segunda-feira, setembro 05, 2005

Um texto diferente que teve como inspiração, o fim de uma relação entre duas mulheres. (I)

Chegas por dentro das nuvens sombrias de um Setembro atrasado nos dias, sentas-te à minha frente, afastas as almofadas que são a minha teia de sofrimento, sorris-me num beijo que gravei nas minhas mãos como espelho dos teus lábios, primavera que partiu sem avisar. Cravas os teus olhos na minha ferida aberta, entranhas o presente num corpo que ainda é teu e que te segue em lembranças à espera que passes a certidão de óbito a este meu ser exausto, vazio, desesperado.
Lembro as noites de outros dias do ano, lembro-me a mim procurando qualquer vestígio teu que prolongasse as noites que chamamos nossas, as noites em que a dor era passatempo e o presente apenas dois corações agarrados tentando com a força permanecerem num só.
Não me sei despedir de ti porque nos meus sonhos ainda sou tua, ainda pensas em mim como dantes, ainda me queres agarrar, respirar como da primeira vez em que nos olhamos e na distância nos quisemos. Quero arrancar-te de mim mas não consigo, porque a razão sempre que tenta vencer, cai no chão de tão fraca que é perante este coração que se arrasta pelos dias, pelas horas infernizantes nesta cidade longínqua tentando colar cada imagem, cada som, cada pedaço de ti para não te perder, para não te deixar ir embora…
Trocaste o presente pelo passado e agora nem o futuro eu vejo quando me tenho como um vulto andante que quer lutar, sair do abismo gritante que é a dor mas que apenas encontra a chave da memória de tudo o que guardei de ti, de tudo o que quero que fique intocável, nosso.
Quero que te vás e que não te esqueças de nada, que leves tudo o que me deste ou que quiseste dar. A vida em mim agora não é nada, é apenas um rasto do que um dia sonhei para nós. Quero esquecer o teu nome nos jardins cinzentos do meu corpo, quero esquecer a tua face sempre que oiço a palavra amor. Quero o adeus plantado à minha volta e apenas duas portas, a que me chama de novo à vida e a que me separa de ti.

6 comentários:

Vera Cymbron disse...

Cada vez melhor!
;)
Jinho

devaneios disse...

está muito bonito, e sem duvida alguma muito pessoal...
relembra como quando nos queremos afastar de alguem aproximamo-nos ainda mais!

:)

Anónimo disse...

lindo!

BlueShell disse...

Achei lindo, lindo...

Jinhos mil, BShell

nobody disse...

Belo texto!

soldeinverno disse...

demasiado belo e sensível... adorei simplesmente...