quarta-feira, janeiro 30, 2008

Repito-me, sabes? Sinto que preciso de o fazer. Para me convencer de alguma coisa. De um algo mais. E talvez repetindo-me sinto-me mais perto de mim. Das minhas verdadeiras necessidades. Volto à infância e sinto que não fui feliz. Já nessa altura vivia uma farsa. Ria muito porque lembro-me que o riso atraía pessoas há minha volta. Inventava histórias como aquela em que disse quase chorando que tinha sido adoptada. Disse à freira porteira lá do colégio. Tinha uns 6 anos. Dizia que tinha sido abandonada pela minha mãe chinesa à porta da igreja e que os meus pais me tinham adoptado e por isso é que tinha olhos rasgados e a começaram a chamar-me chinesinha. E eu gostei. E a partir daí comecei a viciar-me em ser quem não sou. Um ano antes, ainda andava no infantário levei uma faca para a escola. Lembro-me perfeitamente dessa manhã, a mãe deixou-me no balcão da cozinha a tomar o pequeno-almoço, abri a gaveta dos talheres, tirei a faca e guardei-a nas minhas calças de ganga. Depois no infantário disse ao rufia da nossa turma que tinha a faca e assim ele podia matar a sua inimiga que se chamava Joana. E lembro-me de estar a descer o escorrega e ter as educadoras espantadas a olhar para mim. Nessa altura já tinham ligado aos meus pais. Fiquei de castigo mas disso não me recordo.
Depois lembro-me de outras coisas, como os beijos que arrancava aos rapazes. Tinha 5 anos e tinha 5 namorados. E atrevida agarrava-os pelo colarinho e beijava-os. A minha mãe disse-me anos mais tarde que eles fugiam. E eu gosto dessa ideia.
Lembro-me das minhas festas de anos. A última que tive tinha 9 anos e a partir daí nunca mais gostei de comemorar o aniversário. Lembro-me que depois uns dos aniversários que gostei mais foi quando fiz penso que 20 anos, dormi até às 18h e depois fui ao meu jantar, bebi imenso, ri-me muito e estava bem. Dancei até de manhã e acho que estava feliz. Acho que foi o último que apreciei. Acho.
Avanço uns anos e lembro-me da primeira vez que senti o sexo de um homem a dirigir-se a mim curioso. Devia ter uns 13 anos, ele era mais velho e estava a estudar para ser padre. Eu gostava de o provocar e ele não se fazia de acanhado. Corria atrás de mim, puxava-me para o seu colo e beijava-me e depois eu sentia algo a crescer. Não me assustava. Não, isso não. Deixava-me sequiosa e portanto eu continuava a provocar. Até que um dia ele agarrou-me com muita força e levou com um pontapé nos ditos. E eu fui embora airosa sem olhar para trás. Anos mais tarde fiquei a saber que não foi para padre e pelos vistos continuava feio e parolo. Depois tive mais umas quantas aventuras sem nunca esquecer o efeito que as mulheres tinham em mim. Fui adiando, adiando até que resolvi assumir. A experiência começou pessimamente. Não faz mal. Agora sei reconhecer uma puta a milhas de distância. Serviu de aprendizagem.

Entretanto passaram-se 7 anos e aqui estou eu. Tenho dúvidas se algum dia amei e dúvidas se alguma vez me apaixonei, fora isso, penso que vivi tudo de forma muito intensa. Acho que nunca parti um coração, ou melhor, posso ter aberto mais uma fenda ou outra mas partir nunca. Iludi muitas vezes, é verdade. Manipulei. Vendi muitas palavras e menosprezei os sentimentos dos outros. Fui algumas vezes calculista, fria e distante. Mas o pouco que dei podia ter sido melhor valorizado.

Tenho dúvidas se fui alguma vez amada. Portanto, penso que eu e o amor estamos quites. E assim, a vida pode continuar.



E penso que só tenho mais uma coisa a dizer:

Fuck you all.

domingo, janeiro 27, 2008

Abres a janela do meu quarto devagarinho como se achasses possível que eu não acordasse. E mesmo que me mexa não venhas, não te deites na cama de onde acabaste de sair. É essa a quebra. A quebra dos corpos que em poucas horas se prenderam no calor um do outro. Levanta-te e vai à janela fumar um cigarro, é também assim que deixamos de estar sozinhos. Com a cidade a acordar pela madrugada e eu deitada a fingir que durmo. Que não noto imediatamente o frio. O vazio agora de novo lado a lado comigo.

