quinta-feira, janeiro 17, 2008

“Então peço-te que me contes tudo, Sebastião.
- Tudo? Mas o que é tudo? Tudo o que vejo? – perguntas, num sussurro. Como se, de súbito, te sentisses esmagado pela intraduzível vastidão do teu olhar. O que se vê nunca se pode narrar com rigor. As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas. As palavras não têm cor – por isso permanecem quando as cores desmaiam. Percebo o teu aturdimento: como se traduz a visão? Como se emprestam os olhos? Impossível. Ainda por cima num aeroporto, onde tudo é movimento; o movimento entorpece o acontecer das coisas.
Conta-me só a verdade, Sebastião. O que sobra daquilo que vês. Dizes-me que vês uma criança chorando agarrada aos joelhos de um homem que parte. Uma mulher tenta soltar-lhe os dedos das calças do homem, que se esforça por conter as lágrimas. Peço-te que não me contes histórias de despedidas. Vejo-as à transparência das vozes, no recorte bruto das frases interrompidas, entrecortadas de tristeza. Peço-te que olhes para o que fazem as pessoas felizes – são essas que preciso de ver. Dizes-me que te peço demasiado, que a felicidade não se vê.”




Excerto da “Eternidade e o desejo” de Inês Pedrosa

segunda-feira, janeiro 14, 2008

1º dia

Estive a pensar horas e horas e horas e decidi que quero:



Tudo contigo.




E sendo assim gostaria de saber se aceitas namorar comigo.

sábado, janeiro 12, 2008

Um brinde a nós.

We're just ordinary people
We don't know which way to go
cause we're ordinary people
maybe we should take it slow
This time we'll take it slow



Take it slow
maybe we'll live and learn
maybe we'll crash and burn
maybe you'll stay maybe you'll leave
maybe you'll return
maybe you'll never fight
maybe we won't survive
but maybe we'll grow
we never know
baby you and I.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

“Meti-me nesta história com ela, com esta mulher que escreve, esta mulher impossível, esta mulher transbordada por si própria, transbordada pelo mundo inteiro, pela injustiça, pela beleza, pelo sofrimento, pelo amor, por toda esta mixórdia que é tão dela como minha e desta história que se desenrola algures entre ela e eu e não somente entre ela e eu, ela sabe-o, e eu também, e contudo não convém sabê-lo demais, fazer como toda a gente, fazer cenas, fazer estrilho, fazer-se de má, fazer cozinhados, fazer amor também, toda a bagunça do mundo visto estarmos no mundo, visto participarmos do mundo, visto não estarmos separados do resto da humanidade, visto que, enquanto ela escreve, o faz também para o mundo inteiro como para mim, visto ser eu que estou ali.”





In “Aquele amor” de Yann Andréa

sexta-feira, janeiro 04, 2008

“Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia de meu amor eterno, e eu não sabia. Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados. O que era? era como a água escorrendo numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura da pedra, o musgo entreaberto pelo fio d’água correndo, e a nuvem no alto, e o homem amado repousando, e o amor parado, era feriado, e o silêncio no voo dos mosquitos. E o presente disponível. E minha libertação lentamente entediada, a fartura, a fartura do corpo que não pede e não precisa.”





A paixão segundo G.H - Clarice Lispector

segunda-feira, dezembro 31, 2007

6

Às vezes esqueço-me do conteúdo desta partilha. Do seu interior composto por brechas, saídas abruptas, estados sólidos e ficcionais. Seria melhor voltar um pouco atrás, muito antes de sequer haver um interior entre nós. Já percorremos espaços a mais juntas, é o que penso. Só às vezes, só às vezes preferiria esquecer-me do que já existe. Não é uma questão de ser mais fácil, mas sim por achar que seria mais leve. Gostaria de ainda me perder quando vou ou vens ao nosso encontro. Aquele peso forte nos passos, aquele turbilhão nas mãos, os incómodos e impacientes segundos antes de te ver.
Não é muito o que existe. Lembro-me disso consecutivamente. Se me lembrar não escorrego. E assim repetimos o assunto. É um assunto que não se cansa, acho. Até nas alturas em que olho para ti e os teus olhos não estão presentes. Somes-te porque já sabes o que dizer e o que não dizer. E também tu te repetes. E depois beijamo-nos porque os beijos são as palavras que deliberadamente não queremos dizer. Ou repetir. Que se guarde o bom, que não se torne num hábito. Os hábitos assassinam o que há de bom. Na maior parte das vezes. Daqui a pouco chegas e vamos a algum sítio. As duas. Nada nos acompanha e é bom sentir essa solidão a teu lado. Como se apenas fossemos nós, nos momentos em que estamos.


