Hoje vou sair de casa. Porque agora a casa parece o inferno. O inferno dentro do quarto. E as noites, sempre as noites. Mas hoje vou sair. Era para ter ido ao cinema. Não fui. Hoje não me apeteceu ir ao cinema sozinha. Hoje não quero estar sozinha. E não vou estar. No hoje estou acompanhada. É assim que tem de ser. E as insónias hoje ficam para trás. Porque existe companhia. E não vou beber porque não posso. Mas comprei álcool. E comprei também sumo. Bebo sumo, eu. Laranja e cenoura. E fico contente. Não me sinto exigente. Hoje. Acho que afinal não sou exigente. Contento-me com pouco. Parece que agora contento-me com pouco. O crepe com chocolate quente que comi ao lanche estava uma merda mas comi e sorri. Bastou-me o crepe mesmo que estivesse uma porcaria. E depois lembrei-me de vir a pé para casa e passar à tua porta. Mas não o fiz. Mudei de caminho e fui ao supermercado. E podia ter passado à tua porta, mas não o fiz. E bastou-me só essa ideia. De voltar à tua rua. Aquela rua.
sábado, dezembro 15, 2007
Hoje vou sair de casa. Porque agora a casa parece o inferno. O inferno dentro do quarto. E as noites, sempre as noites. Mas hoje vou sair. Era para ter ido ao cinema. Não fui. Hoje não me apeteceu ir ao cinema sozinha. Hoje não quero estar sozinha. E não vou estar. No hoje estou acompanhada. É assim que tem de ser. E as insónias hoje ficam para trás. Porque existe companhia. E não vou beber porque não posso. Mas comprei álcool. E comprei também sumo. Bebo sumo, eu. Laranja e cenoura. E fico contente. Não me sinto exigente. Hoje. Acho que afinal não sou exigente. Contento-me com pouco. Parece que agora contento-me com pouco. O crepe com chocolate quente que comi ao lanche estava uma merda mas comi e sorri. Bastou-me o crepe mesmo que estivesse uma porcaria. E depois lembrei-me de vir a pé para casa e passar à tua porta. Mas não o fiz. Mudei de caminho e fui ao supermercado. E podia ter passado à tua porta, mas não o fiz. E bastou-me só essa ideia. De voltar à tua rua. Aquela rua.
quinta-feira, dezembro 13, 2007
E penso que por mais que queira fugir disto não há como fazê-lo: eu não sou interessante o suficiente. Interessante o suficiente para manter algo mais do que um pouco de intimidade e boa cama. E aquela ideia surge novamente e mais forte, sou boa a escrever e a foder. Não sei porque me queixo. Há quem não seja bom em nada. Eu sou em duas coisas. Fantástico. Então porque é que não me sinto a mulher mais feliz do mundo?
“Flowers on your grave
I never loved you
Flowers on your grave
I never touched you”
*Lovage – Archie & Veronica
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quarta-feira, dezembro 12, 2007
Na boca, na textura dos lábios as ruas de corpos por onde nos alimentámos, os espelhos do Tejo criados quando uma boca prova outra, quando uma língua persegue a indefinição do trajecto de outras tantas.
Nas mãos como no resvalar dos dedos descobrem-se as almas por dentro das almas. A morte que testemunhamos no adeus, na cadência moribunda do último acenar. Com as mãos apagam-se caminhos, escondem-se lágrimas, começa-se um tudo de novo.
No coração incendeiam-se hábitos, tingem-se madrugadas de amores antigos na expectativa dos que ainda poderão germinar. Na pele usada do coração consomem-se sonhos de poemas escritos num tempo faminto de juras de amor. No coração agora já nada vive, respira, luta.
No sexo, na gruta geométrica do desejo acordam momentos turvos de prazer, do primeiro preliminar ao último orgasmo. Vestem-se sons agudos e destemidos graves e no meio da arena multiplicam-se os corpos, a nudez ambígua das faces sem nada que as diferencie. Desarrumam-se corpos inteiros na diversidade de beijos, línguas, mãos, pele com pele, sexo com sexo. Alimentam-se fantasias adormecidas e nada se questiona a não ser o desejo que se escorrega como larva pelas bocas famintas. Guardam-se os movimentos exaustos, a secura da boca, os cabelos transpirados, o calor, como fuga de qualquer sentimento.
