prazer. Quis abrir os olhos e ver a pessoa que estava deitada a seu lado. Quis ver quem ali estava e respirar de alívio. Não queria que o prazer que o seu corpo latejava fosse resultado de apenas um sonho. Queria não estar sozinha naquele dia. Queria falar ou apenas sorrir. Queria ali alguém, mesmo que soubesse que a realidade levaria essa pessoa horas mais tarde porque para si aquele seria o resultado esperado das suas saídas de sábado à noite. Uma noite de sexo nada mais que isso.

Abriu os olhos e olhou para o lado esquerdo da cama, os seus olhos abriram-se mais ao verem um corpo nu, um corpo bonito enfeitado com marcas de outro corpo, de outras mãos, dentes ansiosos por carne humana. Reparou nos cabelos curtos castanhos-claros com traços leves de vermelho, reparou na forma como aquela pessoa dormia. Gostou estranhamente, gostou. E naquele momento assaltou-a um instinto de ternura e quis abraçar aquele corpo anónimo, que lhe ponha vontades nas mãos, que lhe acelerava a sua respiração. Quis mas controlou-se porque tudo na sua pessoa era controlado. Era algo nato. Controlou-se, virando-se para o outro lado, vestiu-se calmamente sem mais nunca olhar para aquele corpo. Aceitou que aquele era o fim e saiu daquela casa que não era a sua.

quinta-feira, agosto 24, 2006

"And then I looked up at the sun and I could see
Oh the way that gravity turns on you and me
And then I looked up at the sun and saw the sky
And the way that gravity pulls on you and I, on you and I"

Quisemos crescer dentro das palavras, daquelas que semeámos, tentando com isso cortar com as amarras quebradiças do passado. Do que nos corre pela respiração. Fizemos de nós, o elo de ligação, a virtude da sobrevivência. Unimos as mãos tentando com isso provar que agora será diferente. Que o medo poderia nos morrer. Que o amor poderia deixar de se arranhar nas paredes e renascer na nossa cumplicidade.

Quero que pares. Quero que me olhes e tenhas certeza do que sou. Em ti. Em nós. No que durante tanto tempo escondemos. Preciso dessa certeza, tens que entender…
Agora é o tempo de pararmos, de deixarmos de arranjar desculpas, outras pessoas, outros contratempos.

Nenhuma história vai esperar por nós. Nada espera por nós. E o nosso caminho há muito que está feito, precisámos sim de o agarrar.
Mais do que nos entranhar por dentro, mais do que nos sentirmos, mais do que tudo o que existe, é preciso decidir.

Deixei de saber esperar por nós. Não o suporto mais.

Já não me conheces o suficiente?
Já não sabes que me ferem os minutos?
Esta vida que se prolonga?

É agora
Este momento

Preciso que decidas
Que me abraces
Que me cheires
Que me deixes ficar em ti

Porque no amanhã
Já nos perdemos


De novo
Sempre
Até que deixe de haver espaço para nós

Para os nossos nomes
Para tudo o que poderia nascer.


Sei de ti
Nesta ausência
Que me vinca a alma.


Agora

terça-feira, agosto 22, 2006

Noite de Verão

A noite começou como uma normal noite de Verão. Precisava de libertar os demónios dos últimos dias, e a ideia de ir beber um copo com as minhas amigas, não me soou nada mal.
Entrei no bar já usual das noites de Agosto. Vi-te logo ali a socializar perto da entrada. Revisitaste-me os olhos. Já nós tínhamos cruzado algumas vezes, mas a tensão nunca permitiu qualquer aproximação. Até esta noite, em que as palavras precisavam de som e os corpos de alento. Continuamos observando os passos uma da outra, as nossas amigas eram o pretexto para não arriscarmos qualquer aproximação. Até que o teu olhar se permaneceu de mais no meu e dirigiste-te à casa de banho. O instinto levou-me a seguir-te. Sentia o pânico a engolir-me os pés mas tinha que ir ter contigo. Abri a porta e estavas encostada a uma parede negra com poesia escrita a tinta branca. Tu e as palavras. Gostei demasiado da combinação para contrariar as minhas vontades.
A minha boca assaltou a tua num ímpeto que não dava para ser controlado. As minhas mãos prenderam-se às tuas ancas e a força do corpo obrigou-nos a entrar dentro de um dos compartimentos. A rapidez do desejo que nos ameaçava nem nos deu oportunidade para perguntarmos os nossos nomes. Naquele momento isso era o que menos importava.
Sentia a tua língua a embriagar-me, sentia-te a criar em mim novos desejos. As minhas mãos agarraram-se ferozmente às tuas nádegas enquanto sentia o meu sexo a latejar cada vez mais em desejo. O teu corpo colou-se ao meu e cravei-te beijos inquietos nos teus ombros. Viraste-te e pregaste o meu corpo já quase nu à parede, abriste-me as pernas e rasgaste-me o sexo de prazer. Enquanto te movimentavas dentro de mim, perguntaste-me se queria ir para tua casa. Respondi-te que sim depois de me dares o orgasmo. O primeiro daquela noite.
Arranjaste-te e disseste que me esperavas à porta. Logo a seguir encontrámo-nos.
Dentro do carro, dei de beber à sede que se ancorou na minha língua, e já em tua casa algemei-te a alma ao sexo e dei-te prazer até amanhecer.

Presenteaste-me com a melhor noite deste Verão. E eu dei-te a conhecer o que o teu corpo pedia e tinhas receio de lho dar.

Ficamos ambas a ganhar.

sábado, agosto 19, 2006

Chego a casa, com a luz a pressionar-me o corpo ao descanso. Chego após mais uma noite de sedução, de esbanjamento de olhares, de troca de palavras viciadas em vista de um único resultado: descarga corporal. Existe um jogo, uma disputa, uma argumentação que está preparada ao mínimo detalhe e que não tem hipóteses de falhar. Tudo está descrito na minha mente. Cada palavra. Cada sorriso. Cada toque. Tudo elaborado subtilmente de forma a ganhar o seu espaço sem que a outra pessoa repare. Ás vezes o jogo tem sucesso, e temos companhia no máximo para um mês. Mais do que isso é proibido. Tudo começa com um jantar, um lugar que surpreenda, que eu conheça bem para não haver qualquer tipo de deslize. O sucesso está em surpreendermos sempre. Causarmos espanto e surpresa mas nunca sermos surpreendidos. Se isso acontecer, está tudo condenado a um fim muito mais rápido. Do restaurante, passámos para um bar com música calma com vista para o rio. Sem carros. Apenas táxis. O toque começa aí, na parte de trás do táxi, cria-se o ambiente, com a articulação certa das palavras, com a respiração bem controlada, com o contacto entre os olhos sempre presentes, captámos a atenção e a mão poderá dar um pequeno avanço, poderá se descair. Nervosismo é coisa que está fora de moda, e não pode ser usado. Confiança é outra palavra-chave. A confiança é uma das virtudes do charme mas nasce mais cedo. A confiança escolhe as pessoas, possuía-la é algo muito dispendioso, quase que nos assassina a alma. Não a trocaria por nada. É um bem necessário. Molda-nos tudo. E a partir daí possuímos a arte de conseguirmos também moldar as pessoas como queremos, sem nunca estas o perceberem. Se o conseguirmos fazer, merecemos os aplausos finais. Merecemos o corpo nu estendido à nossa frente, pronto a ser mutilado em suor gasto, despejando o nosso desejo por todos os seus poros. Do nosso orgasmo nascem os outros orgasmos. Multiplicam-se, porque a arte também está em saber o ouvir o corpo das vítimas. Ele nós dirá como o deixar viciado, pronto a ser mutilado as vezes que o desejarmos. O corpo leva a mente aonde nós o desejámos e o resto o tempo fará.
Do restaurante e do bar, passamos a uma rotina de fazer crer. Fingir que essa pessoa faz parte da nossa vida. Fazê-la acreditar que está a viver algo de muito especial, que ela própria é especial. Afinal o que lhe oferecemos nós? Felicidade momentânea que lhe pertence durante um mês. Talvez nunca mais a venha a provar. Serviço público eficiente é o que nós fazemos. Deviam-nos agradecer. Mas isso não acontece. Portanto quando esse mês acaba o melhor que temos a fazer, é pegar nas nossas coisas e mudar de espaço. De linhas da cidade. Assim evitámos ser testemunhas de alguns suicídios ou testemunhas do nosso próprio massacre. Sim porque depois de provar tamanha felicidade, as pessoas enlouquecem e acham que a vida acabou. E talvez tenha acabado. Deixem lá. Temos outras vidas para viver, isto se acreditarem claro, se não acreditarem, então esqueçam não há fé para vocês, o melhor é mesmo matarem-se.

Aleluia.

quarta-feira, agosto 16, 2006


Deito-me nos sonhos que o teu corpo me dá a descobrir.
Deito-me sobre essa tua alma vazia de interrogações, cheia de entrega.
Preciso de ti. Preciso de me agarrar aquilo que me dás.

Mesmo que eu nada sinta
Mesmo que eu saiba que isto não tem futuro
E que vou ter que partir

Mas agora é disto que preciso
De sentir que te tenho
Que és minha

O meu egoísmo explode dentro de mim
Mas não resisto

A fazê-lo de novo.

Preciso

Porque nada mais
Me consegue fazer sentir.

E sei que te vou magoar
E sei que te podia avisar

Mas não o vou fazer

Porque tu és a presa
E eu a caçadora

E no final serás mais um troféu.

Não te vou pedir desculpa,

Porque ninguém pede desculpa por sentir.

E é assim que eu sinto,
Só assim.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Desassossego (E até já...)


As palavras

Morderam-se

de desejo



E na tua ausência


Morreram-me.




(Perdi-me no número de noites em que quis que me acolhesses.)


E tu?

sexta-feira, agosto 04, 2006

Encontrámo-nos uma última vez. No verão ardente que se imponha nos nossos sentimentos já tão gélidos. Tínhamos nos nossos olhos a tristeza de quem deambula nos dias. A mágoa de quem não conseguiu fazer as coisas direitas. A frustração de mais uma vez o amor não ter tido força suficiente para nos manter juntas. Naquele dia, o adeus era a sombra que separava os nossos corpos. Era o movimento dos corpos que queriam sair dali. Eram os batimentos que a pouco e pouco desfaleciam nos nossos corações moribundos. Não me lembro das palavras que trocámos, não me lembro se ainda te amei naquele dia. Ou se ainda mantinha em mim a esperança de que as coisas pudessem mudar e estarmos juntas ainda fosse uma opção. Não me lembro. E talvez isso seja a salvação. Porque tudo o resto nos morreu.