Prefiro manter-me de olhos fechados. Voltar ao silêncio das horas que já não se repetem. E aí sinto, sinto-me de novo viva. O corpo que sente o toque preciso. A invasão territorial que acontece quando afastas as minhas pernas com a segurança de quem sabe o que faz. E tu sabes o que fazes. Soubeste até que ponto podias ir e sabias também o momento em que me renderia e com voz de fúria te diria: Fode-me. E talvez tenha sido esse o momento em que percebi que já não podia voltar atrás. Eras tu que estavas dentro de mim e eras tu que controlavas tudo. A tua mão a tapar-me a boca e a outra apoiada na minha anca. Eras tu. E eu já não queria outro que não tu dentro de mim. Não posso voltar atrás. Aconteceu. E mais fundo não seria possível. E depois eu e o cheiro a orgasmo na cama e no ar. E a tua voz de satisfação ao meu ouvido: Quem diria que um dia estarias nesta situação. Ninguém diria. Só eu própria. Mas mais ninguém diria. Nem tu, nem mesmo quando um dia com o álcool em demasia liguei-te a dizer que te queria. Não sabia quando e de que forma. Mas queria-te. E agora já percebi o como. Tu dentro de mim. E eu a expulsar-te já com o prazer consumado.

Fumas o cigarro até ao fim. Não deixas espaço para mais uma passa. Já olhaste para trás e procuraste-me com os olhos. E é de olhos fechados que te vejo. E é com os movimentos do teu corpo na minha varanda que percebo que isto não vai ficar por aqui. Queres mais. E eu quero que tu queiras mais. Quero que voltes para a cama e sintas como o meu sexo está molhado, como seria fácil um barco navegar nas minhas águas. Quero que voltes e comeces tudo de novo. Sem preparação. Sem qualquer permissão. Sem sequer tentares perceber se os meus nãos querem dizer sim. E facilmente eu entendo que és igual a mim. E talvez por isso a minha rendição a ti.

Olho para ti agora de olhos abertos e a boca entreabre-se para falar, para te dizer – vem, povoa-me de novo, acrescenta palavras aos meus ouvidos, faz-me acelerar, marca-me os seios e prende-me o cabelo até eu me sentir preparada para que saias. Que saias de dentro deste espaço que quer ser novamente teu.


Olho para ti agora de olhos abertos e de lábios cerrados. Levanto-me da cama ainda de corpo nu e acendo um cigarro. Olhas para mim. Sorris e aí noto uma ternura. Algo enjoativo que salta dos teus olhos. E nesse segundo mal parido lembro-me de quem sou e do que tu não podes vir a ser.

- Vou tomar um banho. Vemo-nos amanhã como habitual?
- Posso ficar mais um pouco se quiseres. Podemos fazer qualquer coisa, está um dia tão bonito.
- Não me apetece. Mas adorei estar contigo. Um dia repetimos.
- Mas…
- Vá, até amanhã.

E depois o som de mais uma porta que se fecha.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Is someone out there?

quinta-feira, janeiro 24, 2008

In Everwood

Ephram: The more things change, the more they stay the same. I'm not sure who the first person was who said that. Probably Shakespeare. Or maybe Sting. But at the moment, it's the sentence that best explains my tragic flaw, my inability to change. I don't think I'm alone in this. The more I get to know other people, the more I realize it's kind of everyone's flaw. Staying exactly the same for as long as possible, standing perfectly still... It feels safer somehow. And if you are suffering, at least the pain is familiar. Because if you took that leap of faith, went outside the box, did something unexpected... Who knows what other pain might be out there, waiting for you. Chances are it could be even worse. So you maintain the status quo. Choose the road already traveled and it doesn't seem that bad. Not as far as flaws go. You're not a drug addict. You're not killing anyone... Except maybe yourself a little. When we finally do change, I don't think it happens like an earthquake or an explosion, where all of a sudden we're like this different person. I think it's smaller than that. The kind of thing most people wouldn't even notice unless they looked at us really close. Which, thank God, they never do. But you notice it. Inside you that change feels like a world of difference. And you hope this is it. This is the person you get to be forever... that you'll never have to change again.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Don’t fool yourself
She was heartache from the moment that you met her
My heart is frozen still as I try to find the will to forget her, somehow
She’s somewhere out there now








Jeff Buckley – Forget her

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Atonement - Expiação



Robbie Turner: We can resume. The story can resume. I can resume.

