sábado, junho 10, 2006

Tu-Eu

Alentejo. És tu que o carregas nas mãos. Que o apresentas a mim quando em dias estamos mais presentes, menos carregadas com a ausência que nasce entre os nossos corpos.
Gostava de me lembrar do começo. Desse tempo em que nos encontramos. Desses momentos onde a conversa conduzia as sensações e nada parecia difícil de ser acreditado. Nessa altura ainda acreditávamos. Ainda existia a confiança que podíamos fazer diferença neste mundo tão cinzento e tão pobre de sentimentos. Sabíamo-nos diferença e compreendíamo-nos como tal. E talvez foi aí que tudo deixou de ter raízes próprias. E continuamos num caminho, na ilusão que bastaria nos percebermos, na ilusão de sermos iguais. De termos os segredos de como continuar a permanecer uma na outra.

Do Tejo ao Além-do-Tejo
Em quantas noites tentei eu encurtar a distância. De quantas noites quis também renascer nas tuas mãos. Ao lado do teu Alentejo. E da Cecília Meireles. Que me lembrasses, Amor mesmo que agora a vida te pese, a fé seja inexistente, que o Amor tenha perdido o seu próprio brilho nesse teu coração tão frágil e tão já amadurecido.
Quem serás tu senão eu?
Quem serei eu senão tu?
Que seremos nós se nem a nós pertencemos?

Disseste-me certa noite que eras como o ar, facilmente entravas, mas serias um ar diferente porque não mais sairias. Digo-te eu que és mais do que o ar, és como os meus livros predilectos, és como as coisas que mais gosto de fazer, és como as palavras que teimo em calar, és um círculo de singularidade em que me envolvo e me deixo ficar. Não precisas de ser como o ar, não precisas de ser mais daquilo que és. Bastas-te assim. És. Aconteces. Sobrevives-me.

Peço-te que invadas esta ausência mergulhada em distância e me sintas além da pele. Toca-me além da pele. Persegue-me para além de tudo o que seja palpável. Para além deste fumo negro em que tenho vindo a construir a minha vida. Este casulo inconstante a que chamo viver. Sabes tanto do que te digo. Do que te falo. Do que quero quando me solto em palavras para que assim me sintas mais dentro. Para que em mim encontres as respostas do que ainda não te cansaste de perguntar. Do que agora quase que desistes de acreditar. De ter. De chamar até ti. Como as andorinhas que em criança desejavas ser para poderes voar. Porque são os sonhos que te continuam a adormecer. São eles as amarras que te permitem ainda viver. Que permitem que te continues a ligar às pessoas, à espera do sinal. Do sinal que te mostre que estás preparada para o que irá chegar a seguir. Menina sonhadora que voas até mim. Até ao que escondo mas que perante ti parece tão transparente. Tão nosso.

Cresces-me à medida que os dias passam, à medida que o silêncio nos acompanha nos espaços em que nada pensamos ser. Em que as palavras deixam de ter alcance em nós. Porque nada são quando se comparam ao que ainda queremos atingir. Seremos eu e tu capazes de reconhecer o sinal? O fim das nossas perguntas? Seremos eu e tu capazes de aceitar o que de incrível pode acontecer? Quando a distância se abater e só sobrarmos nós, sem dúvidas e apenas vontades?

Deixa-me deitar o meu coração sobre o teu para que ele sinta já o que a razão entendeu…estou dentro de ti, faz já muito tempo em que sei de cor esse trajecto que nos une ao mesmo tempo que fazemos de tudo para que nos separe. E tu também estás em mim mesmo nos dias pormenorizados em que desapareces, em que te fechas nesses teus sonhos à espera que a realidade os toque.
Faz já tanto tempo em que merecias estas palavras que se escutam em silêncio à medida que os meus beijos te seguram.

Do Tejo ao Além-do-Tejo

Dá-me a mão e mostra-me onde te encontras.

7 comentários:

GNM disse...

Estares a escrever ao lado de um homem extremamente sensual tem destas coisas: Crias obras primas :)

Sorrisos...

Cátia disse...

Concordo, uma completa obra-prima, este texto. =)
Beijinho*

sotavento disse...

Tu a viajar és imparável!... :)

Anónimo disse...

Será o momento errado, será o local errado, será a situação errada, será a pessoa certa

ou

isso tudo faz com que a pessoa certa seja a errada?

Ou,

simplesmente, é a pessoa errada?

E ai, seria tão mais fácil um cheque-mate com o jogo a meio.

Os meus sinceros parabéns pelo texto. A pessoa a quem se refere é com certeza a pessoa errada pois, caso contrário, já teria escrito um comentário digno de si e dos seus transparentes sentimentos.

Ahh, ou estamos perante um devaneio, ficção?!

Cacau disse...

Tudo em mim é um constante devaneio;

Agradecia que começassem a assinar os comentários, concerteza que serão mais do que simples anónimos.

A todos os outros, obrigada :)

Continuação de óptima semana a todos vós!

:)

relatosdeumruivo disse...

Se é um devaneio, é-o simplesmente fantástico.
Parabéns... A ti e aos teus devaneios.

:)

Maria dos Açores disse...

Como sempre fico toda arrepiada de ler o que escreves porque encontro-me sempre nas tuas palavras... continua