Cruzámo-nos ainda outras vezes. Com os olhos quase fechados disfarçávamos um sorriso. As palavras afogavam-se em saliva e cada qual mantinha a sua rota. Ainda tenho tanta coisa para te dizer. Coisas que agora talvez tenham perdido o seu sentido. Nunca soube apreender muito facilmente o tempo certo das palavras. Porque tudo tem um tempo único. Exacto. Em que nada lhe poderá roubar o protagonismo. As palavras também revelam esse tempo e eu deixei passar o nosso. Agora a única coisa que se salvou foi um sorriso, que se mantém ano após ano sempre que nos encontrámos. Se um dia tiveres atenta, poderás entender, que é o mesmo sorriso que soltei da primeira vez que te vi. Continua intacto. Verdadeiro.

Se um dia, voltares a este espaço onde me revelo,
Quero que saibas que lamento o dia em que desisti de nós.
Mesmo não sabendo que isso era desistir.
Mesmo nunca entendendo que assim te perderia.

Tinhas razão,

A minha porta nunca esteve aberta para ti.

Nem para ti
Nem para ninguém.


Beijo.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Cheguei à tua porta de madrugada, unicamente com as roupas que tinha no corpo, um maço de tabaco e um sorriso de quem quer foder. Abriste-me a porta, com os olhos carregados de sono. Não me disseste olá, nem bom dia, nem como estás. Perguntaste que fazia eu ali. Respondi-te que as insónias estavam a dar cabo de mim e precisava de foder. De preferência com alguém que me desse muito tesão. De preferência com alguém que não fosse muito complicado. Mandaste-me embora. Disseste que já não querias continuar com aquilo. Acendi um cigarro. Fiquei a olhar-te enquanto esfregavas os olhos. Olhei-te enquanto os teus pés não ficavam quietos. Enquanto via as tuas mãos trémulas. Via tudo e não via nada. Apaguei o cigarro. Despi-me à porta da tua casa. Arranquei-te a roupa com a velocidade de quem não tinha tempo a perder. Fechei a porta, enquanto enterrava a minha mão na tua boca, de forma a te calar os gritos que me desconcentravam. Levei-a para a sala e com movimentos bruscos consegui deitá-la no chão e prender-lhe as mãos. Escorreguei a minha saliva pela sua boca, obrigando a sua língua a unir-se à minha. O seu corpo lutava contra o meu, enquanto o calor se derramava e o tesão me inundava. Fartei-me dos seus nãos. Fartei-me daquela luta. Desamarrei-lhe as mãos, beijei-a na testa e servi-me de um whisky puro como o sexo que queria fazer. Pendurei-me no sofá, acendendo um cigarro enquanto a olhava incrédula, completamente sem palavras. Perguntou-me porque tinha eu parado. Respondi-lhe que fartei-me, que fiquei impaciente e que a vontade de foder mudou de cara e que já não era a dela. Levantou-se e tentou fixar um estalo na minha cara. Agarrei-lhe a mão e puxei-a para mim, sentei-me no sofá e abri-me em desejo para ela. Desfrutei da sua língua quente, envolta na prova do meu prazer, deslizando a textura dos seus dedos para dentro de mim, fazendo com que me baloiçasse no sofá. Com a mão entrelacei-lhe o cabelo, agarrando-o vorazmente quando me sentia a ser devorada, fodida em todos os meus recantos de desejo. Sentia-me satisfeita, com o orgasmo ainda presente no meu corpo. Lambi-lhe os lábios e as mãos. Envolvi-a num beijo que mais do que ser quente, era frio. Era um beijo de despedida.

Enquanto ela foi buscar gelo, peguei nas minhas coisas e parti.

terça-feira, agosto 01, 2006

Deixei de me esconder pelo tempo. Deixei de renegar o que sinto. Não consigo ser mais uma sobrevivente. Não consigo mais ser um poço de ar que se arranha para conseguir acreditar. Acreditar. Durante os últimos quatro anos, falaram-me de amor, tentaram encantar-me com palavras, não sabendo elas que já eu sou a rainha das palavras. As palavras são o meu alimento diário. Não é por elas que me provarão o amor que dizem sentir por mim. Não será por sorrisos. Não será por beijos infiltrados na pele. Não será por histórias encantadas e por destinos inventados. Deixei o poder de me encantar num monte verde. Deixei a fé no amor num barco que construí no meu corpo. Engoli-o ao mesmo tempo que mastiguei o amor rezado pelas mulheres que me disseram amar. Acusaram-me de pouca entrega. De ser egoísta. De só pensar em mim. De só querer sexo e desafios a toda a hora. Acusaram-me de dar pouco. De não saber o que é sentir a entrega de um abraço. Um afago. Uma palavra bonita. Acusaram-me de desistir de um amor que nunca foi por mim sentido.

Não quero que espraiam o amor sobre o meu ser
Não o saberiam fazer.

Vocês nada percebem do amor
Confundem-no com palavras
Com sorrisos
Com entrega
Com dar
Com receber

Com orgasmos
Resolvidos
Depois de fazerem o tal amor.


Digo agora:

Vocês que me acusaram
Vocês que me choraram
Vocês que me quiseram prender o coração
Vocês que quase que morreram
E após tão pouco tempo
Já estavam nos braços de uma outra
A quem amariam da mesma maneira
Como a mim disseram amar.

Tudo o que saiu da vossa boca
Das vossas mãos

Soa-me a mentira
A repetição
A maldição.


Eu não percebo nada de Amor,
Só percebo:

As palavras
Os sorrisos
O querer
O desejo
O escuro
A dor
A frustração
A inquietação
As insónias
A razão
A mentira
O fingimento.


Vocês
Que julgam
Saber o que é o amor

Vocês que julgam
Que me souberam amar


Nada sabem.

Pouco sabem
Sobre o sentir.

segunda-feira, julho 31, 2006


Possuir-te-ia
numa
dança
que começaria
pelos sentidos,

que se prenderia
pelos
movimentos.

O teu

orgasmo

seria

larva

na minha língua

quarta-feira, julho 26, 2006

Regressaste a casa pelas 6h da manhã. Tinhas os efeitos da noite marcados nos teus olhos. No aspecto da tua roupa. No teu cheiro de mistura de pessoas. Mistura de tudo e mais alguma coisa. Fizeste barulho. Acordaste-me. Estavas num amanhecer em que te apetecia conversar. Despiste-te e sentaste-te a meu lado. Tocaste-me o cabelo. Olhaste-me mais profundamente do que eu poderia querer. Falaste da tua noite. Das pessoas. Dos lugares. Escutei-te num silêncio de quem não quer saber o que fizeste. Num silêncio de quem se está a foder para ti. É isto que acontece quando chegas de madrugada e queres conversar. Eu simplesmente deixo de me importar. E tu danças pelas palavras como se fosses importante. Como se fosses importante para mim. Mais do que o meu sono. Mais do que a minha própria insanidade mental. Não o és. Mas gosto que penses que és. Assim fodes mais outras pessoas e tens menos necessidade de foder comigo. A nossa relação é perfeita. Sempre to disse. Eu vivo os meus dias concentrada em mim enquanto tu achas que és o que mais importa na minha vida. E passeias-te cheia de luz pelos dias. Com um sorriso vitorioso. Com um ego patético de quem se conhece muito bem e de quem acha que é o centro do mundo.

Daqui a minutos calas-te.
Daqui a horas acordas com o tesão a morder-te o corpo.
Daqui a dias a nossa relação deixará de ser perfeita
Porque vou dizer-te
Que tudo o que achas que é verdade, certeza
É mentira
É incerteza.

segunda-feira, julho 24, 2006

I want you


“I I I I I I want you you you you you you
Oh I I I I I I want you you you you you you
Said I I I I I I want you you you you you you
So what we gone do? What we gone do?”



Quero-te hoje fora de mim. Quero que desocupes o meu coração. Quero apenas que exista um sinal de ti na minha mente. Não quero pensar no que esperar de ti. Não quero pensar no que quero de ti. Não quero perguntas. Nem respostas. Quero-te apenas sem o rasto do passado, nem a pressão que se acomoda no presente e sem os sonhos do futuro. Hoje não precisamos disso. Precisamos de encontrar um tempo próprio nos nossos corpos. Precisamos de saborear o desejo, arriscar as palavras, não respirar fundo e sim saber perceber o que pode acontecer. Sem ideias pré-estabelecidas. Sem conceitos esmagadores de sentires. Sem travões e sem aceleradores.

Quero que te sintas a ti, quero que te explores, e ao o fazeres me encontres em ti. Quero desnudar-te a alma com o toque das minhas mãos, romper-te o peito e abraçar-te o coração. Quero entrar em ti com um beijo que não tem nome, que apenas se espelha no desejo que deixas esvair em mim. Quero partilhar contigo estes sentires, de um corpo que se aceita, que se vê como completo mas que se repercute no teu. Desmaiar-te em sonhos de toques, que se derramam na tua boca, que é seguida pela lentidão da minha língua, desflorando-te os pensamentos. Confundindo-te a pele com cheiros que me atravessam o tesão. Quero que te deixes ficar de pé, com a nudez colada à minha, que te deixes conduzir com os passos que as minhas mãos te dão, com a velocidade controlada de quem sabe como dançam as pontas dos meus dedos, ao som de uma melodia que te cresce na respiração, à medida que deixas de perceber se é a tua ou a minha que ouves.

Quero que pares quando te puxar para mim e revelar à tua língua o percurso que quero seguir. A viagem que quero iniciar na tua boca, com todos os trajectos possíveis e que quero que acabe novamente nos teus lábios que estarão doridos dos desejos que irão conceder e receber.

Quero que te deites desembaraçada de lençóis, despir-te-ei os medos com a ponta da minha língua, que se perde inquieta nos recantos do teu corpo, desenhando palavras que se deixam ficar encostadas às tuas expressões, recolho-me nos teus seios, fazendo suscitar arrepios demorados, que se deixam prender ás minhas mãos e à sede que trago na boca. Permaneço o tempo suficiente para te sentir deliciosamente em mim, para arriscar cravar-me na tua pele, para arriscar fazer-te derramar em desejo, transpirando em nós sentires, silêncios encobertos de vozes…

Quero que te soltes em mim, que me tomes como tua nesse resguardo que é o teu ventre, em que quero escrever sentidos,

Em que quero….

