quarta-feira, dezembro 19, 2007

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Voltaste. Não sei quanto tempo demorou a ausência. Se foi amena ou turva. Se me escureceu ou acalmou. Não me recordo do compasso dos dias em que não estiveste. Arranquei-te de dentro de mim. Temporariamente. Tu sabes. Voltaste. De tudo, é o que importa. E rever-te é perceber o quanto me fizeste falta. A tua presença, sim. E o silêncio das manhãs. Já te disse que admiro a tua capacidade para calares as palavras? O modo como ao me ofereceres o silêncio me fazes acreditar? Acreditar. Nisto. Neste círculo cheio de pontas soltas e incógnitas. Tu respiras e por isso sabes.
Não falamos da tua partida nem deste regresso. Acho que durante alguns dias eu e tu não falamos. Calamo-nos no toque, no beijo, no sentido de tudo o que acontece quando aqui estás. E aceito também estar contigo. Olho-te no sofá de olhar fixo. Talvez penses na vida. Não sei. Não quero saber. Estás. É só o que sei. Gostava que isso me bastasse. Um dia. E volto a olhar para ti e de novo uma ternura. Uma ternura de ti. Aqui. Neste lugar que já não sei apenas meu.


Não tenho receio que ao voltar tu tenhas ido embora. Ameaçaste tantas vezes que não me abririas a porta. Que era o fim. Porque só podia ser o fim, estas partidas e estes regressos. É o fim – dizias tu. E eu fingia que acreditava que tu não notarias a minha ausência. Penso que sempre foi mais nas tuas negações que eu consegui ver as tuas verdades. Mentes bem de mais para seres uma mentirosa. Tu entendes.
Cheguei e o ar não me faltou. Não andei de escadas. Fui de elevador. Toquei duas vezes à porta. A primeira menos silenciosa que a segunda. E ao te rever senti que durante este tempo tinha cá estado. Sempre. Continuas igual. A mesma forma de arranjar o cabelo, a mesma posição em pé, o mesmo sorriso intacto. Perfeito, daquela forma que só quem gosta consegue ver. Olhas-me, porque quando o silêncio impera é como tu comunicas.
E agora que voltei e tu me deixaste entrar voltamos à vida, como se a nunca tivéssemos deixado de reviver. Regulamo-nos paralelamente com os dias. E deixamos de saber em que altura do mês estamos e se falta muito para deixarmos de estar bem. Não sabemos. Não contamos com o amanhã. Fechas a porta por dentro e sentas-te à minha frente no sofá. As tuas mãos nas minhas. Hoje nenhuma de nós vai a lado algum.

2 comentários:

Anónimo disse...

consegues (sempre) fazer tao bem isto...apanhas me na rua, ou de costas a janela, e queira ou nao estou aonde tu escreves. Há sinceridade, cercania, cumplicidade, lugares aonde nunca estive ou achava que nao ía voltar. Há imensas coisas nas tuas palavras, e muitas mais nas que calas. Ler-te é sempre tao bom...
Chavela (mas dito por ti ;)

Alexandra Alpha disse...

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