Cecilia Tallis: I love you. I’ll wait for you. Come back. Come back to me.

Robbie Turner: Dearest Cecilia, the story can resume. The one I had been planning on that evening walk. I can become again the man who onde crossed the surrey park at dusk, in my best suit, swaggering on the promise of life. The man who, with the clarity of passion, made love to you in the libray. The story can resume. I will return. Find you, love you, marry you and live without shame.








Briony Tallis: So, my sister and Robbie were never able to have the time together they both so longed for... and deserved. Which ever since I’ve... ever since I’ve always felt I prevented. But what sense of hope or satisfaction could a reader derive from and ending like that? So in the book, I wanted to give Robbie and Cecilia what they lost out in life. I’d like to think this isn’t weakness or evasion but a final act of kindnesse. I gave them their happiness.


sábado, janeiro 19, 2008

Poderia contar os dias em que fui realmente eu própria. E esses dias não chegariam para aqueles em que a solidão me invade. E a angústia. E a insegurança. E tudo aquilo que nem chego a ser. E poderia chegar o dia em que sentisse que estaria preparada para arriscar. Deixar-me ir mesmo que os passos que desse fossem falsos e eu caísse. Mais uma vez. Menos uma vez. Talvez seja isso. Ainda não caí as vezes suficientes. É preciso mais. O caminho é longo. Nunca esteve muito perto. É o que sei e no entanto sei tão pouco.

Uma farsa. No fundo todos temos um lado que se esmera em falsidade. E também existem aqueles que queremos esconder e fazemos o oposto do que sentimos.

Não posso contar os dias em que fui verdadeiramente feliz. Não existem. Sou por natureza insatisfeita. O tudo parece-me o nada. o nada colorido. Mas continua a ser um nada. e eu quero o tudo. Tudo mais o tudo. Mas não o mereço.


E tu dizes: és tanto. Sabes disso não sabes?
E eu respondo que sei. Mas não sei. Não sei nada. e precisava que então me explicasses porque sou tanto.

E então dizias: a ideia que tens de ti é errada. Imagina as cortinas que mais gostavas de ter na sala da tua casa. Tu não és as cortinas. Não. Tu és o material de que as cortinas são feitas. E aí és um tanto. Mas não podes ser tudo. Não existe um tudo nas pessoas.

E então repito: sou nada.

És mais do que isso. Tens sempre de ser mais do que isso. Nem que seja pelo teu sorriso. Sim penso que o teu sorriso vale uns quantos pontos.

O sorriso. E depois a boca. E mais tarde os olhos. E ainda mais longe as tuas mãos e o que fazes com elas. Sim de facto as tuas mãos dão-te mais algum avanço. De que são feitas as tuas mãos?

Não sei. Continuo a não saber nada. mas isso tu sabes porque parece que já sabes tudo.

E o beijo. o quente que ultrapassa os teus lábios e o orgasmo que pode nascer da tua língua.

Mas que percebo eu de orgasmos?

Provocas-los. Portanto deves perceber alguma coisa.

E depois a voz. Sim falam da voz. E lembro-me que é voz de cama. Voz que se arrasta. Voz que queima. Voz que excita.

Percebo. Tenho uma voz que tem algum efeito. Quanto? Quanto é que dás pela minha voz?

Tudo. E novamente não existe um tudo. Então existe um quê?

Repito: nada. nada que nasce do nada.

Contas-me uma história?

Se mentir continua a ser uma história? Então conto-te a minha história.

Era uma vez uma miúda que achava que poderia ser tudo e depois apercebeu-se que era muita idealista e fez-se nada. e continuou a ser nada. nada.

Mas quem és tu?
Nada. sempre o nada. é a única coisa que tens de saber sobre mim.