(Entra na minha mente, fecha os olhos, e saberás que quero eu….)

domingo, julho 23, 2006

Desencontros. Desencontros entre duas noites. Imaginámo-nos a dançar. Imaginámo-nos gelo preso entre duas línguas. Clandestinamente reservámo-nos de espaços e abrimos recantos no desmembramento dos sonhos. Quantas vezes invadimos as roupas coladas ao corpos nos dias chuvosos de um Inverno que se demorará a chegar. Tomamos pequenos-almoços de sexo, enfrascadas de desejo numa banheira de algum hotel da capital. Esvaziámos a loucura dos bolsos ilusórios da nossa mente nos dias em que nos desgastamos tentando criar em nós a cumplicidade dos momentos. Juramo-nos arte perante ruelas sujas nas horas vagas das madrugadas que quisemos fazer nossas.


Hoje acordamos, sem os lençóis da nossa presença.

Deixamo-nos ficar naquelas noites, naqueles devaneios inventados por nós, sempre à espera que um dia se tornassem realidade

Os caminhos

Que deixamos de percorrer

quinta-feira, julho 20, 2006

Sentas-te à minha frente. É a primeira vez que o fazes nesta jornada que se tornou a nossa vida em comum. Antes era a meu lado que te sentavas, aceitavas a distância que eu precisava de manter entre nós. Não a julgavas. Não a questionavas. Dizias que o mais difícil não era essas reticências nascidas em mim mas sim o facto de não me angustiar a tua falta de interesse. E tinhas razão. Quanto mais intacta estiver o que sou perante os outros, melhor durmo eu à noite. Menos descubro eu, menos dou a descobrir aos demais. Principalmente a ti que me eras tão próxima. Mas para ti o caminho tinha de ser outro.

Aqui te tenho eu à minha frente, a antever nos teus olhos a vontade que tinhas em entrar por dentro, a tua vontade intimidante de pores em cima da mesa tudo o que sempre escondi de ti.
O silêncio dos olhares sempre foi uma boa forma de me alucinares os momentos. Questionaste-me. Puseste em primeiro lugar o teu recente medo do desconhecido. E não sairias dali enquanto não respondesse a todas as tuas dúvidas, interrogações, inquietações que te desmembravam o sentido deste amor, deste qualquer coisa…

Nada te disse. E aí perdeste o controlo. Levantaste a voz e disseste-me que não fazia sentido estes dias se não soubesses quem eu era. Falhaste ao me encostares à parede branca da realidade e me podes duas opções: ou eu me despia de enigmas ou tu partirias.

Escolhi-me a mim e aos meus enigmas. Nunca poderia escolher outra coisa.

Sabes qual foi o teu maior erro? O momento em que falhaste?

Quando não conseguiste compreender que era eu que estava sentada a teu lado. Era eu. Mesmo com códigos ilegíveis era eu.
A tua ânsia de me conheceres fez com que perdesses a razão do que erámos

segunda-feira, julho 17, 2006

Dançamos pelos rios que se iniciam nas nossas bocas. Provocas-me rasgando-me os lábios com os dentes. Chupas. Lambes. Incendeias. Penetras-me a boca com a tua língua. Roçamo-nos em palavras. Mergulhámos dentro das nossas roupas. Levas-me a puxar-te para mais perto. E afastas-te com o meu sangue impregnado na tua boca. Sentas-te altiva. Olhas-me enquanto te transpareces de desejo. Dás-me a descobrir os teus seios que te soltam da pele. Dás-me a prová-los através dos dedos que te humedecem os mamilos. Transformando-os em pérolas. Embrulhas-te nas paredes. Afagas o teu cabelo, deixando-o cair pelos teus olhos. Nunca chegas a quebrar a nossa ligação. Nunca deixas que os meus olhos se afastem da tua sensualidade encoberta de sexualidade. Alicias-me o corpo. Movimentas-te, alimentas-me a mente. Deixas que as tuas mãos se deslizem ferozmente pelo teu ventre. Trazes-me os teus dedos à minha boca, e entras dentro de ti. Sentas-te à minha frente, prendes-me os movimentos. Conduzes tu. Mexes-te freneticamente pousando sempre os teus olhos nos meus. Sempre gostaste de teres em ti o poder de me veres a descontrolar. Sempre gostaste de me deixar cambaleando no desejo que é teu. Continuas a tua dança. Pintas-te no orgasmo que te quero oferecer. Resistes sempre à espera dos meus passos em falso. Sabes que não sei esperar. Conheces bem a minha impaciência em te possuir. A minha vontade de foder quem se recolhe da minha pele. Paras. Recomeças. Soltas-te em sons abertos. Sais de ti e trazes novamente os teus dedos à minha saliva. Gostas de me dar a beber o teu tesão. Pego em ti e prendo-te em mim. Tentas-te libertar. Não o queres, mas tentas. Gostas das marcas que ficam depois destas noites. Do fogo que te marca a pele. O mesmo que te fode mesmo quando dizes não querer. Que estás farta que tudo entre nós comece e acabe na cama. Repetes-te vezes sem conta. Repetes-te até deixarmos de ser duas pessoas. Rasgamo-nos. Folheio-te até te sentir a pele gasta. Até sentir que até os mares secam. Resigno-me a me deixar ficar na tua pele. Na tua boca salgada. Acordo em sonhos o teu sexo. Acordo-o e adormeço-o. Sem intermédios. Esgotamo-nos. E a partir daí a única coisa que sentimos é a cinza que cai por acidente nos nossos corpos.

quinta-feira, julho 13, 2006

“Take me down to your river
I wanna get free with you.”

Aspirámos sonhos no calor que nos humedece a textura dos sentimentos. Embrulhamo-nos como se apenas em nós recaísse uma só pele. No final da noite, derramamo-nos em beijos, sufocamos, entranhamo-nos nos poros do prazer que bebemos como larva que se abre nos nossos sexos. Saboreamos palavras enquanto desfilamos com a nudez suada, que se desliza por caminhos proibidos. Tentamos combater este tempo que não é o nosso, este tempo que não se escreve apenas com os nossos nomes. Tentamos combater a distância que nos enclausura em ausência do que ainda temos fé de vir a provar. Discutimos, tentando prever o abraço que daríamos se a presença fosse algo nas nossas vidas. Tentamos prever os momentos, os sentires que nos caem como angústia, como impossibilidade de nos virmos concretizar neles. Invadimos as madrugadas, na masturbação que nos põe mais próximas, repetindo os orgasmos como se estivéssemos coladas uma na outra, rasgando o espaço que é grande demais para o desejo. E sofremos, sei que também enlouqueces na amargura que nasce o após, o após mais uma vez não termos estado juntas quando o desespero do desejo nos cai na pele, como vício não satisfeito. Recolho-me em ti nessas noites. Escolho o recanto que ainda não é meu. E quando acordas sobressaltada pela noite fora, sou eu a possuir-te, a cravar-me em ti de forma a que me sintas mesmo que não penses que sou eu.

terça-feira, julho 11, 2006

Sexta-feira à noite. Três mulheres, 22, 35, 50 lançam-se na noite. Brinda-se à lua, a tantas outras coisas. Pegamos em nós e vamos para o bairro alto. Passeamos pelas ruelas. Encontramos pessoas. Sorrimos. Trocamos palavras. Purex. Madrugada. Bebe-se vinho do porto, água e licor beirão. Sentámo-nos. Deixam-me embalar pela música. Trocámos olhares. Desenhamos mensagens. Escrevem-se palavras em postais de publicidade. Fumo os meus cigarros. Vocês queixam-se de sono. as palavras sobreviveram e chegaram a casa. Aqui estão elas:

1º Postal
Abranda a solidão neste preciso minuto.
Afaga os olhos neste afecto que te brilha por dentro e que apenas o sabes renegar.
Alivia-me a cadência desta espera. Atormenta-me pelas pausas da loucura.
Lança-me grades de sufoco enquanto a tua boca em silêncio se desfaz na minha.



2º Postal
Prefiro-me indecência. Salubridade.
Prefiro-me tudo aquilo que achas que não sei ser.
Nos abraços que me mentes, na inocência de que me levas a desejar.
Entrego-me por instantes. O tempo breve em que me sinto tua.
Em que não consigo ver o que tu gostas em mim.
São estes momentos intemporais em que inicio a minha fuga para longe de ti.


3º Postal
Inicio esta dança sob a negritude dos candeeiros.
O ritual da ambivalência das minhas próprias mãos que se arrastam em lentidão pelo rasto incendiado do meu corpo.
Não me descubro em caminhos, recrio-me mapas de palavras descentradas.
No princípio da pele encontro-me.

quinta-feira, julho 06, 2006

Energias. Desde que te conheci que deixei de conseguir renovar as minhas energias. As da minha sobrevivência. A que começaste a questionar. Virámo-nos uma para a outra. Tomamos a liberdade fazendo conta que nada tínhamos a perder. Sugaste-me o desejo pela pele. Como se se tratasse da tua bebida favorita. Olhas-me pelos recantos dos silêncios que inventei para te afastar de mim, relatas-me palavras que eu não consigo entender. E quando estás preparada para me dares a mão, reconduzes-te à ignorância de achares que é sempre tarde demais. Levo tempo demais até regressar a este livro que ando a escrever há tanto tempo. Rasgo-me das personagens quando as sinto perto. Muito perto. Perto daquele abismo que separa toda a minha racionalidade do fantasma que é a loucura. E se quando te olho apenas consegues ver uma imagem embaciada. Peço-te que não te assustes. Que não fujas. Que não penses o pior. As imagens são demasiado desfragmentadas da verdade. Dissimulo-me, como se quisesse que acreditasses que sou apenas uma mentira. O que não deixa de ter o seu nexo. Na maior parte das vezes a realidade que pensas haver entre nós, é ironia das palavras. É apenas um circuito cortado. Que nunca consegue chegar ao coração. Existem muitos porquês. O porquê de eu insistir nesta existência em que me anulo a mim própria. Ou o porquê de me fechar dentro de um cubículo que na verdade é mais aberto do que julgas. Quando nos convencemos de alguns factos, é tão mais fácil que os outros acreditem em nós. Torna tudo mais credível e ao mesmo tempo começas a perder as partículas que fazem o que tu és no pormenor de tudo. Por detrás de todos os jogos. Chego ao pé de ti farta de estar sempre a me sequestrar do que me corre por dentro. Por medo, de que seja tudo verdade.