Faltam-me casacos. Ainda fico com a cama cheia de roupa antes de ir ter contigo. Nada parece o acertado. Nada é bonito o suficiente para ti. Nem que seja para chegar, despir-me e querer apenas a roupa do teu corpo no meu. E no entanto, a beleza que tantas vezes encontro dentro dos teus olhos parece-me insuperável por qualquer outra coisa. A beleza que encontro nos teus olhos quando tudo o resto deixa de respirar.
Os meus pensamentos são obscuros, nada do que me ocupa é simples. E quando és tu que me ocupas então tudo se complica. E acho que gosto de sentir isso. De uma forma pouco racional, a forma como tu às vezes me ocupas, lembra-me de como sou inteira, de como consigo ser mais. Agrada-me essa ligação que se criou.
Questiono-me se sentes da mesma forma os momentos em que respiramos juntas. Se sequer sentes como a textura da nossa alma muda e como os nossos corpos se olham. Porque existe um fenómeno que acontece. Mesmo que seja raro. Quando acontece o meu pensamento deixa de ser complicado e vejo com clareza algo imperceptível noutros dias. Não posso falar em meses ou em anos. Não existimos assim há tanto tempo. E gostava também de sentir que não são os prazos que nos limitam. Nem os prazos nem as estações do ano. Gostava de sentir que enquanto conseguirmos ser nada nos limita, nem mesmo nós. Nós - os piores inimigos da evolução das coisas.
São horas de sair de casa, o casaco está vestido e tu estás algures à minha espera.


5

Enche-me o corpo. Todos estes espaços completos. Os detalhes da tua vida. É aqui que te reconheço. Tu sabes. Agora podes adivinhar todas as linhas rectas, todos as paragens do meu eu.
Podia não entrar, esquecer-me da entrada para a tua casa. Do nome da rua que nunca sei dizer. Sim o nome, as letras que o formam e que fazem dele o que é. Não esqueço. Não invento. Apenas sei e sigo todo o trajecto até ti.
Reaprendi a respirar esta cidade, a mais imperfeita das amantes, quando no momento no arredondar dos segundos, com todas as interrogações possíveis te vi a chegar vinda da tua porta. O sorriso. Mais uma vez o sorriso a anteceder a continuação de tudo isto.
Regresso a Lisboa e estou no meio dos carros, da poluição enfurecida, nas mãos frias das pessoas. Estou no meio do nada como se de uma infertilidade se tratasse. E no entanto, tu.

Espero-te. Vens de um destino que parece ser do outro lado do mundo. Ultrapassas o mar, a terra e estás quase perto. A tua imagem perto. E agora são as palavras indispensáveis. A sua reciclagem é feita agora. Como pela primeira vez os nossos olhos se encontrassem. Despem-se e o medo nessa circunstância deixa de existir. Estamos nuas. E pouco a pouco descobrimo-nos no lugar onde as mãos não chegam.
Chegaste. Senti-o quando ainda vinhas distante. No meio da cidade. Lisboa. Perguntas-me quando foi. Quando é que o fogo tomou conta dos sentidos? Quando foi que cheguei? – perguntas. Digo-te que não sei responder. Que já cá estavas. Quando? Desde sempre. No momento anterior ao começo de todas as histórias.
Dou-te a mão e trago-te ao meu lugar. Ao lugar que tantas vezes de olhos abertos imaginaste. Eu já te sei. Há tanto tempo. É algo imperturbável este saber. Não o contestas. Entregas-me a tua boca. E ficámos à janela da cidade. Lisboa.

domingo, dezembro 30, 2007

"Remember today:

I’ve no respect for you
And I miss you love
And I miss you love

I Love the way you love
But I hate the way
I’m supposed to love you back."