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segunda-feira, dezembro 10, 2007
domingo, dezembro 09, 2007
Fucked up
Os dias, ás vezes, são uma bela merda. As noites parecem que os seguem. E as manhãs deixaram de existir. Tomo comprimidos para dormir e não fazem efeito. Puta que os pariu. A todos. A todas.
Não preciso de ninguém. Não preciso. É disso que agora tenho que me convencer. Não estou numa fase má. Estou numa fase óptima. Estou maravilhosa. Não faço um cu. Mas continuo maravilhosa. Não há novidades. Os desafios já me cansam. E continua a não haver novidades. E sinto-me louca, hoje.
Vou ligar a alguém. É isso. Não. Não posso. Não há ninguém. Havias tu. Lembras-te? Existias. E depois? Eu fodi a nossa amizade. E agora parece que se fodi a nossa amizade, fodo tudo o resto. E sabes que mais? Foda-se para ti. Porque também tu fodeste a nossa amizade. Porquê? Porque não me soubeste perdoar. E podias ter-me perdoado. Podias.
Mas como bem disseste “Deixei de me identificar contigo”. E eu com isso? Odeio-te sabes? Odeio-te a ti. Odeio o amor que vivi. Odeio a puta da minha vida hoje. Só hoje. Amanhã acordo e continuo maravilhosa. Porque eu sou maravilhosa. E fantástica. Mesmo que continue a foder as coisas. Mesmo que continue a foder-me a mim ou aos restos de mim. Se calhar sou apenas restos. De qualquer coisa. Ainda não sei o quê. Um dia descubro e mando-te por correio uma amostra.
Custa-me agora dizer “Preciso de ti”. Porque eu não posso precisar. Porque quando eu precisava tu estavas lá. Tu estavas lá. E já não estás. E agora? O faço? Eu não sei o que fazer. Porque eras tu que estavas. E agora já não está ninguém. EU PRECISO DE TI. Volta. Eu preciso que tu voltes. Porque não quero precisar de mais ninguém a não ser de ti. Não sei precisar de alguém. Não sei dizê-lo. Merda.
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sexta-feira, dezembro 07, 2007
Carta.
Hoje farias anos. E também hoje acordei com a tua morte. Lembrei-me que nunca te fui visitar ao cemitério. Que nunca mais falei de ti. Que nunca te escrevi. Nunca te escrevi. Foste a segunda pessoa a ir. Depois do meu avô foste tu. Estavas doente, o coração sempre o coração. As lágrimas caíram depois de ouvir o teu irmão, meu pai a começar a falar. A voz dele como nunca antes. Trémula. A dor a tapar-lhe as palavras. E tu morto. Na cama de um hospital. Mais uma vez a despedida que não aconteceu. Voltar a casa e não te ver a responder mal à tia. E esse vosso amor que sei eterno. Dos poucos que conheço. Porque o amor eterno só existe para alguns e esses serão sempre sortudos. Vocês foram.
O pai foi buscar-me ao aeroporto, não havia lágrimas nos seus olhos. Acho que nunca chorou. Abraçamo-nos e nada dissemos. Foi o melhor que se arranjou. Cheguei à tua casa onde estava a tia e os meus primos já adultos, nos seus trintas e muitos. A tia, a tua mulher, a quem gostavas de dizer “Há sempre dinheiro para ires ao cabeleireiro, ficas sempre mais bonita de cabelo liso.” E ela ia e continua a ir ao cabeleireiro – porque gosta de ficar bonita para ti. E a morte naquela casa. As lágrimas e o controle delas mesmas. Foste a perda. E contigo perdeu-se outras coisas. Perdeu-se o Natal. O natal que era passado na tua casa, já não se passa na tua casa. Acabou. Passei a ser eu e os pais. A família não existe. Porque tu morreste e já não há Natal. Nem Páscoa. Porque tu morreste. E contigo morreu aquilo que achávamos ser a família. E odiei-te por isso. Mas já não odeio. E hoje choro a tua morte. Porque sei que nunca te visitei no cemitério. Mas quando voltar a casa no natal vou visitar-te e vamos conversar e por momentos pode ser que esqueça que já não estás cá e que este ano mais uma vez não vai haver natal.