segunda-feira, julho 03, 2006

Esqueces-te vezes demais das histórias que me contaste. Se as lembrasses, ver-me-ias tão melhor. Saber-me-ias criação tua, criação nascida das tuas histórias. Mas a cegueira ocupou-te todos os teus sentidos, perdeste a clareza de quem tinha o privilégio ou não de ver além do óbvio. Foi essa clareza a razão de me ter apaixonado por ti. Conseguires contemplar o que nunca ninguém antes tinha conseguido. Agradeci-te com a minha paixão alucinante por ti. Foi a pior coisa que podia ter feito. Os outros conseguirem-nos ver para além da vulgaridade de outros olhos, não devia ser agradecido, melhor, não era eu que tinha que te agradecer. Serias tu a felizarda. Ver alguma pela primeira vez, de forma tão clara, tão inesperada é algo que nem todos podemos alcançar. Tu conseguiste. Eras tu que me tinhas que agradecer. Não o fizeste. Nem eu o permiti. Colocámos o jogo ao contrário. E as regras eram poder teu. Adiantou-nos de alguma coisa? Se calhar tu com as tuas ideias sacrificadas de bom senso achas que melhor não poderia ter acontecido. Mas até tu erras. E sabe-me bem saber desse teu erro e de te ver a ti a dançar num ritual absurdo de quem nunca erra. De quem consegue tudo. Fazes-me rir. Um riso canibal. De quem tem uma fome voraz de te despedaçar o coração. Esse antro que é alimentado, que se impregna como mancha nos sentimentos a desflorar dos outros.
Esta noite, quererás ser alimentada de novo pelas minhas fragilidades. E serás alimentada, oferecer-te-ei a minha única fragilidade: Tu.

domingo, julho 02, 2006

Um post à parte...

Sexta à noite. Regressar às noitadas que tanto me marcaram nos primeiros anos de universidade.
Desta vez não começamos pelo bairro alto. Começamos com a ousadia de duas garrafas de vinho tinto, entre muitos risos, alguns cigarros, um charuto, alguma contestação pelo cheiro. Sobrevivemos a isso tudo. Arranjamo-nos. Perfume para cá, pasta de dentes numa mão. E os sorrisos agora eram risos. Contagiantes por sinal. Duas da manhã. Próxima paragem: Lux. Eu escolhi o sítio e graças à minha técnica persuasiva convenci-vos a virem conhecer a minha capela musical. Porteiros. Pagar e receber um ticket. Bengaleiro. Bebidas. E primeira pista, a minha favorita. Porquê? Porque nessa pista os corpos não têm medo de se tocarem. Os olhares não fogem. Continuam noite fora. Já vos tinha dito que saudades tinha eu de dançar, de me libertar enquanto a música me sobe pelo corpo. E dançamos os três. Era a tua noite de despedida, meu menino, agora quem me vai acompanhar à tasca do lado para beber sangria? Quem me vai levar à loja de conveniência à uma da manhã, quando os desejos de gelado me assaltam a mente? Com quem vou comentar as miúdas da Suécia? E os seus atributos? Mesmo que eu prefira as morenas. E as conversas que tínhamos? Firmámos uma amizade. Vou ter saudades de te ter a tocar nos meus caracóis. E eu vou ter saudades de te encaracolar mais o cabelo. Mas foste embora. Agora espero que consigas estágio em Lisboa para continuarmos nesta jornada. O trio maravilha: a endiabrada, a morena esbelta, e o menino dos caracóis. Continuaremos sempre a ser um trio. Mesmo que por agora seja difícil voltarmo-nos a encontrar.

Com isto digo que gosto muito de ti, és um dos meus meninos.

Até já

quinta-feira, junho 29, 2006

Temos as mãos desnudadas. O corpo lavado de sorrisos. De sentires. Quisémo-nos construir com gotas de saliva. Com o corpo assinado por várias pessoas. Quisémos o nosso sexo cheio de desejo. Quisemos chegar ao mais alto possível. Pensamos que assim conseguiríamos. Fodemos corações. Fodemos almas. Fodemos sorrisos. Fodemos esperanças. Fodemos palavras. Fodemos certezas. Fantasíamo-nos de verdade. De conquista. De amor. De paixão. De ternura. De compreensão. Despimo-nos como se assim pudéssemos sentir o que na verdade sempre quisermos. Errámos nos caminhos. Errámos nas pessoas. Errámos na fantasia. E continuamos a errar. Deixamos de procurar um equilíbrio. Decidimos que a saída seria sobreviver. Sobreviver. Mesmo que essa sobrevivência fosse escape. Fosse desabafo. Fosse procura. Fosse falhanço.

E quando me pegas nas mãos que vês tu? Um espelho com duas faces? Uma escultura inacabada? Um intermédio de qualquer coisa? Talvez vejas mais do que isso. Mas as respostas não estão em mim. Estão guardadas numa gaveta sem chave. Num olhar cego de movimentos.

As horas passam. As insónias amontoam-se. Os pés ferem-se nos passos que não damos. Os livros queimam a ponta dos dedos. A alma rasga-se em várias partículas podres. As portas batem-se com força. A memória perde-se em acontecimentos passados. A espontaneidade deixou-se adormecer. A emoção transformou-se em calculismo.
E quando as horas se terminam que vês tu?

segunda-feira, junho 26, 2006

Entre nós existe um tempo. Um tempo desfragmentado. Um talvez que cada vez mais se perde na ausência. Estilhaçamo-nos em sorrisos, em noites que nos comprometem a sobriedade do que dizemos sentir. Ou que já sentimos. No final da noite já nada sabemos, as palavras bebem-se umas atrás de outras. Roçam-se em demasia à medida que sabe-nos a pouco este tempo. Quisemos expandir-nos, sempre o conseguimos fazer. Mas existem pormenores que nos falham. Nunca deixam de existir quebras. E o medo…esse que nunca deixa de existir, amanhece connosco, amanhece mais cedo e agride-nos os sonhos…as lembranças que nos podiam fazer equilibrar as manhãs. No mais negro do abraço que te dou existe medo. Medo que o corpo responda mais forte do que a acção em si. Medo que o que nos palpita por dentro queira voar para além de todos os limites a que nos impomos. E quero recordar-te. Recordar-te o momento em que as manhãs terminam, esse ponto intermédio em que o medo é-nos retirado da pele, se recolhe nos nossos olhos e nos nasce em sorriso, em mãos que se despedem em saudade do que não se chegou a viver, do não dito. Esse momento supera-nos. Existe por si mesmo e marca-me a cadência dos passos seguintes ao terminar das nossas manhãs

quinta-feira, junho 22, 2006

Hoje enquanto dormes a meu lado vou contar-te um segredo, em silêncio vou fazer que ele chegue ao teu ouvido, em passos curtos à medida que o teu corpo se mostra sereno nos lençóis.
A culpa de saber cada detalhe teu de cor, são das insónias que me atentam o pensamento…mas me dão alento aos olhos quando te olho, dão sentido ás minhas mãos quando ao me deitar te puxo para mim. Sei quantos sinais tens no teu corpo inteiro, sei todas as expressões que fazes ao dormir, sei a matemática que fazes quando queres mudar de posição, sei os sons, sei os silêncios…sei cada pormenor enraizado na tua pele meu amor. Dizes que um dia canso-me de te olhar, que saberei tudo e perderei o interesse. Como posso eu perder o interesse pelo amor que me ofereces e eu te ofereço mesmo quando só estou cá eu, a observar-te pelas noites a dentro há já tanto tempo. A tua serenidade dá-me sede, sede de também conquistar essa calma, essa expressividade que se alonga em ti mas facilmente percebo que ela a ti te pertence. Talvez por isso nos entendemos tão bem enquanto os anos passam por nós.

E sei que daqui a horas, acordarás tu, e ficarás a me olhar também, a me sussurrar palavras aos ouvidos para que acorde e te dê um beijo de bom dia para que assim possas invadir a vida bem cedo e para que logo logo te oiça a chegar a casa com as saudades que dizes ter de mim mesmo sem que eu te pergunte nada. E no abraço que me dás a conhecer consigo ainda sentir o porquê de tudo isto, o porquê de tudo fazer sentido quando ao te olhar, reconheço-te toda, e saber que também tu me reconheces, e que ambas nos reconhecemos no amor.

sábado, junho 17, 2006

Guardamo-nos pela noite fora, pernoitando pela música que nos chove, ancorando num abraço as saudades dos dias em que nos libertamos.
Lembro-nos sempre assim, inter-ligadas pela pele, questionadas pelos porquês desgastantes das voltas que damos, dos beijos em que se prendem as nossas bocas. Regressamos sempre ao momento que antecedeu uma qualquer partida. E andamos neste ciclo até que o cansaço chegue e decida o que fazer de nós.

Sentamo-nos no café de sempre. Dentro ou fora. De noite ou de dia. Com a mesma marca de tabaco. Com a mesma marca de café. Com os mesmos copos entupidos de água. Conversamos pelas mãos, sorrimos pelos toques, chateamo-nos pelos porquês que são as tuas respostas às minhas perguntas. Chegamos bem, discutimos a meio, e saímos bem. Nunca pressupus qualquer coisa contigo sem estes três degraus. Se assim não fosse deixaríamos de sermos nós. Seríamos outras dentro de nós. Deixaria de ter piada. Gosto da rotina da turbulência na minha vida. Gosto de discussões. Só contigo. Porque só contigo consigo ser eu, consigo dizer o que realmente penso, sem pensar duas vezes se é apropriado ou não.

- Gosto de ti.
- Porquê?
- Por não saber é que te gosto.
- Dizes isso a todas!
- E?
- E gosto que o digas a mim...
- Então estamos bem!
- Não sei, não gosto de estar bem contigo.
- Vai à merda!
- Vês? É assim que gosto de ti!
- Assim como?
- Insuflada em incertezas.


Nunca dormimos no mesmo sítio duas noites seguidas. Não fazemos rituais. Não dormimos abraçadas. As peles colam-se e nós fazemos tudo para que isso não ultrapasse o sexo. Trocamos beijos em demasia. Sim, sempre achei que nós funcionávamos em excesso. Não nos sabemos conter com tão pouco. E por vezes pedimos um quase-nada. Adormecemos a olhar uma para a outra. Com a chama dos corpos escondida pela distância segura do que temos receio. Talvez seja nesse preciso momento em que nos vemos melhor. No silêncio que se fala em palavras nunca ditas antes. Umas vezes esquecidas. Outras vezes deixadas em nós sem rasto para não as podermos seguir. Mas é nesse silêncio que nos amamos.