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Não será este desejo que me ocupa a empurrar-me para o meio da estrada. Nem são estas mulheres que me chegam pelo caminho das palavras. Posso claramente assumir que não sei para onde vou e não sei se quero ter companhia nesta travessia.
Mas não por estas mulheres. O desejo é faminto. É ou era. Não sei por vezes distinguir. Está em mutação constante. Como eu. É desejo sim. Mas por vezes apenas um desejo de vazio.
Não posso dizer que as desejo. Não sei o que posso dizer. Não sinto que as queira. E não estou seduzida. Não. Isso não. Sou intocável e mesmo quando o digo em voz alta põem-se em fila indiana a dizer que estou enganada. Estou sempre enganada. É o que me dizem. As mulheres. E eu repito: nenhuma delas me chega a dentro. Não sinto nada. Talvez desespero. Mas não sinto nada. Sou intocável.

Tenho a alma doente. E o corpo adoeceu primeiro. É o que me parece. Nas noites piores, com a voz dormente sinto que digo – toquem-me. Eu preciso de sentir. Não sei o que é isso de me sentir tocada. Não sei o que é sentir.

Mas não por estas mulheres.


Volto a adormecer. Já com o corpo nu e menos doente. E parece que sonho, algo de bom. Não sei o quê. Mas sonho e é só por isso que sinto também a alma menos doente.

E talvez amanhã não sinta esta miséria entediante que se tornou a minha vida.

sábado, dezembro 22, 2007

"I'll
stop
the world
and
melt
with
you."

quarta-feira, dezembro 19, 2007

4

Voltaste. Não sei quanto tempo demorou a ausência. Se foi amena ou turva. Se me escureceu ou acalmou. Não me recordo do compasso dos dias em que não estiveste. Arranquei-te de dentro de mim. Temporariamente. Tu sabes. Voltaste. De tudo, é o que importa. E rever-te é perceber o quanto me fizeste falta. A tua presença, sim. E o silêncio das manhãs. Já te disse que admiro a tua capacidade para calares as palavras? O modo como ao me ofereceres o silêncio me fazes acreditar? Acreditar. Nisto. Neste círculo cheio de pontas soltas e incógnitas. Tu respiras e por isso sabes.
Não falamos da tua partida nem deste regresso. Acho que durante alguns dias eu e tu não falamos. Calamo-nos no toque, no beijo, no sentido de tudo o que acontece quando aqui estás. E aceito também estar contigo. Olho-te no sofá de olhar fixo. Talvez penses na vida. Não sei. Não quero saber. Estás. É só o que sei. Gostava que isso me bastasse. Um dia. E volto a olhar para ti e de novo uma ternura. Uma ternura de ti. Aqui. Neste lugar que já não sei apenas meu.


Não tenho receio que ao voltar tu tenhas ido embora. Ameaçaste tantas vezes que não me abririas a porta. Que era o fim. Porque só podia ser o fim, estas partidas e estes regressos. É o fim – dizias tu. E eu fingia que acreditava que tu não notarias a minha ausência. Penso que sempre foi mais nas tuas negações que eu consegui ver as tuas verdades. Mentes bem de mais para seres uma mentirosa. Tu entendes.
Cheguei e o ar não me faltou. Não andei de escadas. Fui de elevador. Toquei duas vezes à porta. A primeira menos silenciosa que a segunda. E ao te rever senti que durante este tempo tinha cá estado. Sempre. Continuas igual. A mesma forma de arranjar o cabelo, a mesma posição em pé, o mesmo sorriso intacto. Perfeito, daquela forma que só quem gosta consegue ver. Olhas-me, porque quando o silêncio impera é como tu comunicas.
E agora que voltei e tu me deixaste entrar voltamos à vida, como se a nunca tivéssemos deixado de reviver. Regulamo-nos paralelamente com os dias. E deixamos de saber em que altura do mês estamos e se falta muito para deixarmos de estar bem. Não sabemos. Não contamos com o amanhã. Fechas a porta por dentro e sentas-te à minha frente no sofá. As tuas mãos nas minhas. Hoje nenhuma de nós vai a lado algum.

sábado, dezembro 15, 2007


Foto de autor desconhecido (acho.)


