terça-feira, junho 14, 2005

Apago o tempo da tua alma, parto os relógios que fazes colecção e dou-te a mão com os meus olhos cegos nos teus e toco-te com o adeus como ponte entre nós.
Dizes com os lábios que entendes a minha loucura, sabes-lhe de cor o sabor, o tacto áspero e individual e procuras nas noites em que fico a teu lado apagar a minha memória de tudo o que aconteceu antes de seres minha, de te entregares a mim, de deitares fora todos os meus textos, queimares os livros e nua te apresentares como as folhas limpas para eu preencher com a tinta negra das canetas que teimam em não chegar ao fim, como o único livro que preciso de ler e escrever. Apresentas-te como o meu todo, como se na tua mão direitas estivessem as certezas e na mão esquerda escondesses o branco falso dos meus dias, tomas-me em teus seios e neles vejo o refúgio do desejo, do querer que chega a ser doentio, dos orgamos sentidos, explosivos, gritantes de quem os teve como pela primeira vez e no teu ventre de mulher que sabe o que quer, como o quer, tens os rios do mundo, a foz de tudo o que precisa de nascer e um dia mais tarde voltar para debaixo da terra.
Assustas-me nesse amor obssessão de rasgares a tua pele, de seres o meu mundo, de me quereres do teu sangue aceso, fervente...vês-me como a vida, como um novo amanhecer para ti, mas por baixo do que os teus olhos captam, estou eu, cansada, derrotada, sem nada para te dar, só tenho em mim o tempo que matei, as pessoas que magoei, o mapa de todos os corpos que quis domar, nos momentos em que o tesão gritava mais alto do que o respeito, do que a razão, os corações preenchidos que comi na ânsia de ter mais, sempre mais, de ser mais do que os outros e nos outros, do gozo que era oferecer o ódio em forma de sedução e a dor em forma de amor.

8 comentários:

AlmaAzul disse...

Magnífico texto. Lembrou-me a passagem de "Budapeste" do Chico Buarque, onde descreve a sua escrita nos corpos das mulheres.:)

Anónimo disse...

Reli os teus últimos posts e recordei um antigo amor, as palavras dela foram similares às do teu texto.
Fica aqui a letra de uma música que faz parte desse meu passado e que talvez faça parte agora do teu presente...

Is simplicity best
Or simply the easiest
The narrowest path
Is always the holiest
So walk on barefoot for me
Suffer some misery
If you want my love
If you want my love

Man will survive
The harshest conditions
And stay alive
Through difficult decisions
So make up your mind for me
Walk the line for me
If you want my love
If you want my love

Idle talk
And hollow promises
Cheating Judases
Doubting Thomases
Don't just stand there and shout it
Do something about it

You can fulfil
Your wildest ambitions
And I'm sure you will
Lose your inhibitions
So open yourself for me
Risk your health for me
If you want my love
If you want my love
If you want my love
If you want my love


Depeche Mode - Judas
um beijo Kacau

Isabel

PreDatado disse...

Continuas fabulosa, amigona.
Um beijo,
Vitor

AlexandraAlpha disse...

Linda! (como sempre)* * *

Vera Cymbron disse...

Espero que esteja tudo bem...Voltei.
Jinhos grandes.

Jorge Ferro Rosa disse...

Gostei bastante dos escritos. Parabens. Jorge

Anónimo disse...

Depois de reler calmamente o texto, fiquei a reflectir sobre "a moral da história": "(...) na ânsia de ter mais, sempre mais, de ser mais do que os outros e nos outros, do gozo que era oferecer o ódio em forma de sedução e a dor em forma de amor."
Só me ocorre uma palavra: contemporâneo.

Ella

Instantes Perdidos disse...

Como fiquei atónito com as tuas palavras...

Pareciam minhas... O percorrer o corpo de uma mulher com palavras assim...

Sem duvida escreves de forma muito eriçada e com os sentimentos a flor da pele...

Artur Rebelo