- Queres ir passear amanhã? Fugir durante um dia?
- Não sei...
- Porquê?
- Não me enerves. Deixa-me dormir!
- Se calhar fugia era hoje. És impossível!
- Foge. Não voltes. Hoje não te quero mais.
- Desprezo-te

Voltamos. Fugimos. Regressámos intactas com um sorriso na boca. Tratamo-nos mal tantas vezes que já não nos incomodamos. E dizes tu que não te acomodas. Acomodamo-nos ambas aos dias assim. A nunca acabarem como começaram. E mesmo assim são tão iguais. O máximo de tempo que estivemos separadas foram dois dias. Foi a primeira vez que nos tratamos mesmo mal. Gritámos. Assustámo-nos. Fizemos avisos, ameaças. Gritámos mais ainda. Partimos coisas. Dissemos nunca mais. O nunca mais durou 48horas. E custou.

- Já não gosto disto...
- Porquê?
- Porque não podes estar desintegrada de mim.
- A culpa é nossa. Tu gostavas de despedidas.
- Deixou de ter piada. Agora fere!
- Desde quando é que tu sentes dor?
- Desde que te disse nunca mais.
- Estiveste bem agora.
- Eu sei!
- Queres foder?
- Descobre...

Encontramos um equilíbrio. Já por várias vezes to disse. O equilíbrio no desequilíbrio. O desequilíbrio que descobrimos na nossa loucura. A loucura que foi o que nos atraiu. Atracção que se tornou em dias longos. Entendemo-nos bem em quase tudo. Menos nos gostos literários e decoração. Aí discutimos. Cada qual num lado, desistimos da nossa vontade em pouco tempo. Atiramos os desentendimentos para um canto qualquer e voltamos a comunicar. E aí voltamos a ser diferentes. Voltamos à rotina de nunca repetirmos o feito na véspera. Sentimo-nos vencedoras. E brindamos. E sorrimos. E quando estamos perto de dar um abraço, vamos cada qual novamente para seu lado. Se a distância um dia se quebra, todo o vidro que nos envolve se parte. E aí como nos reconheceremos?

- Tenho frio! Vem para mais perto...
- Não me apetece, eu estou bem.
- Egoísta, nunca o irás deixar de ser!
- Paciência.
- Vem!
- Não me canses.
- Merda!
- Queres gelado?
- Depende...
- Diz lá!
- Se o aqueceres primeiro...

Voltamos ao início da noite. Voltamos ao início de tudo.
A madrugada vem-se adiantando nos minutos. Os corpos esquecem-se de se protegerem e aproximam-se. Identificam-se. Cheiram-se. Encontram um espaço em comum. Regridem com os movimentos. Mas voltam a aproximar-se. A manhã não se atrasou e ensaiou-se com a luz nos dois corpos. Os olhos abrem-se. As mãos prendem-se. Dois olhares que se cruzam ainda na ternura do sono. Acordam numa só. Com a pele a transbordar entrega. Com os corpos a quererem conduzir outras noites como esta. Aos poucos sentem que se querem mais. Que a distância nem sempre é tão exacta quando sem nos apercebemos ainda nos guardamos.

quinta-feira, junho 15, 2006

Massive Attack – Live with me

“It don't matter, when you turn
Gonna survive, live and learn.
I've been thinking about you baby
By the light of dawn,
and in my blues
Day and night,
I been missing you
I've been thinking about you baby,
Almost makes me crazy,
Come and live with me
Either way, win or lose,
When you're born into trouble you live the blues
I've been thinking about you baby
See it almost makes me crazy child
Nothing's right if you ain't here
I'd give all that I have just to, keep you near
I wrote you a letter and tried to make it clear
That you just don't believe that, I'm sincere.
I've been thinking about you baby...
Plans and schemes,
hopes and fears
Dreams i've denied for all these years(...)”



Chegas de madrugada. Entranhas-me os sonhos até ser hora de acordar. Vais-te embora. Voltas e sentas-te nos meus pensamentos. Acompanhas-me no café que não tomo e nos cigarros que me esqueço de parar de fumar. Deitas-te no gelado que não devia comer. Sabor: chocolate e chocolate. Acenas-me com os olhos que não conheço a cor. Voltas segundos depois, molhas-me os lábios com a água que devia ser o teu beijo. Aquele beijo que não sinto mas que me fica nos sentidos. Voltas a ir. Desta vez demoras-te o tempo suficiente para eu me arranhar de saudades. E demoras. Continuas a demorar. Ás vezes, conversas com os meus medos, fazes-lhes perguntas. Prevês as suas respostas. Ris. Sorris. Mas eu nunca te vejo. Ainda. Ao fim da tarde ficas-me no corpo. Enquanto as horas não passam, ficas por lá, como se me massajasses o coração. A alma. Os receios. Sinto-te. Não quero. Mas não consigo evitar. Fugir. Sair por uns tempos. Voltar a encontrar-te. Voltar a encontrar-te todos os dias. Não acontece. Por vezes chegas-me em ternura. E aí sinto os teus abraços. Sabe-me a pouco. Volto a querer mais. Sempre mais.
As noites chegam e tu não estás. Estamos na mesma cidade. Quando falamos não estamos na mesma cidade. Quando somos algo que não tem nome e vai continuar a não ter. É melhor assim. Não nos cansamos. Mas eu canso-me desta desfragmentação. Canso-me.

Tenho saudades de quando me irritas. De quando não cedes. De quando não te controlas. De quando te encobres nas palavras. De quando estás. Aqui. Mais perto. Mas distante o suficiente para me custar a sentir-te.

E continuas cá.
E penso em ti.
E preciso de me esconder na noite.
Nas ruas onde gostava de te encontrar.

terça-feira, junho 13, 2006

Partidas
É neste lugar que elas se encontram
Entre o certo e o errado
Entre a serenidade e o desejo
Entre o meu coração e o meu sexo
Entre o devaneio e a loucura

Derrames de ausências.
Afrontamento de palpitações

Faz-me as tuas questões
Enquanto os teus dedos
Me abraçam o sexo
Me puxam a língua
Que se renasce por entre os lábios
Bebendo-se em luxúria

Responderei às tuas questões
Por entre a intermitência
Que se abre em orgasmo
Que se esconde no escarlate
Que me resguarda os olhos
Que se ouve
Nos movimentos do corpo
Que se lambe em suor.

No final existe uma partida
Existe um desassossego
Existe uma peça já decorada
Existem ainda questões
Existem ainda respostas
Existo eu a sair da tua pele
Existes tu com a certeza desajustada
Que te guardei em memória.





Meus queridos,

venho convidar-vos a estarem presentes no lançamento do livro de um grande amigo meu e também bloguista Gonçalo Martins ( http://www.extranumerario.blogspot.com). O lançamento é já esta sexta-feira dia 16 de Junho, na Fnac do Cascais shopping, pelas 21h.

Será concerteza um grande dia para o poeta como para aqueles que têm vindo a acompanhar o seu crescimento em todos os poemas que escreve.

Parabens meu menino, é este o teu momento, mereces sabes que sim!

Beijos e estarei lá para ver o meu exemplar personalizado!!!!

Quanto a vocês apareçam também e desfrutem do talento :)

sábado, junho 10, 2006

Tu-Eu

Alentejo. És tu que o carregas nas mãos. Que o apresentas a mim quando em dias estamos mais presentes, menos carregadas com a ausência que nasce entre os nossos corpos.
Gostava de me lembrar do começo. Desse tempo em que nos encontramos. Desses momentos onde a conversa conduzia as sensações e nada parecia difícil de ser acreditado. Nessa altura ainda acreditávamos. Ainda existia a confiança que podíamos fazer diferença neste mundo tão cinzento e tão pobre de sentimentos. Sabíamo-nos diferença e compreendíamo-nos como tal. E talvez foi aí que tudo deixou de ter raízes próprias. E continuamos num caminho, na ilusão que bastaria nos percebermos, na ilusão de sermos iguais. De termos os segredos de como continuar a permanecer uma na outra.

Do Tejo ao Além-do-Tejo
Em quantas noites tentei eu encurtar a distância. De quantas noites quis também renascer nas tuas mãos. Ao lado do teu Alentejo. E da Cecília Meireles. Que me lembrasses, Amor mesmo que agora a vida te pese, a fé seja inexistente, que o Amor tenha perdido o seu próprio brilho nesse teu coração tão frágil e tão já amadurecido.
Quem serás tu senão eu?
Quem serei eu senão tu?
Que seremos nós se nem a nós pertencemos?

Disseste-me certa noite que eras como o ar, facilmente entravas, mas serias um ar diferente porque não mais sairias. Digo-te eu que és mais do que o ar, és como os meus livros predilectos, és como as coisas que mais gosto de fazer, és como as palavras que teimo em calar, és um círculo de singularidade em que me envolvo e me deixo ficar. Não precisas de ser como o ar, não precisas de ser mais daquilo que és. Bastas-te assim. És. Aconteces. Sobrevives-me.

Peço-te que invadas esta ausência mergulhada em distância e me sintas além da pele. Toca-me além da pele. Persegue-me para além de tudo o que seja palpável. Para além deste fumo negro em que tenho vindo a construir a minha vida. Este casulo inconstante a que chamo viver. Sabes tanto do que te digo. Do que te falo. Do que quero quando me solto em palavras para que assim me sintas mais dentro. Para que em mim encontres as respostas do que ainda não te cansaste de perguntar. Do que agora quase que desistes de acreditar. De ter. De chamar até ti. Como as andorinhas que em criança desejavas ser para poderes voar. Porque são os sonhos que te continuam a adormecer. São eles as amarras que te permitem ainda viver. Que permitem que te continues a ligar às pessoas, à espera do sinal. Do sinal que te mostre que estás preparada para o que irá chegar a seguir. Menina sonhadora que voas até mim. Até ao que escondo mas que perante ti parece tão transparente. Tão nosso.

Cresces-me à medida que os dias passam, à medida que o silêncio nos acompanha nos espaços em que nada pensamos ser. Em que as palavras deixam de ter alcance em nós. Porque nada são quando se comparam ao que ainda queremos atingir. Seremos eu e tu capazes de reconhecer o sinal? O fim das nossas perguntas? Seremos eu e tu capazes de aceitar o que de incrível pode acontecer? Quando a distância se abater e só sobrarmos nós, sem dúvidas e apenas vontades?