Tio e padrinho. Era algo que te orgulhavas. E foi contigo que comecei a ir à missa aos Domingos, desde muito cedo, todos os domingos íamos os três, a tia, tu e eu. Tu costumavas ler na Igreja e eras vaidoso por isso. E eu cantava muito, já sabia aquelas canções todas de cor. E depois no final os vossos conhecidos vinham ter com a tia e diziam “Ah canta tão bem, é neta, não é?” E a tia respondia que sim, que eu era a neta. Mas não era. Mas era como se fosse. Vocês os meus avós paternos, porque os verdadeiros não conheço. Morreram. Morreram quando eu ainda não tinha memória.
Depois da missa íamos almoçar, e comíamos sempre a mesma coisa: frango assado. Ontem apeteceu-me frango assado. Mas o melhor era mesmo aquele que comíamos os três, nos domingos da minha infância.
Depois eu fui crescendo e fui ficando rebelde e decidi que já chegava de missas e de cantigas. Depois o pai e a mãe construíram a casa de fim-de-semana e vocês iam sempre connosco. A tia cozinhava a sopa que vocês tanto gostavam e que eu detestava e a omeleta que só de pensar cresce água na boca. O pai dava-te muito nas orelhas, lembro-me tão bem e a tia não te defendia, fazia de propósito e eu lembro-me de rir e achar piada à vossa relação. A tia era mais velha do que tu e tu cuidavas dela com um amor infinito, de todas as vezes que ela ia para o hospital lá estavas tu incansável a falar com os médicos. Eras incansável, sim. E o que pudesses fazias. Por todos. Pelos teus amigos, pela tua família. A tia deu ao pai camisas tuas, novas, de marca. E eu fiquei com duas. Guardo-as comigo. Não me ficam nada bem, são monstruosas mas guardo-as. São minhas. E ainda tem o teu cheiro.
Lembro-me de quando estávamos no fim-de-semana de tu comeres arroz com leite quente, tinha de evitar olhar para ti porque senão ficava enjoada. E agora até disso tenho saudades.
E saudades quando dizias “a minha sobrinha”. E eu ainda guardo comigo o orgulho de ser a tua sobrinha.
Até breve Tio.
Um abraço e um sorriso
C.
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quinta-feira, dezembro 06, 2007
Sei que te esqueceste de tanta coisa. A vida está gasta e com a vida estás tu. Esqueceste tanta coisa. E as raízes do teu corpo podres. E as tuas mãos de onde nasceram as palavras divididas ilesas. Dança. Enquanto a tua pele ainda consegue sentir a noite. E se fechasses os olhos no momento em que me poderias ouvir, faria a diferença?
Olho. E nesse instante, sou. Sem braços. Sem pernas. E não faço a diferença. Sou como poderia não ser. Não há distância. E já percebeste que a dança, que o contacto entre qualquer artéria nossa ainda viva não acontece. Não pode. Tornámo-nos incompatíveis. Eu sou e poderia não ser. E tu estás gasta como a vida que aprendeste a pisar. Vês? Olho.
Retiro-me a pouco e pouco daqui. Do lugar incompleto sem nome. E se não tem nome não existe. E então nós não podemos ter existido. Juntas. Novamente a ligação que se perdeu. E se nunca aconteceu? Não faz mal. Retiro-me na mesma. A pouco e pouco. E tu ao longe poderias estar a dançar. E eu aqui, ainda a revisitar todos os passos do teu corpo na dança inexistente. Estou a ir. E já só sou cabelo, os caracóis. Respiro pelos fios desconcertados de cabelo. E ainda aqui estou mas já vejo a porta. Não posso olhar para trás. Porque se olhar posso ver ainda algo a respirar. Mas não tu. Tu esqueceste-te de dançar e já não tens lugar em ti onde eu possa renascer.
Ocupamo-nos do vazio. do vazio colorido onde pensamos encontrar a fé.
O vazio e nós e agora a morte.
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domingo, dezembro 02, 2007
Quando te olhas no espelho que vês? Quando os teus olhos se despem no confronto contigo mesma. Quem és tu? É a pergunta que mais vezes faço a mim. Todos os dias a resposta é diferente. E todos os dias a resposta está cada vez mais longe da verdade. Da minha verdade. Fujo. Porquê? Será a verdade assim tão dura? Tão menos bonita daquela que tu desejarias? A verdade dura – nua – anestesiante – latejante – infame – verdade última de ti. Foge.
“Confusion in her eyes that says it all.
She’s lost control.
And she’s clinging to the nearest passer by,
She’s lost control.