Era um lugar reservado para ti. Não sei que lugar seria, posso dizer-te, que nunca pensei nisso. Que lugar nesta cidade seria o teu. Mas podias ter vários. Acho que gostarias de ter vários. E assim, quando sentisse mais a tua ausência junto à minha pele poderia passar por esses vários lugares. E acho que sorriria. Porque não sorrir? Serias tu que estavas ali. Num de muitos lugares. Que seriam teus. Esses lugares seriam presentes meus para ti. E assim veria o teu sorriso. Nos dias em que a ausência me fosse difícil de engolir e aceitar. Há dias assim. Em que parece que morremos quando nos sentimos sozinhos. É a solidão que mata. Mas é só às vezes. Não te preocupes. Não gosto que se preocupem comigo. Fico sem jeito com essas coisas. E eu fico bem. Sobrevivo, lembras-te? Eu fico bem. E peço-te que não te preocupes. Porque não gosto e fico sem jeito. E não gosto de ficar sem jeito. O tapete foge nesses momentos. E eu quase, quase que caio.

Hoje vou sair de casa. Porque agora a casa parece o inferno. O inferno dentro do quarto. E as noites, sempre as noites. Mas hoje vou sair. Era para ter ido ao cinema. Não fui. Hoje não me apeteceu ir ao cinema sozinha. Hoje não quero estar sozinha. E não vou estar. No hoje estou acompanhada. É assim que tem de ser. E as insónias hoje ficam para trás. Porque existe companhia. E não vou beber porque não posso. Mas comprei álcool. E comprei também sumo. Bebo sumo, eu. Laranja e cenoura. E fico contente. Não me sinto exigente. Hoje. Acho que afinal não sou exigente. Contento-me com pouco. Parece que agora contento-me com pouco. O crepe com chocolate quente que comi ao lanche estava uma merda mas comi e sorri. Bastou-me o crepe mesmo que estivesse uma porcaria. E depois lembrei-me de vir a pé para casa e passar à tua porta. Mas não o fiz. Mudei de caminho e fui ao supermercado. E podia ter passado à tua porta, mas não o fiz. E bastou-me só essa ideia. De voltar à tua rua. Aquela rua.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

O tempo certo das coisas é estipulado logo à partida. O tempo é desde logo demarcado e ninguém se apercebe do fim que se anuncia. Logo que se começa alguma coisa, os minutos iniciam a sua contagem. Não há como fugir disso. Eu não posso fugir disso. Não é a fé que poderá mudar coisa alguma. Muito menos as palavras. E o que começa por ser uma ilusão será sempre ilusão. Mesmo que seja uma ilusão boa. Comigo as ilusões são sempre boas.
E penso que por mais que queira fugir disto não há como fazê-lo: eu não sou interessante o suficiente. Interessante o suficiente para manter algo mais do que um pouco de intimidade e boa cama. E aquela ideia surge novamente e mais forte, sou boa a escrever e a foder. Não sei porque me queixo. Há quem não seja bom em nada. Eu sou em duas coisas. Fantástico. Então porque é que não me sinto a mulher mais feliz do mundo?