Deixa-me deitar o meu coração sobre o teu para que ele sinta já o que a razão entendeu…estou dentro de ti, faz já muito tempo em que sei de cor esse trajecto que nos une ao mesmo tempo que fazemos de tudo para que nos separe. E tu também estás em mim mesmo nos dias pormenorizados em que desapareces, em que te fechas nesses teus sonhos à espera que a realidade os toque.
Faz já tanto tempo em que merecias estas palavras que se escutam em silêncio à medida que os meus beijos te seguram.

Do Tejo ao Além-do-Tejo

Dá-me a mão e mostra-me onde te encontras.

quinta-feira, junho 08, 2006

Beijos. Beijos na nuca. Beijos de ausência. Beijos de permanência. Beijos de palavras. Beijos de poesia. Beijos de pele. Beijos de roupa. Beijos de insónias. Beijos de despedida. Beijos de sermos. Beijos de cada qual no seu caminho. Beijos de corpos encostados. Beijos ao pé da janela. Beijos de manhã. Beijos de vinho. Beijos de seios. Beijos de braços. Beijos. Beijos de serenidade. Beijos de incerteza. Beijos de interrogações. Beijos de ombros. Beijos de língua. Beijos escondidos. Beijos desnudados. Beijos dados. Beijos recebidos. Beijos esquecidos. Beijos inesquecíveis. Beijos oferecidos. Beijos aceites. Beijos não-entregues. Beijos intermitentes. Beijos de colo. Beijos apetecidos. Beijos viciantes. Beijos com quintas intenções. Beijos prolongados. Beijos sem nome. Beijos que nos queimam. Beijos tatuados. Beijos de orgasmos. Beijos de silêncios. Beijos com sabores. Beijos de mar. Beijos de miúda. Beijos sem sentido. Beijos de último dia. Beijos que se soltam na pele.

Beijos
Beijos
Beijos

Que se abrem
Que se colam
Que se destinam
Que tem nome
Que tem caminhos

Beijos

Desfeitos.

quarta-feira, junho 07, 2006

Meu menino,

Agradeço-te a ti:

Todas as palavras.
Todos os abraços.
Todos os sorrisos.
O teu acreditar em mim.
O teu incentivo.
A tua inspiração.

Em pouco tempo construímos muito. Falamos de tanta coisa. Confiamo-nos.
O teu sorriso, já te disse que gosto muito do teu sorriso?
E que gosto quando me pedes para fazer festas no teu cabelo?
E gosto da tua curiosidade.
Da tua timidez que já quase não se nota.
Gosto de te ouvir falar do que escreves.
De como te consigo inspirar.
Gosto quando dizes mal do café que fui buscar.
E da forma que me dizes que me esqueci de trazer um copo com água.
Gosto-te muito.

Gosto do facto de partilharmos os meus gostos.
De gostarmos de observar o que se passa à nossa volta.
Gosto e gosto.

Obrigada por me fazeres rir e brilhar.



P.s. continuo chateada por não teres querido ir beber um copo de vinho do porto e não teres jantado comigo. Menino mau!

segunda-feira, junho 05, 2006

Por dentro...

O amor. Saber abrir a porta quando o amor chega até nós. Saber reconhecê-lo. Denuncia-lo. Aceitá-lo. Mas na verdade quando o amor chega a porta já antes foi aberta. Não acredito no amor à primeira vista. Já acreditei. Já acreditei em muitas outras coisas. Tempos de ingenuidade. Acontece aos melhores. E eu faço parte desse círculo. Antes de abrirmos a porta ao amor, abrimos antes à paixão, ao contacto, às histórias que se partilham, às fotografias tiradas, aos sonhos, às discussões, às saudades. Tudo isto chega primeiro. E é a isto que temos que abrir a porta. Será fácil? Duvido. Eu gosto de viver todas estas particularidades mas mal oiço a palavra amor fecho a porta e vou-me embora. Já por muitas vezes me perguntaram o porquê. Penso que a minha resposta nunca foi a mesma. Talvez porque nem eu sei. Ou até sei muito bem. Uma das respostas é porque nunca o encontrei, o amor, o dito. Porque com o passar dos anos deixei de acreditar. São tantas as vezes que costumo dizer que quero acontecer, que quero que me aconteçam. Se o amor tiver que me escolher, escolherá e aí talvez eu consiga manter a porta aberta. Durante algum tempo. A extensão dos prazos faz-me alergia aos pensamentos.

Dizem que o amor é a melhor coisa do mundo. Concordo. Amar a minha família, os meus amigos mais próximos, amar-me a mim, amar a vida é das melhores sensações que se pode sentir. Chegar a casa e amar aquela que me recolhe ou se recolhe nos meus braços talvez complete este sentir. Um dia. Deixarei de querer mais do que o mundo. Um dia deixarei que leiam amor nos meus olhos. Um dia saberei que escolhi o caminho certo. Ou talvez não. Mas aqui estou eu. E continuarei sempre a ser eu.

sábado, junho 03, 2006

Feira do Livro - II

Feira do livro. 2003. Viste-me pela primeira vez. Sentiste-me pela primeira vez. Observaste-me. Quase que me seguiste. Quase. Quase. Naquele dia, naquele dia andava na loucura dos livros. Como se os meus olhos fossem palavras, que se redobram que se encolhem para ter lugar para todas. Comprei imensos livros, apesar do calor, das comichões a me assaltarem o corpo. E não te esqueceste do pormenor da mochila laranja. Ainda a tenho. Ainda a levo ás compras. Amores antigos não se esquecem. Ficam-nos na pele. Ficam-nos nas palavras que por mais que se repitam nunca soam ao mesmo sentido. Amores antigos.

Hoje voltei à feira. Três anos depois. Levei a mochila laranja na esperança que por lá aparecesses, já nos cruzamos tantas vezes depois do vazio, porque não encontrarmo-nos aqui. Sei muito bem o que te diria. Dir-te-ia que gostaria muito que me seguisses até casa. Dir-te-ia que os amores antigos podem renascer. Podem ainda ser respirados. Enternecidos. Alimentados. Pedir-te-ia desculpa por ter fugido e não ter voltado atrás. Dir-te-ia tanta coisa…será que me perceberias? Será que me sorririas como de início?

Chá de menta. Café no chiado. 17h. Filosofia de Hegel. A tua aproximação. Eu dentro da minha capa de protecção. Tu com o maior à vontade que é tão teu e manteve-se sempre em ti. O teu sorriso de beleza por contemplar. O teu sinal no lábio. Os teus olhos, esses que um dia quis escrever tantas palavras. Tu à minha frente e eu sem conseguir falar. O desconforto. O tentar que ninguém se apercebesse do que estava ali a acontecer. Um convite para jantar. Um nascer. Um regressar. Tantas palavras por acontecer e eu só te soube acenar. Esperarias muito mais de mim naquele dia. Mas…existe sempre um mas nas expectativas. O meu mas era a desilusão. Desiludir-me a mim é algo que temos sempre de estar à espera. Saberemos lidar com isso. Mas frustar as expectativas daqueles que nos querem. Daqueles que nos esperam. Daqueles que sabem que temos mais para dar. Acenei-te e permaneci no café a ver-te a partir. E agora que leio esses momentos, apetece-me dizer-te que demoraste tanto tempo a chegar e o tempo até à tua partida foi breve demais, foi um tempo inquestionável até o reconhecer. Reconhecer de que o tempo sem ti demora a ter brilho. O teu brilho próprio.

Dia seguinte. Jantar. Regressar até ti. Até uma desconhecida. O medo. A desconfiança. O desconforto ainda presente. Os passos em falso sempre presentes. E se te dissesse que também eu cheguei mais cedo e que te vi andar pelo largo, e que te vi a falares para ti, e que vi nos teus olhos que me esperarias, que me esperarias até que eu chegasse. E cheguei. E nada te disse. E tu nada me disseste. E mesmo assim em silêncio sosseguei. Recebi-te. Essa noite. O princípio de tudo. O inicio das incógnitas. Das perguntas. Das dúvidas. Da vontade de fugir. De me conseguir enquadrar em ti. Em mim naquela situação e nas que foram acontecendo. Deixar-te entrar. Deixar que permanecesses. Que respondesses ás minhas perguntas. Aquelas que demorei a responder. Aquelas que demorei a aceitar. Perdi-me demasiado ao tentar encontrar uma maneira de te fugir. De te convencer que não era eu o caminho a seguir. Demorei tempo demais a tentar esconder-me em vez de tentar descobrir-te em mim. De nos descobrir.

O tempo acabou por partir o espelho que nos despistava uma da outra. O tempo acabou por ser a solução mais viável. Convenci-me que te estava a proteger. Convenci-me que estar na tua vida era o pior que podia fazer. Quis te salvar de mim. Das minhas angústias. Das minhas prisões. De mim. Acabei por me esquecer que eras a melhor coisa que me tinha acontecido. Desmoronei-me de mim.

Sinto que é tarde demais. Sinto que ao querer escapar-me do que sentia, apaguei dos teus olhos todas as palavras que precisavas de ler em mim…

Mas amanhã, amanhã voltarei à feira…voltarei todos os dias até ver um pedaço de ti no verde enfeitado do mundo dos livros.

Voltarei.

quarta-feira, maio 31, 2006

Ofereço-me orgasmo que me consome vorazmente o ventre. Que me soa a mãos a rasgarem os lençóis. A se moverem em tesão. A se esfregarem de desejo não contido. Louco. Frenético. Repetido. Insatisfeito. Lambo-me rio que não seca. Que não se rende. Que se prende aos instintos que me queimam a pele. Quente. Desnorteada. Afogada em gritos que se vomitam pela garganta.

Toco-me em saudade. Saudade de me embriagar em mim como me embriago em ti. De me foder a mim como te fodo a ti. Porque na minha pele existe um poema. Existe um cheiro. Existe um trajecto. Existe uma intermitência. Uma voz que é mais do que palavras. Existes tu. Existo eu em ti.

