segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Doem-me os olhos que se curvam perante a tua ausência prematura. Dói-me a espera que é saber recomeçar uma nova vida sem ti. Dói-me tudo o que já não tem o teu nome. As estradas riscadas dos mapas. O copo que trazias todas as noites e punhas na mesa-de-cabeceira. Os livros espalhados pelo sofá. A desarrumação que te era tão característica. Dizias com um olhar sombreado de snob que era a desarrumação de mestre. E rias-te, rias-te muito…e eu não me conseguia negar a rir contigo. Porque tu contagiavas-me, contagiavas a minha vida. Do primeiro ao último momento.

Quero que abras aquela porta e me faças tua de novo. Quero que me rasgues as roupas como se me rasgasses o corpo. Quero-te, como sempre te quis. Preciso que venhas e me tomes. Toma-me tua. Quero que me abras a textura da pele como o fazias nas primeiras noites que passamos juntas. Quero ter-te novamente interessada em mim. Não consigo ceder à realidade que é não te ter. Não te ter mais. Começo a perder os teus vestígios, começo a perder as tuas expressões, e o teu sorriso que julgava sempre meu, começa a perder o seu brilho natural. O que é que os dias nos fizeram? O que é que o tempo te fez? O que aconteceu entre nós para te ires embora? Para dizeres que já não dava! Dá cabo de mim, mas fá-lo de uma vez só, diz-me tudo, não me mates aos poucos, mata-me de uma só vez. Os dias serão menos penosos, as insónias desaparecerão mais facilmente, tudo voltará ao normal. Tudo voltará a mim. Mesmo que tudo isso me lembre de ti, me lembre de nós. Mesmo que as saudades me digam bom dia pela janela, mesmo que sinta freneticamente as tuas mãos no meu corpo enquanto tomo banho, mesmo que todos os sorrisos sejam teus e nunca das outras pessoas. Tudo voltará a mim e eu voltarei a me pertencer. Sem ti, a partir de agora, sem ti…

6 comentários:

GNM disse...

Gosto da frieza fervente das tuas palavras!
Espero que tudo não passe de fingimento literário, é tão dificil dizer "adeus"...

Também gostei da nova foto! É mais positiva qua a anterior. Mas ambas são lindas : )

Fica bem e continua a sorrir!

Morpheu disse...

Acho muito a propósito deste teu post partilhar aqui um poema de que gosto muito e que tem tudo a ver com o que escreveste:

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos. Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto. São estas as formas do amor, podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, e as palavras ficam pressas numa refracção de instantes, quando a tua voz me chama de dentro de mim - e me faz responder-te uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói.
Nuno Júdice in "Pedro lembrando Inês"

beijo

Anónimo disse...

A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.
José Luís Peixoto
"every day hurts a little more" um beijinho da Bia(força!)

folhasdemim disse...

Bonita a tua escrita :)
beijos, betty

sotavento disse...

... e com saudades de sentir saudades!... :)

AlmaAzul disse...

Sem dúvida a ausência leva-nos a escrever coisas magníficas...

***azuis