And she gave away the secrets of her past,
And said I’ve lost control again,
And a voice that told her when and where to act,
She said I’ve lost control again.”
No acumular das respostas que se estendem aos meus pés nenhuma é a certa para mim. Nada se adequa a mim. E o mundo, os restos dele, quase que me são indiferentes.
Quase.
And I’ve lost control again.
(Joy Division – She’s lost control)
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domingo, novembro 25, 2007
Gostava que soubesses. Sim, tu. Que te manténs onde a distância se situa. Gostava que soubesses que talvez seja a falta de um caminho a minha maior lacuna. A que mais me incomoda quando deixo de pensar. Porque é quando descanso a mente que tudo me pode arrasar.
Mudei. E é-me incerto se foi para melhor. Ainda sobrevivo, bem sei. Mas acomodei-me à estranha solidão que criei. Passou de crença a realidade. De fuga a espaço. E agora se me veres perceberás que continuo aqui. Menos próxima das pessoas. Em algumas alturas tão longe de mim. Ou da imagem que tenho de mim. Em dias mais nítida do que outros.
Poder-te-ia dizer que agora me podes visitar. Poder-te-ia dizer tanta coisa e talvez a maior parte seriam mentiras. A arte de mentir. Não a possuo porque nada possuo. Foi outra coisa que aprendi. Não sou senhora de nada. Nem de ninguém. E como tal vagueio perdida pelos escombros que eu própria ajudei a criar.
Esta noite seria uma boa noite para me levares a passear. Gostava que me desses a mão e no teu peito me esperasse um abraço. Daqueles que hoje me recuso a dar. Habito-me nesta cidade como já deixei de habitar o meu berço. O meu berço partido. Fragilizado. Tantas vezes odiado. Habito talvez o chão deste quarto. A sua madeira velha, a sua cama sem identificação. A varanda que me esqueço de visitar. Sei que habito. Porque me sinto nua enquanto aqui estou.
Sabes o que descobri recentemente? Esperava alguma coisa e apercebi-me da imensidão da descoberta. As noites assustam-me. Já não são as velhas camaradas de outrora. Já não são o aconchego esperado depois de um dia qualquer. Assustam-me e fragilizam-me. E quem é que está aqui? Ninguém. Roubaram-me as minhas noites. E de novo, as insónias também aqui. A habitarem um quarto sem a minha autorização. E depois de algumas horas a tentar enganar a verdade, o silêncio fecha-se sobre a minha boca e pernoita nos mundos que ainda não me nasceram.
Perguntas-me: que queres tu, miúda?
Respondo-te: quero o tudo que se rasga dentro do nada.
Pergunto-te: achas que peço muito?
Respondes-me: tens que primeiro merecer o nada para depois então mereceres um tudo.
…
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segunda-feira, novembro 19, 2007
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Hoje não bates à porta. O som da campainha já não te é familiar. Não és tu. Abres a porta com as chaves que eu te ofereci. No dia em que pela primeira vez foste tu quem vi ao acordar. O princípio do fim. Tu sabes.
Estranho os teus passos pelo soalho velho desta casa. Na distância que se quebrou com o contar do tempo. Perceberás tu que, por vezes, ao tentar que te afastes ainda te aproximo mais?
Vejo-te. E quanto mais te observo mais te quero perto. Na harmonia de que se fazem as horas, ás vezes. Guardo-te nas minhas mãos quando chegas. E aproximo-me. E fico. E nalgum instante permissivo estamos ambas aqui. Tu em mim. Eu sempre em ti.
Vens cansada das escadas, ofegante, cativante. E no beijo que solto sinto aquele cheiro, o cheiro da vida maltratada na tua pele. De novo, tu. E eu sou esta casa. A que te acolhe mais do que tu me acolhes a mim.
Vai. Quero que saias para que eu consiga preservar o que ainda é só meu. Absolutamente meu.
Chego perto. Subo as escadas e por cada degrau conseguido sinto um enjoo. Um acumular repentino de falta de ar. Paro de respirar quando poiso os pés no tapete da tua entrada. Ás vezes sinto que não consigo. Que não consigo superar esta barreira de madeira. Entro. Porque tu, tu do outro lado, puxas-me. Até aqui tudo me soa igual. É um hábito, sim. Em tão pouco tempo, os hábitos.