Ofereço-te o orgasmo que se rompe em mim
e que a ti te pertence.

terça-feira, maio 30, 2006

Feira do Livro - I

A primeira vez que me cruzei contigo…faz hoje três anos desde que te vi pela primeira vez. Na feira do livro. Andavas atarefada com o calor, tinhas o rosto rosado e cara de poucos amigos. Tinhas uma mochila laranja e muita confusão dentro dela. Garrafa de água na mão. Sacos na outra. E andavas. Lutavas com a tua própria pele, com a comichão causada por aquele dia quente. Cruzamo-nos várias vezes naquele dia. Acharás agora estranho se eu te disser que me apeteceu seguir-te nesse dia para ver onde moravas? Fico embaraçada sempre que me lembro disso. Mas senti uma vontade absolutamente fascinante de não te perder o rasto mais. Passados meses quando já saímos juntas…contei-te que quis ficar perto de ti desde esse dia. Assustaste-te. Não parava quieta na cadeira. E bebias muito gelo com sumo. Já te disse que gosto quando ficas atrapalhada?

A segunda vez que te vi, ganhei coragem e meti-me contigo. Estavas a tomar chá (de menta, lembro-me tão bem…) e lias um livro sobre filosofia. Observei-te durante algum tempo. Reparei que sempre que mudavas de página bebias um trago de chá, levavas muitas vezes a mão direita ao cabelo e por tempos rasos os teus dedos por lá se mantinham. Os teus olhos abriam-se muito como se comessem lentamente as palavras que descobrias. Fui ter contigo convidei-te para um jantar. Coraste. Franziste a sobrancelha. Tossiste. Olhaste à volta inúmeras vezes. Não disseste nenhuma palavra. Depois acenaste com a cabeça. Escrevi num papel a hora e o sítio e deixei o meu número. Sorri e fui-me embora já convencida que não te veria tão cedo. Mas vi-te. E revi-te e continuo a ver-te. Mesmo que distanciada.

Dia seguinte. Largo do Carmo. 21h. Cheguei meia hora mais cedo. Andei feita louca pelo largo. Falei comigo em silêncio. Insultei-me outras vezes mais. 21h e ponto lá estavas tu. Com os passos tímidos. Com um sorriso contido. Não trocamos nenhuma palavra até ao jantar. Olhamo-nos apenas. Tremia eu toda por dentro (sentiste?). No jantar soltas-te ligeiramente, pouco falaste de ti. Falamos de tudo menos de nós. Trocamos os nomes já no segundo copo de vinho. Partilhamos histórias. E sorriste. Sorriste descontraidamente. E eu sorri contigo. Quis continuar a ficar ali contigo.

Continuamos a sair. Continuamos a conversar. Começamos a sair para todo o lado juntas. Passamos a partilhar mais do que histórias. Começamos a partilhar a nossa essência. A nossa estranheza. A nossa pele. A nossa face. Até à ruptura…partilhamos tanto. E hoje ainda me lembro dessas tempos. Não os perdi. Hoje ainda continuo a querer ficar contigo. Como da primeira vez que te vi. Mesmo com os estilhaços que passaram a existir entre nós.

Hoje voltei à feira. Sem a confusão do costume. E pareceu-me ver-te ao longe com a mesma mochila laranja e o calor a te atropelar os sentidos. Quis que fosses tu. Mas a alma engana-nos bem.

Até para o ano.

domingo, maio 28, 2006

Sete

Fecha-se mais uma porta. A sétima porta.

Quero-te contar um segredo. Tu que nunca foste uma porta. Foste apenas amarra. Apoio. Janela aberta. Abraço. Beijo. Palavras. Poesia. Tu que sempre por cá esperaste.

Quero contar-te um segredo. O meu segredo.

Menti a todas as minhas mulheres. Menti absurdamente. E menti-me a mim também.
Disse-lhes para me roubarem o coração. Que era a resposta. Que era a forma de conseguirem que as amasse. Menti. Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete.

Não, eu não quero que me roubem o coração. Eu quero que me soltem o coração.
Quero que o façam respirar. Transpirar. Quero que o façam explodir. Com um beijo. Com um toque. Com um olhar. Quero-o vivo.

Fecha-se mais uma porta
E continuo desacreditada.

sexta-feira, maio 26, 2006

Toma-me. Fere-te. Desdobra-te em papel. Olha-me. Odeia-me. Gosta-me. Atira-te contra as paredes. Pára de fumar. Pára de dormir. Pára de foder. Ouve-me. Regenera-te (em mim). Bebe. Bebe até não poderes mais. Acorda-me vezes sem conta. Diz-me boa noite. Não me deixes dormir mais. Pensa em mim. Transpira-me. Sufoca-me. Liberta-me. Aceita-me. Esquece-me. Incendeia-me. Não me queiras. Pertence-me. Não fujas. Deseja-me como nunca desejaste ninguém. Não te apaixones. Contradiz-te. Faz o dito pelo não escrito. Puxa-me para ti. Expulsa-me da tua pele. Oferece-me os teus orgasmos.
Cola uma fotografia minha no teu frigorífico. Não me chames tua. Acompanha-me até a porta. Sê louca. Destemida. Tua. Perde-te nos mapas do meu corpo. Risca-me dos teus dedos. Tatua o meu cheiro no teu ventre. Não me puxes os cabelos. Chama-me pelo meu nome. Na cama não. Chama-me puta na cama. Mesmo que no fundo seja apenas uma menina. Chama-me o que quiseres. Faz o que quiseres. Sente como quiseres. Mas chama. Faz. Sente. Tua não tua.
Sou uma palavra que ainda não conseguiste soletrar.

quinta-feira, maio 25, 2006

Duas desconhecidas. Um quarto de hotel. Duas cores de pele.
Um propósito: acontecerem-se.

Duas estranhas revelam-se. Traduzem-se em sentidos. Tocam-se com as bocas. Entreabrem-se em línguas. Bebem-se em nudez. Ouvem-se em segredo.

Duas mulheres. Dois ponteiros de relógio fugidos pela noite fora. Prendem-se os lençóis aos corpos. Fogem-se gotas de salivas. Pedaços de sexo. As mãos argumentam em luta pelo território.

Dois corpos lançados pelo chão. Abraçados sem nomes. Sem perguntas. Duas vontades que se fazem em lume. Que se queimam em luxúria. Que se respeitam enquanto se rasgam num só corpo. Apenas um.

Duas almas presas.

domingo, maio 21, 2006

De mim para mim....

Momentos que me agrides. Momentos que agrides quem sou. Momentos que deixas pelo chão todos os sentimentos que se agitam por ti. Gostava que um dia tu que escreves tanto, escrevesses um texto sobre o porquê dessa tua raiva pelos sentimentos. Os sentimentos que são verdadeiros. Que fluem por ti. Que se constroem por ti. Raiva de morte. Raiva de morte porque não consegues deixar que o amor te toque a ti. Te invada. Te assalte todas as tuas seguranças. Um dia deixarei que me escrevas. Já to tinha prometido. Mas antes quero que escrevas um texto sobre ti. E quero que mo leias. Se tiveres que me morder o coração, morde. Se tiveres que mandar à merda o que sinto por ti fá-lo. Mas escreve. Deixa que as palavras falem por ti. Solta-te. Tu que jogas jogos de razão com as tuas palavras, deixa que a ternura jogue com o teu coração.

sábado, maio 20, 2006

Porque sim. Porque achei piada...porque me fez rir...e tudo o mais...

Msn ás 3:20 da manhã:

GNM: Achas mesmo que és única em quase tudo?
Cacau: Sim porque ao ser única sou-me igual a todos os outros. Porque somos todos únicos na forma como sentimos, nos damos, recebemos, vivemos e aí ao sermos únicos somos iguais e diferentes.
GNM: minha menina...
Cacau: sim...
GNM: acho que estás no curso certo...vais ser uma brilhante causídica!
Cacau: achas que o que digo não é verdade? é dissimulação?
GNM: é verdade sim, se estivesses a vender um carro comprava-to já!
Cacau: meu menino...

:) Gosto-te meu menino!

sexta-feira, maio 19, 2006

Desnudada

Guarda-me contigo. Guarda-me no teu lado esquerdo. Guarda-me no teu sinal. Naquele. Que eu gosto. Que eu beijei com a minha língua. Guarda-me mesmo que eu seja como o vento. Como as trovoadas de Novembro. Guarda-me como sou. Com tudo o que sou. Mesmo que por vezes saiba a pouco. Sou eu. Nunca deixo de ser eu. E sei-me especial, sei que me sabes especial.

Apenas isso. Guarda-me mesmo que um dia alguma de nós tenha que partir. Nunca deixaremos de ser nós. Por muito que nos pensemos perdidas uma da outra.

Aqui.

quinta-feira, maio 18, 2006

Não, não te consigo dizer as coisas. Porque as palavras deixaram de sair. Porque as conversas se perderam. Porque as conversas são controladas. Porque nos somos controladas. Porque quando as coisas estão prontas para ser ditas. Eu fujo. Tu foges. Todos andamos no mundo a fugir. Porque é a saída mais óbvia. Porque é a que deixa menos passos. Porque é a que nos faz adormecer mais cedo.

Porque fugimos de quem beijamos. Porque fugimos de quem fodemos. Porque fugimos de quem nos oferece o coração. Porque fugimos de quem não nos oferece nada. Porque fugimos de nós próprios. Porque deixamos de saber respirar. Porque deixamos de saber falar. Porque deixamos de saber sonhar. Porque nos deitamos nas nossas incertezas. Porque as certezas nunca são certas. Porque morremos. Porque chega a um ponto em que deixa de doer. Porque os sentimentos se constroem para serem comidos. Porque as vontades nos corrompem a alma. Porque nunca estamos satisfeitas. Porque as respostas passaram a ser previsíveis. Porque nos somos previsíveis. Porque o que era ficou no outro dia. Porque quero dormir. Porque as insónias fodem tudo. Porque eu fodo-me toda mesmo sem me aperceber. Porque todos fodemos todos. Porque no fim tudo arde em mentira. Porque a verdade mantém-se escondida. Porque é assim que está certo. Porque as cortinas existem. Porque as capas não se deixam corroer. Porque é assim. Porque escolhemos ser assim. Porque a vida não é fodida nós é que a vemos como tal.

E agora?
Agora nada. Continuamos a viver e a nos questionar.

terça-feira, maio 16, 2006

“You got to be so free away from me…”


Gosto de te ver a acordar. Entranhas-te toda nos lençóis. Sorris de olhos fechados. Sorris com o teu corpo arrepiado. Acolhes-te no meu colo pela manhã. Esboças palavras de menina ao meu ouvido. Abraças-me inteira para que eu te veja a nascer nos novos dias. Saio de manhã e tu ficas-te pela cama. Saio de casa. Da tua casa. Nesse espaço que queres que também seja meu. A caminho do metro lembro-me de ti, por vezes apetece-me voltar atrás e ficar. Mas o trabalho agarra-me a razão. De manhã és tão tu. Quer estejas enrolada na cama. Quer estejas nua em frente à janela. Quer me beijes a face. Quer me beijes os lábios. És tão tu. Gosto-te pela manhã…mais pela manhã.