“Flowers on your grave
I never loved you
Flowers on your grave
I never touched you”


*Lovage – Archie & Veronica

quarta-feira, dezembro 12, 2007

José Gonzalez - Hand on your heart

O corpo sustém um laço com a cama onde dorme. Tal como os ouvidos guardam serenamente aquela voz de que tanto gostaram. Quer na alma quer no corpo, estamos perante um armazém de coisas de que não nos podemos livrar. Temos gavetas minúsculas onde guardámos palavras, livros autênticos de emoções do passado. Nos olhos encontram-se todas as fotografias tiradas ao longos dos anos, todas as faces que nos disseram algo a mais do que tantas outras. Nos seios deitam-se segredos, Outonos e primaveras em que fomos mais felizes, raízes do mundo, fonte de fome e saciedade no deslizar pela ponta dos mamilos acordados.
Na boca, na textura dos lábios as ruas de corpos por onde nos alimentámos, os espelhos do Tejo criados quando uma boca prova outra, quando uma língua persegue a indefinição do trajecto de outras tantas.
Nas mãos como no resvalar dos dedos descobrem-se as almas por dentro das almas. A morte que testemunhamos no adeus, na cadência moribunda do último acenar. Com as mãos apagam-se caminhos, escondem-se lágrimas, começa-se um tudo de novo.
No coração incendeiam-se hábitos, tingem-se madrugadas de amores antigos na expectativa dos que ainda poderão germinar. Na pele usada do coração consomem-se sonhos de poemas escritos num tempo faminto de juras de amor. No coração agora já nada vive, respira, luta.
No sexo, na gruta geométrica do desejo acordam momentos turvos de prazer, do primeiro preliminar ao último orgasmo. Vestem-se sons agudos e destemidos graves e no meio da arena multiplicam-se os corpos, a nudez ambígua das faces sem nada que as diferencie. Desarrumam-se corpos inteiros na diversidade de beijos, línguas, mãos, pele com pele, sexo com sexo. Alimentam-se fantasias adormecidas e nada se questiona a não ser o desejo que se escorrega como larva pelas bocas famintas. Guardam-se os movimentos exaustos, a secura da boca, os cabelos transpirados, o calor, como fuga de qualquer sentimento.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

domingo, dezembro 09, 2007

Fucked up

Sou a tristeza hoje. A insatisfação. A noite que me rodeia. Poderia também ser o álcool ou a droga. Mas esqueci-me de comprar. Poderia ter ido ás putas. Ou melhor, vender o meu tesão. É tesão a mais. Tesão que não encontra satisfação. Há quem tenha tesão a menos ou mesmo quem não o possua. Podia vender. Faço bom preço. Vou por um anúncio no jornal. Ou em vários jornais. Para além de tesão, vendo tristeza. E a insatisfação claro. Não posso vender lágrimas porque já as tenho a menos. Quando receber nova plantação ponho outro anúncio no jornal.

Os dias, ás vezes, são uma bela merda. As noites parecem que os seguem. E as manhãs deixaram de existir. Tomo comprimidos para dormir e não fazem efeito. Puta que os pariu. A todos. A todas.

Não preciso de ninguém. Não preciso. É disso que agora tenho que me convencer. Não estou numa fase má. Estou numa fase óptima. Estou maravilhosa. Não faço um cu. Mas continuo maravilhosa. Não há novidades. Os desafios já me cansam. E continua a não haver novidades. E sinto-me louca, hoje.


Vou ligar a alguém. É isso. Não. Não posso. Não há ninguém. Havias tu. Lembras-te? Existias. E depois? Eu fodi a nossa amizade. E agora parece que se fodi a nossa amizade, fodo tudo o resto. E sabes que mais? Foda-se para ti. Porque também tu fodeste a nossa amizade. Porquê? Porque não me soubeste perdoar. E podias ter-me perdoado. Podias.
Mas como bem disseste “Deixei de me identificar contigo”. E eu com isso? Odeio-te sabes? Odeio-te a ti. Odeio o amor que vivi. Odeio a puta da minha vida hoje. Só hoje. Amanhã acordo e continuo maravilhosa. Porque eu sou maravilhosa. E fantástica. Mesmo que continue a foder as coisas. Mesmo que continue a foder-me a mim ou aos restos de mim. Se calhar sou apenas restos. De qualquer coisa. Ainda não sei o quê. Um dia descubro e mando-te por correio uma amostra.