Acho que me posso apaixonar por ti. Tens qualquer coisa em ti que me enfeitiça. Achas que me poderia apaixonar por ti?

Não. Não acho.

Porquê?

Porque eu nunca serei a pessoa certa.

És sim! Eu sinto que és.

Sou a pessoa certa para mim. Entendes? Sei pouco de mim mas ainda sei alguma coisa.

E fugias comigo?

Fugir? Não. Estou farta de fugir.

Mas ficavas comigo esta noite?

Sim. Esta e a seguir. Depois já seria repetição a mais.

Vou-te buscar daqui a meia hora.

Anda.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Vota: 760 787 803

Ouvir-te é ir de encontro aos meus 15 anos altura em que te conheci. Ainda me lembro como começamos a falar. Eu, tu, a Su, o Cris, a Mara e a Binas. Formamos grupo desde o primeiro dia e só nos separamos quando vim estudar para Lisboa. Demoramos a encontrarmo-nos mas quando aconteceu parecia que estávamos de novo nos intervalos das aulas em que te pedia para cantares e tu cantavas baixinho ao meu ouvido para ninguém ouvir. E que voz a tua, que presença, que alma.
Partilhámos tanta coisa. Escrevíamos poemas em que assinavas como “Voz do vento”, ríamo-nos até não podermos mais e até me recordo do dia em que discutimos e que me escreveste aquela carta. Estupidez de miúdas. Agora és uma mulher fantástica e eu em breve serei a tua advogada :P Pronto eu, a Mara e a Su. Uma equipa sem igual.

Estás onde devias estar, na final. Estiveres ímpar em todo o programa e ímpar é como também sairás. O que tu fazes ninguém faz melhor. E ainda me lembro do ano passado em que fomos todos ver-te ao hotel e cantaste a “How could an angel break my heart” – a música dos nossos intervalos. É emocionante ouvir-te. É…

Ainda bem que nos reencontramos.


Estamos todos a apoiar-te. Desejamos-te toda a força para sábado.

:)

quinta-feira, janeiro 17, 2008

“Então peço-te que me contes tudo, Sebastião.
- Tudo? Mas o que é tudo? Tudo o que vejo? – perguntas, num sussurro. Como se, de súbito, te sentisses esmagado pela intraduzível vastidão do teu olhar. O que se vê nunca se pode narrar com rigor. As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas. As palavras não têm cor – por isso permanecem quando as cores desmaiam. Percebo o teu aturdimento: como se traduz a visão? Como se emprestam os olhos? Impossível. Ainda por cima num aeroporto, onde tudo é movimento; o movimento entorpece o acontecer das coisas.
Conta-me só a verdade, Sebastião. O que sobra daquilo que vês. Dizes-me que vês uma criança chorando agarrada aos joelhos de um homem que parte. Uma mulher tenta soltar-lhe os dedos das calças do homem, que se esforça por conter as lágrimas. Peço-te que não me contes histórias de despedidas. Vejo-as à transparência das vozes, no recorte bruto das frases interrompidas, entrecortadas de tristeza. Peço-te que olhes para o que fazem as pessoas felizes – são essas que preciso de ver. Dizes-me que te peço demasiado, que a felicidade não se vê.”




Excerto da “Eternidade e o desejo” de Inês Pedrosa

segunda-feira, janeiro 14, 2008

1º dia

Estive a pensar horas e horas e horas e decidi que quero:



Tudo contigo.




E sendo assim gostaria de saber se aceitas namorar comigo.

sábado, janeiro 12, 2008

Um brinde a nós.

We're just ordinary people
We don't know which way to go
cause we're ordinary people
maybe we should take it slow
This time we'll take it slow



Take it slow
maybe we'll live and learn
maybe we'll crash and burn
maybe you'll stay maybe you'll leave
maybe you'll return
maybe you'll never fight
maybe we won't survive
but maybe we'll grow
we never know
baby you and I.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

“Meti-me nesta história com ela, com esta mulher que escreve, esta mulher impossível, esta mulher transbordada por si própria, transbordada pelo mundo inteiro, pela injustiça, pela beleza, pelo sofrimento, pelo amor, por toda esta mixórdia que é tão dela como minha e desta história que se desenrola algures entre ela e eu e não somente entre ela e eu, ela sabe-o, e eu também, e contudo não convém sabê-lo demais, fazer como toda a gente, fazer cenas, fazer estrilho, fazer-se de má, fazer cozinhados, fazer amor também, toda a bagunça do mundo visto estarmos no mundo, visto participarmos do mundo, visto não estarmos separados do resto da humanidade, visto que, enquanto ela escreve, o faz também para o mundo inteiro como para mim, visto ser eu que estou ali.”