Entro e aí volto a respirar. E quando te vejo a meio caminho estremeço. Ainda estremeço perante ti. Todas as vezes acabam por ser a primeira vez. O início de tudo o que ainda não compreendo. Nos teus olhos algo. Algo de indefinição. Talvez medo. Talvez também sintas o sabor do hábito. A corrosão dos dias desta vida.
Hoje apetece-me beijar-te sem que tu me beijes. Querer-te e não sentir a reciprocidade. Não o percebes. Beijas-me e sei nesse instante que te sou. E que tu me és.
Queres que saia. Deste sonho ou pesadelo. Da incerteza que se mostra mais certa desta história.
Saio.
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domingo, novembro 18, 2007
quinta-feira, novembro 15, 2007
Alma distorcida
- O que é que sabes fazer?
- Foder e escrever
- E mais?
- Mais nada.
- E que projectos tens para o teu futuro?
- Ganhar dinheiro e escrever.
- E como pensas ganhar dinheiro?
- Sendo advogada e chulando os meus clientes.
- E achas isso bem?
- Nem acho bem nem mal, é a vida.
- Porque és assim tão pouco profunda?
- Já nasci de rabo para o céu e fodida.
- Não te entendo, nunca entendi!
- Ainda bem. Melhor os nossos caminhos se afastam.
- Fodes bem?
- Depende.
- De quê?
- De quem fodo.
- Fodias-me?
- Depende.
- De quê?
- De quanto pagasses.
- Puta!
- Puta não, Sra Dra Puta!
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quarta-feira, novembro 14, 2007
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Sais. Nuns dias olhas para trás. Noutros esqueces-te dos lugares por onde os teus pés já passaram. Adquires novos conhecimentos à medida que tocas no chão. Limpo. Sujo. É o chão que te diz como te sentes hoje. O chão e a tua face ao espelho. A tua face como espelho da alma. Sais. Tens de ir. Não olhas para trás. Segues pessoas que estão à tua frente. Continuas o teu percurso. Para ti é sempre novo. Outro. Diferente do da véspera. Lembras-te do ontem? Ainda te recordas dos odores, da roupa, dos mapas incutidos nos teus olhos? Estou à tua frente. Conheces-me? Não. Segues em frente. Tocas ao de leve numa relva ainda molhada pelo resfriar do Inverno. Fechas os olhos. Vês-te deitada na relva. Gotas entranhadas na tua pele. Fechas os olhos e estás onde quiseres.
Durmo. Sei que durmo mesmo que sinta os teus olhos em mim. Nos contornos do meu corpo, deste corpo que tantas vezes deixo de sentir. Continuo a dormir e estás. Não te sinto a respirar. Podia acordar, hoje. E olhar-te também eu. Não te vejo, tu sabes. A minha cegueira não mo permite. Se me aproximasse, ficavas? Permitiras o tacto entre nós? Seguirias o meu andar pelas ruínas deste quarto. Acreditarias se te dissesse que em mim ainda existe luz. No fundo de uma gaveta. Num pedaço de tecido gasto. No mais profundo do que sou. Estou a falar. As palavras saem da minha boca. Ouve-me. Apenas hoje.
Entro na cidade pela porta da manhã. Os barulhos não me incomodam. As pessoas não existem. Sou eu no coração deste pulsar humano. Ando. Sigo-me pela calçada. Do lado direito. Do lado oposto dos sentimentos. Estou sã. Sei que estou. Os olhos estão demasiado abertos. Estão receptivos. Sou eu. Do lado de fora da avenida. Passeio pelo reflexo das lojas. Sigo-me. Não consigo seguir mais ninguém. Sigo-me a mim mesmo quando me esqueço de quem sou. E tu, sabes quem és?
Numa noite, numa em que te soubesse longe poderia pintar uma das tuas paredes.
Com o sangue das palavras.
Fechar-te os olhos para que saibas quem realmente eu sou.
Prender-te as mãos para que aprendas a me respirar.
Beijar-te o coração para que agora ele consiga reconhecer o que trago e o que lhe dou.
Aprender a saber como te receber. A permitir que entres neste espaço em que também o és. Vendar-te os olhos para que apenas sintas o melhor de mim.