Durante o dia estamos desencontradas. Nunca nos vemos. De tarde ligas-me a contar as ideias sórdidas que te passaram pela cabeça. Falas baixinho como se estivesses perto. E acredito que fales pelas mãos como se o meu corpo estivesse ao teu alcance. Ris. Sorris. Soltas-te. Provocas-me. Seduzes-me. Mas continuamos desencontradas. Na ausência que nos obriga o dia-a-dia respiro. Estou sem ti mas respiro. Sorrio. Rio-me. Canto palavras soltas. Bebo café. Demasiado café. Fumo também em demasia. Fujo em pensamento para outros recantos. Encontro-me com outras pessoas. Imaginativas. Também me solto. Também sou eu. Quando me desencontro de ti sou mais eu.

No final do dia encontramo-nos. Em tua casa. Sempre em tua casa. Chego mais tarde, carregada de papéis que precisam de ser lidos para o outro dia. Chego cansada. Chego desencontrada de mim própria. Mas chego. E beijo-te. E recolho-me nos teus braços. Porque sabe bem. Porque tu cheiras bem. Porque a tua pele chama-me. Porque talvez também sejamos. Por minutos. Obrigas-me a fumar na varanda. Obrigas-me a não beber vinho tinto antes do jantar. Obrigas-me a que dedique toda a minha atenção a ti. Obrigas-me a ouvir. Obrigas-me a falar. Obrigas-me a que me sinta bem a teu lado. Mesmo cansada. Farta. Surda. Muda. Imprópria para consumo. E tu continuas a ser tu. Continuas a encontrar liberdade neste teu espaço que insistes em partilhar comigo.

As horas passam. Vagarosamente. Mas passam. Ficas-te pelo sofá e eu pela mesa da sala a adiantar o trabalho. Por vezes vejo que me olhas. Vejo que me beijas de longe. Vejo que queres que vá ter contigo e fique mais perto. Vejo que ficas triste. Vejo que percebes o quanto eu não sou. O quanto eu não sei ser. E deixas-me estar. Não falas. Depois vou eu ter contigo. Vejo tão bem o que os teus olhos dizem. O que as tuas mãos aguardam. O que o teu coração se escreve. Se recria para estar comigo. Para aguentar a carga que é sentir mais. Dar mais. Querer mais. Do que o meu. E acredito que na maior parte das vezes consegues aguentar esse peso. Porque bastaria um sim. Um quero. Até um talvez para que esse peso fosse menor. Se regenerasse. Bastar-te-ia tão pouco minha menina. Eu sei. Mas não basta saber. E aí encontramo-nos de novo.

Deitamo-nos juntas. Lado a lado. Com a tua mão sobre a minha barriga. Com os teus olhos pousados nas minhas incertezas. E adormecemos porque temos que adormecer. Porque o tempo precisa de se fazer mover. Porque o amanhã quem sabe seja melhor. Quem sabe nos salve. O amanhã…

Esta noite. Unicamente esta noite. Venho aqui porque te quero. Porque te preciso. Porque a pele reclama chamamento. Porque a pele precisa de se sentir arranhada pelos teus beijos. Porque a pele clama-se desejo. Tesão. Euforia. Desespero. Instinto. Carne aberta, quente, fornicada. Hoje sou isto tudo. Preciso que me atires com a tua força de corpo contra uma porta. Preciso que me rasgues as roupas com os dentes. Preciso que em ti nasça a vontade de me foderes. Sim esta noite vim aqui porque quero que me comas. Quero que me leias poesia enquanto me chamas tua. Preciso que acabes com toda esta racionalidade, todo o calculismo. Todos os stops. Todos os nãos. Preciso que me entres pelo corpo. Com força. Com toda a falta de jeito. Mas que entres. Que sejas. Que me mates o desejo que vês no meu sorriso. Não, hoje não te quero comer. Não quero ficar por cima. Não te quero puxar os cabelos. Não te quero dizer como te quero comer. Quero tudo ao contrário. Quero sentir-me presa. Encurralada. Possuída. Puta. Putinha. Menina mal comportada que precisa de um castigo. Quero que me castigues a alma. O meu lado esquerdo. Quero-te em mim. Com a tua boca no meu orgasmo.

Apenas esta noite.

segunda-feira, maio 15, 2006

Tenho tanta coisa para te dizer. Existe dentro de mim tanto de negro como de luz. Existe acima de tudo contradições. Vontades que estão em constante guerra. Não te acontece a ti em momentos sentires que estás dentro de um campo de batalha? A luta entre apenas uma pessoa. Tu própria. Ganhas e perdes. Cais e levantas-te. Mas perdes sempre um pouco de ti, por muito pequeno que sejas…perdes!

Tenho tanta coisa para te dizer. Para te falar. Para te fazer ouvir. Para que te esqueças. Para que te lembres. Queria cravar-me na tua pele para me saber tua. Gosto de por vezes me saber tua. Mas a ideia em si é castradora. Como se sufocasse. Como se ao mesmo tempo me libertasse. Explica-me como é que ao sentir-me tua nasce em mim uma sensação de liberdade? Devia dar antes a ideia de perdição. De perder o controlo. De deixar de conseguir prever os meus passos. As palavras que preciso de dizer. O que posso ou não sentir.

Tenho tanta coisa para te dizer mas falta-me a certeza que estás aqui. Em mim.

sábado, maio 13, 2006

13/05/06 at 03:00 a.m.

“Sabes de mim e sabes-me bem…”

Errado menina. Sei tão pouco de ti. Sei o que dás. Sei o que gostas de beber. Sei como dormes. Sei como gesticulas as palavras. Sei como mexes no cabelo. Sei como é o teu sorriso. Sei como as tuas mãos andam enquanto falas. Sei quantas vezes tocas nos meus braços enquanto conversamos. Sei que gostas de puré de batata líquido. Sei que hibernas. Sei que foges quando estás a perder o controlo. Sei que não gostas de filmes de terror. Sei que gostas de surpresas. Sei que o que é teu não é de mais ninguém. Sei que a tua pele sabe a mar. Sei que te achas perdida no meio de tanta gente. Sei que não te vendes. Sei que não alugas sorrisos. Sei que queres uns ténis pretos e que enquanto os não encontrares não descansas. Sei que observas. Sei que não gostas de ser observada. Sei que já fumaste marlboro. Mas que enjoaste. Sei que enjoas a quase tudo. Sei que fumas muito. Um maço por dia. Sei que não procuras o amor porque temes nunca dar de caras com ele. Sei que sofres por dentro e que ninguém ouve os teus gritos. Sei que não conduzes. Sei que és pequenina. Sei que não, é não. Sei que adoras ananás. Sei que não gostas de ir ao supermercado. Sei que queres muito. Sei que detestas perder. Sei que de manhã não gostas de ouvir vozes. Sei que os teus despertadores às vezes não funcionam. Sei que gostas de ir para o trabalho a pé para sentires o ar fresco na tua cara. Sei que não gostas de conversa de treta. Sei o teu nome. Sei como gostas de ser chamada. Sei que quando usas fato no final do dia doem-te os pés. Sei que queres ir de férias, mas estás dividida. Sei que na maioria das vezes és forte, mas que no fundo és apenas uma menina. Sei que gostas de chicletes. Sei que gostas de manga. Sei que gostas de ser surpreendida. Sei que não é o ego que te move. Sei em que sítio do teu corpo ninguém te pode tocar. Sei de cor a tua voz. Sei que não gostas de te sentir perdida. Sei que não gostas de te sentir sufocada e com muita gente à volta. Sei que gostas de escolher e não ao contrário. Sei que gostas do diferente. Sei que te irrita quando o cabelo te cai pela testa. Sei que usas um gancho. Sei que dentro de ti tens uma força vulcânica. Sei que gostas de ver o Sem Rasto. O Dr House. O Lost. E de outra série que é “mentes bla bla bla”. Sei que gostas de música que te toque por dentro e faça com que o medo por momentos desapareça. Sei que escreves e escondes. Sei que me sabes. Sei que me ouves. Sei que me lês. Sei que bem dentro de ti queres ficar. Por tudo. Por nada. Por todos os significados. Por nenhum deles. Sei que queres acontecer.

De ti sei tão pouco.
Sei o que as palavras me dizem.
Sei o que tu permites que eu saiba.
Sei o que os meus olhos me mostram.
Sei que não quero que exista o “até um dia destes”.

E agora ainda me lês?
Ainda me sentes?
Ainda queres ir?

Fica.

(...)

Existem pontos de interrogação no meu eu.
Existem questões que nunca terão respostas.
Existimos nós. Ambivalentes. Loucas.
Tão não seguras de nós.
Tão cheias de segredos.
Tão cheias de nós mesmas.

Existem questões que nunca te poderei responder.
E deixamos de existir.
Como se constrói algo que não foi feito para nascer de nós?
Como se estraga algo que nunca foi certo? Desejado? Pensado?

Como se fode um coração que não tem chama?
Como se ama uma face por detrás de uma capa escondida?
Como se sente saudade de um dia?

Existem questões
Muitas delas nossas.

Demorei-me a encontrar a saída.
Demorei-me a ver-me a mim desligada de ti.
Demorei-me a ver-te a ti.

Que idade tens tu menina?
Tenho 22 anos de incoerência.

Que nome tens tu menina?

Existem corações
Que não se permitem.
Que não se questionam.
Que não foram feitos para serem pontos de interrogação.

Existe o medo.
Entre nós é isso que existe.

Que nome tenho eu menina?

sexta-feira, maio 12, 2006

Inconsciências I

Mais do que querer ser eu a te salvar,
desejei que fosses tu a que pudesse marcar a diferença
(pensando ser isso possível).

Mantêm-se as incertezas,
as dúvidas das certezas
Mantêm-se o teu sorriso
As tuas mãos
Os teus defeitos nos meus.

Tudo se mantém igual
Mas as noites soam menos minhas

Soam lentas
Soam de sorriso fechado

Soam-te a ti longe.


(No fim tudo o que tinha para se dar, não se deu)