In “Aquele amor” de Yann Andréa

sexta-feira, janeiro 04, 2008

“Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia de meu amor eterno, e eu não sabia. Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados. O que era? era como a água escorrendo numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura da pedra, o musgo entreaberto pelo fio d’água correndo, e a nuvem no alto, e o homem amado repousando, e o amor parado, era feriado, e o silêncio no voo dos mosquitos. E o presente disponível. E minha libertação lentamente entediada, a fartura, a fartura do corpo que não pede e não precisa.”





A paixão segundo G.H - Clarice Lispector

segunda-feira, dezembro 31, 2007

6

Às vezes esqueço-me do conteúdo desta partilha. Do seu interior composto por brechas, saídas abruptas, estados sólidos e ficcionais. Seria melhor voltar um pouco atrás, muito antes de sequer haver um interior entre nós. Já percorremos espaços a mais juntas, é o que penso. Só às vezes, só às vezes preferiria esquecer-me do que já existe. Não é uma questão de ser mais fácil, mas sim por achar que seria mais leve. Gostaria de ainda me perder quando vou ou vens ao nosso encontro. Aquele peso forte nos passos, aquele turbilhão nas mãos, os incómodos e impacientes segundos antes de te ver.
Não é muito o que existe. Lembro-me disso consecutivamente. Se me lembrar não escorrego. E assim repetimos o assunto. É um assunto que não se cansa, acho. Até nas alturas em que olho para ti e os teus olhos não estão presentes. Somes-te porque já sabes o que dizer e o que não dizer. E também tu te repetes. E depois beijamo-nos porque os beijos são as palavras que deliberadamente não queremos dizer. Ou repetir. Que se guarde o bom, que não se torne num hábito. Os hábitos assassinam o que há de bom. Na maior parte das vezes. Daqui a pouco chegas e vamos a algum sítio. As duas. Nada nos acompanha e é bom sentir essa solidão a teu lado. Como se apenas fossemos nós, nos momentos em que estamos.


Faltam-me casacos. Ainda fico com a cama cheia de roupa antes de ir ter contigo. Nada parece o acertado. Nada é bonito o suficiente para ti. Nem que seja para chegar, despir-me e querer apenas a roupa do teu corpo no meu. E no entanto, a beleza que tantas vezes encontro dentro dos teus olhos parece-me insuperável por qualquer outra coisa. A beleza que encontro nos teus olhos quando tudo o resto deixa de respirar.
Os meus pensamentos são obscuros, nada do que me ocupa é simples. E quando és tu que me ocupas então tudo se complica. E acho que gosto de sentir isso. De uma forma pouco racional, a forma como tu às vezes me ocupas, lembra-me de como sou inteira, de como consigo ser mais. Agrada-me essa ligação que se criou.
Questiono-me se sentes da mesma forma os momentos em que respiramos juntas. Se sequer sentes como a textura da nossa alma muda e como os nossos corpos se olham. Porque existe um fenómeno que acontece. Mesmo que seja raro. Quando acontece o meu pensamento deixa de ser complicado e vejo com clareza algo imperceptível noutros dias. Não posso falar em meses ou em anos. Não existimos assim há tanto tempo. E gostava também de sentir que não são os prazos que nos limitam. Nem os prazos nem as estações do ano. Gostava de sentir que enquanto conseguirmos ser nada nos limita, nem mesmo nós. Nós - os piores inimigos da evolução das coisas.
São horas de sair de casa, o casaco está vestido e tu estás algures à minha espera.


