sábado, fevereiro 11, 2006

Sentas-te a escrever. Precisas de uma mesa inteira vazia, apenas com um maço de folhas brancas e três canetas. Pretas. Queres-te sozinha enquanto escreves. Precisas-te vazia de mim. De ti. De tudo o que existe. Pedes-me silêncio, pedes-me que te ceda a minha pele. Que me deite nua no chão. Que me desenhe pelo chão. Que suspire. Que chame por ti.

Olhas-me enquanto escreves. Sorris cada pormenor do meu corpo. Como se o beijasses com os olhos. Como se entrasses dentro de mim, sempre que o quisesses…e consegues entrar como a noite nos entra pelos lençóis mesmo que estes não existam. E apenas existam as nossas peles. Coladas. Na memória de apenas uma. Por cada frase escrita, sinto-te a respirar pela minha pele. E rasgas-me a nudez como se rasgasses as folhas brancas. Rasgas-me a boca num beijo que ainda não senti. E apetece-me levantar-me e sentar-me em cima de ti. Agarrar-te os cabelos e pedir-te que escrevas em mim e não naquelas folhas. Queimá-las a todas, jogá-las pela janela. E deitar-me eu na tua mesa, puxar-te sobre mim e deixar que tudo aconteça. Fechar os olhos e saber-te ali comigo até que tudo deixe de fazer sentido.

Escreves cinco folhas. É o que escreves diariamente. Abres as janelas. Guardas as canetas e as folhas. Sentas-te de novo na cadeira. Acendes um cigarro. E lês-me. Lês-me enquanto viajo pelo chão, enquanto viajo pelas tuas mãos ausentes, perdidas no teu próprio egoísmo. Assisto à viagem que também os teus olhos fazem, às vagas de respiração que soltas. Daria tudo para saber o que é que pensas quando me vês. O que queres, se ao menos soubesse o que realmente tu queres. Mas não sei, tu apenas te fechas cada vez mais nas tuas palavras. Na tua melancolia desenfreada. Na tua loucura tão sóbria como o álcool que bebes. Somes-te pela nuvem do fumo dos cigarros que fumas. Pudera eu ser fumo para te envolver toda. Para te saber viciada em mim. Num vício que te é proibido porque apenas te vicias em coisas materiais.

És tão cabra. Atiras-te neste mundo sempre de forma segura. Nunca dás algo que te denuncie. E nunca recebes algo que te faça querer mais. Não aceitas o que dou. Talvez nem percebas o quanto dou de mim nestas viagens que faço pelo chão do teu escritório. Não percebes, não percebes absolutamente nada. E olhas-me, e freneticamente o teu corpo dança ao longe com o meu. Sem nunca nos tocarmos. Sem nunca nos sentirmos pele com pele. Fumas até te fartares. Dás-me a mão para eu me levantar e entregas-me uma manta. E pagas-me pela minha inspiração diária. Pagas pelo que te dou. Como se eu fosse a tua puta. A tua prostituta das palavras. E depois sais e apenas dizes para eu fechar a porta quando sair.




6 comentários:

GNM disse...

Já sabes que gosto, e muito, de te ler.

Lancei-te um desafio lá no EXTRANUMERARIO, e gostava que aceitasses!

Fica bem e sorri!

sotavento disse...

Ai, miúda, por onde essa imaginação voa!... ;)

Anónimo disse...

Cada vez adoro mais o k escreves..Por vezes es dura demais mas sente-se a força das tuas palavras.
Admiradora secreta!

GNM disse...

Passo e deixo-te um beijinho!

Passa um excelente Domingo
e não te esqueças de sorrir!

patricia disse...

:O ai minha nossa...a tu mae sabe q andas a escrever estas coisas?? tu ve se tens tento na lingua...!! lool! sou sincera, n li tudo....mas li! jinhu gande

Anónimo disse...

Olá, carneira torta:
Fiquei sem messenger...para sempre, é definitivo...por agora.
Espero que estejas bem...
Gostei do texto, melancolicamente feliz.

Beijos

Mónica