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segunda-feira, novembro 12, 2007
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A roupa está amarrotada por cima de uns livros velhos, não se nota muito mas estão gastos. Toco-lhes e estão gastos. Mortos. Não gosto de coisas antigas, gosto de livros novos, mulheres virgens. Quando lhes pego pela primeira vez tenho medo de os magoar. E se os abrir e as palavras tiverem fugido. Que seria do livro, novo, vivo que coloco ao pé dos outros. Cemitério dos livros. No meu quarto, num canto escuro.
Saio à rua. Tu já não estás lá por isso posso sair. Cumprimentar as pessoas que vejo todos os dias. Sorrimos todos. Reconhecemo-nos. Há muitos anos que vivo aqui. No prédio amarelado que antes não o era. Antes era vermelho. Um vermelho feio cheio de fendas. Agora é amarelo. Dizem que o amarelo é uma cor que traz boas energias. Eu não as tenho, fujo delas. Estranho tudo o que é bom. O melhor, o melhor de mim. Ser melhor pessoa. Achas que consigo? Tenho medo, medo das escadas que não desço. São muitas. Vou no elevador e fecho os olhos. Tremo sempre que as portas se fecham até se abrirem. Ás vezes andavas comigo de elevador e rias quando me sentias aflita. Eu fechava os olhos e muitas vezes sentia a tua boca na minha. A tua boca na minha. A que sabe agora? Podia saber a mel, sei que odeias mel. Sim, mel é o teu novo sabor. Sabor a vómito. A porta do elevador abre. Entro. Subo. Estou de novo no meu quarto. Fico à porta. Tenho que entrar.
Tenho uma caneta azul no bolso. Está quase no fim. Não deito fora canetas a não ser que não escrevam mais. Tenho uma caixa cheias delas. Prefiro assim. Não as dou não as empresto. São minhas. A minha colecção de canetas que depois vão para o lixo. Pediste-me que te escrevesse uma carta. Com a minha letra. Um envelope verde pediste. Verde como a relva. Mas não verde com a cor dos caixotes do lixo. Olho para ti mesmo que não estejas à minha frente. Olho e não percebo. Queres uma carta porque nunca te escrevi uma carta. Queres chegar a casa e na caixa do correio encontrá-la. A minha. Sem contas para pagar. Sem avisos de nada. Queres sentar-te na cama azulada e ler. Escrevo-te uma carta, sim. É hoje que te envio a carta. No envelope a tua morada. A tua morada. Já não a sei de cor. Já não sei nada de cor. De nós. Pego na folha e na caneta. E escrevo sem tirar a tampa da caneta. Escrevo tudo o que quero escrever. Deixei de ter receio de que não gostes. Se não gostares não falas comigo e já não te tenho à janela. Fora do carro ou dentro do carro. Escrevo. Carrego no ponto final e não assino. Tu sabes que a carta, a carta que queres receber é minha. Está pronta. Envio-te a carta escrita com a caneta com tampa. Sim, a caneta azul a da minha colecção. Sabes? Ofereceste-me uma vez uma caixa. Eu sorri. Estava feliz. Mas agora não sei o que estou.
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domingo, novembro 11, 2007
Depois de tantas noites escritas em tantas outras divisões de uma casa o teu nome ainda. Na marca dos teus lábios na chávena de café. Uma chávena de uma cidade qualquer do mundo. Os teus sapatos favoritos por cá estão no lugar de sempre. Daquele sempre que jurámos ser possível. Depois de tanta coisa, da inércia das palavras e no abandono dos gestos, ainda o teu nome. Saberás tu lê-lo quando entrares em minha casa e o vires na tua lápide?
Sim porque foi na sala da minha casa que te deixei. Era o teu lugar predilecto, a tua passagem obrigatória mesmo nos dias em que entravas só para me dares um beijo e me entediares mais um pouco.
Depois de todos estes anos e no enfraquecimento de todas as memórias, ainda existe o teu nome algures por aqui.
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quarta-feira, novembro 07, 2007
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quinta-feira, outubro 18, 2007
O poema publicado no post anterior podia ser meu. Mas nunca o poderia ter escrito, não saberia como fazê-lo. Este poema acompanha-me há muitos anos, tenho-o sempre na carteira. Li-o num canal de IRC e a pessoa que o reclamava seu tinha o nick Dreamer. Desde a primeira leitura que o senti mais dentro do que muitas palavras, do que muitos sentidos. Uso-o agora num momento em que as palavras me faltam e pouco haverá a dizer/acrescentar. Uso-o porque o sinto também.
