Tenho uma relação difícil com os sentimentos. A instabilidade gere a forma como me relaciono e resolvo com eles. Da amizade tenho pouco a dizer, creio não ter aptidão para fazer amigos, desde muito nova que eram raros, hoje é cada vez mais difícil não, chamar alguém amigo, mas sim sentir que são realmente meus amigos. Penso que é necessário haver uma relação de dependência entre os verdadeiros amigos, coisa que não possuo. Quando ao Amor, durante anos, desejei viver um amor de conto de fadas, nunca aconteceu. A partir de certa idade criei uma particular abominação por esse sentimento. E ainda hoje, depois de efectivamente viver um, faz-me demasiada confusão histórias que me chegam ao ouvido e que presencio de pessoas que (quase) morrem de amor, que se esquecem do sentido da vida depois de verem o seu coração partido, pessoas que rastejam pelos dias em busca de um amor unilateral, pessoas que tem como sonho a concretizar serem correspondidas por uma pessoa que nunca as vai amar. E rastejam, e ao rastejaram perdem o melhor da vida que, a meu ver, é sermos. Principalmente sermos em nós para podermos ser nos outros. Pessoas assim não são nelas próprias apenas são tapete gasto e revolto na porta das pessoas que dizem amar até voltarem a serem terra, unicamente terra infértil. O amor é algo bonito, preciso e que tanto nos pode fazer bem como mal. Também existe o amor que tanto é bom e mau na mesma proporção e deixamos de saber identificar esses dois extremos englobando tudo na mesma coisa.
Muitas vezes penso que não sou pessoa para Amar. Porquê? Porque para mim o Amor não é o esquecer dos seres individuais que somos, não é estar constantemente a ceder por ciúmes, possessão pela pessoa que amamos e está connosco. Não é ceder por coisas que no final do dia não transformarão o amor em algo mais pequeno. O Amor para mim é exaltação do que duas pessoas são individualmente e como se inclui isso numa relação. Não é a saudade que se tem constantemente da pessoa. Nem o amor a pulsar dentro do peito. É sentirmo-nos bem connosco próprias, é agirmos também por nós, pelas nossas vontades e saber que nada do que se faz esbate ou diminui o amor que sentimos. É Sair à noite sozinha porque nos apetece a solidão numa discoteca. O Amor não é o tempo que as pessoas amadas estão juntas, não é as vezes que se falam durante o dia, não é corrermos 7 dias por semana para os braços uma da outra. Não. O amor é em todos esses momentos a pessoa sentir que ama e é amada. É num momento que dura um instante sentir todos os sentimentos a aumentar a uma velocidade vertiginosa. É tanta coisa que não se vê ao primeiro olhar.
Não é só a mágoa do mal que causamos uns aos outros, não são as lágrimas que nos derrearam, não são as discussões que tantas vezes nos levou para espaços distintos. É o amor que eu sinto mas que nunca se concretizaria no ideal de relação dos nossos dias, dos teus sonhos, da tua vida. Mereces muito mais de alguém que te diz amar, mereces o amor de todos os dias, as noites dormidas lado a lado, os planos em conjunto, as viagens e as férias juntas, uma casa a partilhar. Mereces isto porque é o que te precisas para te sentires em pleno mas eu, meu muito amor, não te posso dar isso. Não sou eu, e eu deixei de fingir e de calar. Estou cansada de me negar, é isso que percebo agora, que a vontade de ser contigo uma só pessoa levou-me a ter sonhos que não são meus, que não sou eu.
Arrependimento do que vivi contigo, do amor que senti, do amor que me tiveste? Nenhum.
Foste das melhores coisas que me aconteceu e muito possivelmente não terei um amor com a intensidade do que tive contigo.
É com lágrimas e com consciência que escrevo. É com o amor que me rasga o peito que me despeço.