Custa-me agora dizer “Preciso de ti”. Porque eu não posso precisar. Porque quando eu precisava tu estavas lá. Tu estavas lá. E já não estás. E agora? O faço? Eu não sei o que fazer. Porque eras tu que estavas. E agora já não está ninguém. EU PRECISO DE TI. Volta. Eu preciso que tu voltes. Porque não quero precisar de mais ninguém a não ser de ti. Não sei precisar de alguém. Não sei dizê-lo. Merda.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Carta.

Querido Tio Zeca,



Hoje farias anos. E também hoje acordei com a tua morte. Lembrei-me que nunca te fui visitar ao cemitério. Que nunca mais falei de ti. Que nunca te escrevi. Nunca te escrevi. Foste a segunda pessoa a ir. Depois do meu avô foste tu. Estavas doente, o coração sempre o coração. As lágrimas caíram depois de ouvir o teu irmão, meu pai a começar a falar. A voz dele como nunca antes. Trémula. A dor a tapar-lhe as palavras. E tu morto. Na cama de um hospital. Mais uma vez a despedida que não aconteceu. Voltar a casa e não te ver a responder mal à tia. E esse vosso amor que sei eterno. Dos poucos que conheço. Porque o amor eterno só existe para alguns e esses serão sempre sortudos. Vocês foram.


O pai foi buscar-me ao aeroporto, não havia lágrimas nos seus olhos. Acho que nunca chorou. Abraçamo-nos e nada dissemos. Foi o melhor que se arranjou. Cheguei à tua casa onde estava a tia e os meus primos já adultos, nos seus trintas e muitos. A tia, a tua mulher, a quem gostavas de dizer “Há sempre dinheiro para ires ao cabeleireiro, ficas sempre mais bonita de cabelo liso.” E ela ia e continua a ir ao cabeleireiro – porque gosta de ficar bonita para ti. E a morte naquela casa. As lágrimas e o controle delas mesmas. Foste a perda. E contigo perdeu-se outras coisas. Perdeu-se o Natal. O natal que era passado na tua casa, já não se passa na tua casa. Acabou. Passei a ser eu e os pais. A família não existe. Porque tu morreste e já não há Natal. Nem Páscoa. Porque tu morreste. E contigo morreu aquilo que achávamos ser a família. E odiei-te por isso. Mas já não odeio. E hoje choro a tua morte. Porque sei que nunca te visitei no cemitério. Mas quando voltar a casa no natal vou visitar-te e vamos conversar e por momentos pode ser que esqueça que já não estás cá e que este ano mais uma vez não vai haver natal.

Tio e padrinho. Era algo que te orgulhavas. E foi contigo que comecei a ir à missa aos Domingos, desde muito cedo, todos os domingos íamos os três, a tia, tu e eu. Tu costumavas ler na Igreja e eras vaidoso por isso. E eu cantava muito, já sabia aquelas canções todas de cor. E depois no final os vossos conhecidos vinham ter com a tia e diziam “Ah canta tão bem, é neta, não é?” E a tia respondia que sim, que eu era a neta. Mas não era. Mas era como se fosse. Vocês os meus avós paternos, porque os verdadeiros não conheço. Morreram. Morreram quando eu ainda não tinha memória.
Depois da missa íamos almoçar, e comíamos sempre a mesma coisa: frango assado. Ontem apeteceu-me frango assado. Mas o melhor era mesmo aquele que comíamos os três, nos domingos da minha infância.

Depois eu fui crescendo e fui ficando rebelde e decidi que já chegava de missas e de cantigas. Depois o pai e a mãe construíram a casa de fim-de-semana e vocês iam sempre connosco. A tia cozinhava a sopa que vocês tanto gostavam e que eu detestava e a omeleta que só de pensar cresce água na boca. O pai dava-te muito nas orelhas, lembro-me tão bem e a tia não te defendia, fazia de propósito e eu lembro-me de rir e achar piada à vossa relação. A tia era mais velha do que tu e tu cuidavas dela com um amor infinito, de todas as vezes que ela ia para o hospital lá estavas tu incansável a falar com os médicos. Eras incansável, sim. E o que pudesses fazias. Por todos. Pelos teus amigos, pela tua família. A tia deu ao pai camisas tuas, novas, de marca. E eu fiquei com duas. Guardo-as comigo. Não me ficam nada bem, são monstruosas mas guardo-as. São minhas. E ainda tem o teu cheiro.