5

Enche-me o corpo. Todos estes espaços completos. Os detalhes da tua vida. É aqui que te reconheço. Tu sabes. Agora podes adivinhar todas as linhas rectas, todos as paragens do meu eu.
Podia não entrar, esquecer-me da entrada para a tua casa. Do nome da rua que nunca sei dizer. Sim o nome, as letras que o formam e que fazem dele o que é. Não esqueço. Não invento. Apenas sei e sigo todo o trajecto até ti.
Reaprendi a respirar esta cidade, a mais imperfeita das amantes, quando no momento no arredondar dos segundos, com todas as interrogações possíveis te vi a chegar vinda da tua porta. O sorriso. Mais uma vez o sorriso a anteceder a continuação de tudo isto.
Regresso a Lisboa e estou no meio dos carros, da poluição enfurecida, nas mãos frias das pessoas. Estou no meio do nada como se de uma infertilidade se tratasse. E no entanto, tu.

Espero-te. Vens de um destino que parece ser do outro lado do mundo. Ultrapassas o mar, a terra e estás quase perto. A tua imagem perto. E agora são as palavras indispensáveis. A sua reciclagem é feita agora. Como pela primeira vez os nossos olhos se encontrassem. Despem-se e o medo nessa circunstância deixa de existir. Estamos nuas. E pouco a pouco descobrimo-nos no lugar onde as mãos não chegam.
Chegaste. Senti-o quando ainda vinhas distante. No meio da cidade. Lisboa. Perguntas-me quando foi. Quando é que o fogo tomou conta dos sentidos? Quando foi que cheguei? – perguntas. Digo-te que não sei responder. Que já cá estavas. Quando? Desde sempre. No momento anterior ao começo de todas as histórias.
Dou-te a mão e trago-te ao meu lugar. Ao lugar que tantas vezes de olhos abertos imaginaste. Eu já te sei. Há tanto tempo. É algo imperturbável este saber. Não o contestas. Entregas-me a tua boca. E ficámos à janela da cidade. Lisboa.

domingo, dezembro 30, 2007

"Remember today:

I’ve no respect for you
And I miss you love
And I miss you love

I Love the way you love
But I hate the way
I’m supposed to love you back."

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Não será este desejo que me ocupa a empurrar-me para o meio da estrada. Nem são estas mulheres que me chegam pelo caminho das palavras. Posso claramente assumir que não sei para onde vou e não sei se quero ter companhia nesta travessia.
Mas não por estas mulheres. O desejo é faminto. É ou era. Não sei por vezes distinguir. Está em mutação constante. Como eu. É desejo sim. Mas por vezes apenas um desejo de vazio.
Não posso dizer que as desejo. Não sei o que posso dizer. Não sinto que as queira. E não estou seduzida. Não. Isso não. Sou intocável e mesmo quando o digo em voz alta põem-se em fila indiana a dizer que estou enganada. Estou sempre enganada. É o que me dizem. As mulheres. E eu repito: nenhuma delas me chega a dentro. Não sinto nada. Talvez desespero. Mas não sinto nada. Sou intocável.

Tenho a alma doente. E o corpo adoeceu primeiro. É o que me parece. Nas noites piores, com a voz dormente sinto que digo – toquem-me. Eu preciso de sentir. Não sei o que é isso de me sentir tocada. Não sei o que é sentir.

Mas não por estas mulheres.


Volto a adormecer. Já com o corpo nu e menos doente. E parece que sonho, algo de bom. Não sei o quê. Mas sonho e é só por isso que sinto também a alma menos doente.

E talvez amanhã não sinta esta miséria entediante que se tornou a minha vida.

sábado, dezembro 22, 2007

"I'll
stop
the world
and
melt
with
you."

quarta-feira, dezembro 19, 2007

4

Voltaste. Não sei quanto tempo demorou a ausência. Se foi amena ou turva. Se me escureceu ou acalmou. Não me recordo do compasso dos dias em que não estiveste. Arranquei-te de dentro de mim. Temporariamente. Tu sabes. Voltaste. De tudo, é o que importa. E rever-te é perceber o quanto me fizeste falta. A tua presença, sim. E o silêncio das manhãs. Já te disse que admiro a tua capacidade para calares as palavras? O modo como ao me ofereceres o silêncio me fazes acreditar? Acreditar. Nisto. Neste círculo cheio de pontas soltas e incógnitas. Tu respiras e por isso sabes.
Não falamos da tua partida nem deste regresso. Acho que durante alguns dias eu e tu não falamos. Calamo-nos no toque, no beijo, no sentido de tudo o que acontece quando aqui estás. E aceito também estar contigo. Olho-te no sofá de olhar fixo. Talvez penses na vida. Não sei. Não quero saber. Estás. É só o que sei. Gostava que isso me bastasse. Um dia. E volto a olhar para ti e de novo uma ternura. Uma ternura de ti. Aqui. Neste lugar que já não sei apenas meu.