Aquele abraço. Um dia. O sentirás teu, outra vez.
Até já
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Ambição
São palavras que não enchem o que eu digo
Que não cabem nos teus ouvidos de pânico
Pânico que sentes, em ódio, por te amarem
Porque nunca te amam o suficiente
E recusas, abandonas-te ao medo
Ao medo-paliçada sempre presente
Inexpugnável
Um presente que não é mais do que um passado
Porque não há diferenças
E não as há porque recusas
Com medo
E fugindo não tens tempo de sentir
Apenas sentir
A realidade do que tornas fugaz
Volátil
A verdade do Amor
Porque continuas a fugir e com medo
Que não seja verdade
Que não seja verdade que o amor que te dão
Seja amor
Seja desejo de morrer por ti
De viver para ti, por ti
Isto não é um poema
São palavras que não enchem o que eu sinto
Não exalam o teu cheiro de quando gritas
A tua voz de quando ris
A tua boca quando beijar uma outra parte de ti
Em outra boca
E o desejo fica por trocar
Numa febre entre o pânico e o delírio da fuga
São palavras que nunca ouvirás
Sem que te feches
Que para ti o amor é um sufoco
Daqueles que te amam e te querem fechar
Quando afinal és tu que te fechas
Sem confessar que andas perdida
Na própria clausura
E abrir é doloroso
É desejar o que não se tem
E concluir que nada se pode ter
Porque não queres acreditar
E ser crédulo é sofrer
Por isso te fechas cada vez mais
Buscando saciedade apenas no presente
Que já passou
E agora é diferente
Mas tudo permaneceu ainda mais igual,
Isto não é um poema
São palavras que não enchem o que eu choro
No meu choro de criança abandonada
Abandonada pelos teus olhos
Pelo teu calor
Que nunca foi mais que um fósforo
Hesitante, aterrorizado
De chama intensa e breve
Muito breve
Que se escuda na angústia do amor
Ou não-amor
Porque afinal és tu quem o não sabe
E és tu que fecha o amor dos outros
O teu amor nunca realizado
Dizendo que aquele te quer fechar;
Isto não é um poema
Porque não te entra pelo peito
São palavras que os teus olhos decifram
Mas o teu coração não entende fugindo
E os meus gestos já não cabem nestas linhas
Escritas em desejo
Escritas em amor e saudades e febre
De não ter mais o teu ser e fazê-lo florir
Ter o teu ser
No meu rumo
E antevejo-te abanando a cabeça
Pensando
“Isto não é um poema”
Mas isto não é um poema
Sou eu
Mas tu não me queres
A mim, que sempre fui o teu melhor verso
A melhor parte de ti
E estou em tudo o que conheces
Mas em nada do que vês porque escolheste a cegueira
E detestas-te, em terror,
O terror da morte de seres ninguém
Por não saberes afinal que és
Na frieza de um olhar caído
(perdido no tempo)."
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sábado, outubro 13, 2007
Poderia ter sido uma história de amor com final feliz.
Lembro-me que apesar de ter tipo oportunidade para estar com outras pessoas e até de me envolver fisicamente e/ou emocionalmente, nunca o fiz. Existia sempre um qualquer impedimento. Algo que não me deixava avançar mais. Houve uma altura em que o queria muito fazer. Precisava, até. Mas fiquei quieta. Esse algo que sempre me impediu era o amor. É o amor. Ao contrário de ti, nunca quis, nunca lutei contra esse sentimento. Não foi ele que me desiludiu. Foi a relação, a turbulência diária, patética e que estupidamente sempre soubemos criar e perdurar. O amor vive livre em mim. O amor. Quiseste-o fora de ti, tantas vezes disseste que te fazia mal, que eu te fazia mal e comigo vinha tudo, não é? E agora eu nada valo, como ontem disseste.
É fácil depreender o quanto somos diferentes. Demasiado fácil, agora.
O que tu tanto te esforçaste para acabar eu sempre quis preservar. O que tanto te doía e fazia mal, a mim abraçou-me em muitas noites que não estavas presente. Sim, muito diferentes. Nós.
O momento de partir chegou primeiro para ti. E agora sou eu que, passo a passo, volto a mim, à vida, ao esquecer de uma desilusão, ao esquecer do amor. Já não faz sentido guardá-lo, pois é?
Vai e sê o que não foste comigo.
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