Lembro-me de quando estávamos no fim-de-semana de tu comeres arroz com leite quente, tinha de evitar olhar para ti porque senão ficava enjoada. E agora até disso tenho saudades.

E saudades quando dizias “a minha sobrinha”. E eu ainda guardo comigo o orgulho de ser a tua sobrinha.



Até breve Tio.


Um abraço e um sorriso

C.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

E poderias dançar se houvesse chão neste lugar incompleto. Poderias imaginar que estavas sozinha por dentro destas paredes lisas. E talvez conseguisses de olhos fechados perceber mais alguma coisa.

Sei que te esqueceste de tanta coisa. A vida está gasta e com a vida estás tu. Esqueceste tanta coisa. E as raízes do teu corpo podres. E as tuas mãos de onde nasceram as palavras divididas ilesas. Dança. Enquanto a tua pele ainda consegue sentir a noite. E se fechasses os olhos no momento em que me poderias ouvir, faria a diferença?

Olho. E nesse instante, sou. Sem braços. Sem pernas. E não faço a diferença. Sou como poderia não ser. Não há distância. E já percebeste que a dança, que o contacto entre qualquer artéria nossa ainda viva não acontece. Não pode. Tornámo-nos incompatíveis. Eu sou e poderia não ser. E tu estás gasta como a vida que aprendeste a pisar. Vês? Olho.

Retiro-me a pouco e pouco daqui. Do lugar incompleto sem nome. E se não tem nome não existe. E então nós não podemos ter existido. Juntas. Novamente a ligação que se perdeu. E se nunca aconteceu? Não faz mal. Retiro-me na mesma. A pouco e pouco. E tu ao longe poderias estar a dançar. E eu aqui, ainda a revisitar todos os passos do teu corpo na dança inexistente. Estou a ir. E já só sou cabelo, os caracóis. Respiro pelos fios desconcertados de cabelo. E ainda aqui estou mas já vejo a porta. Não posso olhar para trás. Porque se olhar posso ver ainda algo a respirar. Mas não tu. Tu esqueceste-te de dançar e já não tens lugar em ti onde eu possa renascer.

Ocupamo-nos do vazio. do vazio colorido onde pensamos encontrar a fé.

O vazio e nós e agora a morte.


domingo, dezembro 02, 2007

Fecha-se a janela. É da escuridão este tumulto. Encontram-se caminhos interditos a pessoas como nós. Pessoas isentas de outras pessoas. Pessoas que encontram na dependência de outros a sua própria libertação. A sua independência pessoal. Como se de um projecto antigo se tratasse. Somos pessoas que facilmente serão esquecidas. Eu serei esquecida, já o sou no presente. Não tenhas receio. Fomos nós que escolhemos isto. Esta forma de atingir tão intensamente, arrasamos quando entramos e quando saímos o impacto é ultrapassado por qualquer coisa mais. Qualquer coisa maior que nós.


Quando te olhas no espelho que vês? Quando os teus olhos se despem no confronto contigo mesma. Quem és tu? É a pergunta que mais vezes faço a mim. Todos os dias a resposta é diferente. E todos os dias a resposta está cada vez mais longe da verdade. Da minha verdade. Fujo. Porquê? Será a verdade assim tão dura? Tão menos bonita daquela que tu desejarias? A verdade dura – nua – anestesiante – latejante – infame – verdade última de ti. Foge.


“Confusion in her eyes that says it all.
She’s lost control.
And she’s clinging to the nearest passer by,
She’s lost control.
And she gave away the secrets of her past,
And said I’ve lost control again,
And a voice that told her when and where to act,
She said I’ve lost control again.”



No acumular das respostas que se estendem aos meus pés nenhuma é a certa para mim. Nada se adequa a mim. E o mundo, os restos dele, quase que me são indiferentes.


Quase.


And I’ve lost control again.







(Joy Division – She’s lost control)