Não tenho receio que ao voltar tu tenhas ido embora. Ameaçaste tantas vezes que não me abririas a porta. Que era o fim. Porque só podia ser o fim, estas partidas e estes regressos. É o fim – dizias tu. E eu fingia que acreditava que tu não notarias a minha ausência. Penso que sempre foi mais nas tuas negações que eu consegui ver as tuas verdades. Mentes bem de mais para seres uma mentirosa. Tu entendes.
Cheguei e o ar não me faltou. Não andei de escadas. Fui de elevador. Toquei duas vezes à porta. A primeira menos silenciosa que a segunda. E ao te rever senti que durante este tempo tinha cá estado. Sempre. Continuas igual. A mesma forma de arranjar o cabelo, a mesma posição em pé, o mesmo sorriso intacto. Perfeito, daquela forma que só quem gosta consegue ver. Olhas-me, porque quando o silêncio impera é como tu comunicas.
E agora que voltei e tu me deixaste entrar voltamos à vida, como se a nunca tivéssemos deixado de reviver. Regulamo-nos paralelamente com os dias. E deixamos de saber em que altura do mês estamos e se falta muito para deixarmos de estar bem. Não sabemos. Não contamos com o amanhã. Fechas a porta por dentro e sentas-te à minha frente no sofá. As tuas mãos nas minhas. Hoje nenhuma de nós vai a lado algum.

sábado, dezembro 15, 2007


Foto de autor desconhecido (acho.)


Era um lugar reservado para ti. Não sei que lugar seria, posso dizer-te, que nunca pensei nisso. Que lugar nesta cidade seria o teu. Mas podias ter vários. Acho que gostarias de ter vários. E assim, quando sentisse mais a tua ausência junto à minha pele poderia passar por esses vários lugares. E acho que sorriria. Porque não sorrir? Serias tu que estavas ali. Num de muitos lugares. Que seriam teus. Esses lugares seriam presentes meus para ti. E assim veria o teu sorriso. Nos dias em que a ausência me fosse difícil de engolir e aceitar. Há dias assim. Em que parece que morremos quando nos sentimos sozinhos. É a solidão que mata. Mas é só às vezes. Não te preocupes. Não gosto que se preocupem comigo. Fico sem jeito com essas coisas. E eu fico bem. Sobrevivo, lembras-te? Eu fico bem. E peço-te que não te preocupes. Porque não gosto e fico sem jeito. E não gosto de ficar sem jeito. O tapete foge nesses momentos. E eu quase, quase que caio.

Hoje vou sair de casa. Porque agora a casa parece o inferno. O inferno dentro do quarto. E as noites, sempre as noites. Mas hoje vou sair. Era para ter ido ao cinema. Não fui. Hoje não me apeteceu ir ao cinema sozinha. Hoje não quero estar sozinha. E não vou estar. No hoje estou acompanhada. É assim que tem de ser. E as insónias hoje ficam para trás. Porque existe companhia. E não vou beber porque não posso. Mas comprei álcool. E comprei também sumo. Bebo sumo, eu. Laranja e cenoura. E fico contente. Não me sinto exigente. Hoje. Acho que afinal não sou exigente. Contento-me com pouco. Parece que agora contento-me com pouco. O crepe com chocolate quente que comi ao lanche estava uma merda mas comi e sorri. Bastou-me o crepe mesmo que estivesse uma porcaria. E depois lembrei-me de vir a pé para casa e passar à tua porta. Mas não o fiz. Mudei de caminho e fui ao supermercado. E podia ter passado à tua porta, mas não o fiz. E bastou-me só essa ideia. De voltar à tua rua. Aquela rua.