quinta-feira, abril 10, 2008

Trata-se de uma escolha. Reconduzida a todos os passos que já conseguiste dar. Ninguém se interessa como os deste. Se te custou. Se te doeu. Se por momentos, te fez ser menos do que és. Ou julgaste ser. Ninguém se interessa. É isto que te quero dizer esta noite. No ângulo misterioso de onde se observa a madrugada. Por dentro do fumo de um cigarro. Ou por fora, do que os teus olhos te concedem.
Quedas-te ao meu lado, no redor dos meus dedos. És tu. Mas diz-me, quem és tu?

E deitas-te com as pernas arqueadas e os pés colados um ao outro. Tens os braços esquecidos na cama dispersa de lençóis. E eu vejo. Eu consigo ver. O teu corpo composto por fotografias. As fotografias que captaram o que tu foste um dia.

E vejo:

O verde da viagem que fizeste no verão passado à Irlanda. O verde que te ficou nos pés. Os passeios que não nos podemos esquecer. E eu consigo imaginar-te de mochila nas costas, garrafa de água no bolso e a máquina deitada na palma da tua mão direita. E o teu respirar de furos ao meu ouvido.

O teu corpo conta-me histórias. Conta-me histórias do passado. Do passado que me mostras e que eu não conheci. Como seria conhecer-te nesse tempo distante? Como serias tu, de comboio em comboio, a descobrires o que a tua cidade não te permitia ser?

Não lamento a minha ausência nas tuas viagens. Não há nada para lamentar. Nesse passado remoto eu ainda não existia. Eu ainda não tinha esta face e as minhas mãos encontravam-se fechadas de tudo o que poderia nascer. Renascer. Viver. Não te diria nada, seria o mais certo, se no antes nos tivéssemos encontrado.

Falas e desdenhas as palavras. As palavras não valem nada. Foste tu que me ensinaste. As palavras trazem com elas a repetição do que não pode ser repetido. E eu recordo-me, que as palavras matam o amor que ainda não saiu da casca do ovo. Sim, é isso. Se um dia o sentires, não o ponhas em palavras. Se o disseres, se o falares, se o escreveres. Eu deixarei de acreditar em ti. É importante que respeites o que te peço. Se um dia no alto de tudo o que pode ser sentido. Se um dia na ponta da língua te surgir a palavra amor. Cala-te. Submerge-te dentro da água. Submerge-te no meu peito. Mas cala-te.

E de volta a ti. Aos teus passos verdes por entre os recantos desta casa. Mostras-me as paredes. Sabes que tenho uma fixação por paredes. Então explicas-me a tua vida como se tudo pudesse ser mostrado no gasto das ruínas que aguentam este espaço. Preciso de fechar os olhos. Para que nada possa ser maior do que me mostras. Sinto a superioridade da tua voz nos regaços que me levas a descobrir. E agora és menina, de mão dada com a tua mãe a caminho da escola nos teus 10 anos. Decerto, que a gargalhada seria a mesma. Decerto, que se te olhasse nos teus pequenos anos, saber-te-ia a mulher que hoje está à minha frente. E se me enganasse, estarias perto para me reconduzires na verdade do que foste.

Encadeio-me de volta de ti. Porque a sede há muito que deixou de ter destino e então é este abraço que escolho. Sim, uma escolha. Porque mesmo o mais insignificante do desejo é resultado de uma escolha. Quantas escolhas nos levaram à habitação deste mesmo caminho? Não digo sonho. Não o posso fazer. Seria iludir-te de os saber existentes. Ou pelo menos a galopar no meu sangue vadio. Sempre mais o poder de decisão ainda que inconsciente. Do que o adormecer e acordar presa em algo que não sinto nem poderia sentir como meu.

Sigo-te pelas sombras que deixas nos meus dias. Quando a dança é mais fervorosa do que o andar lado a lado. Quando o beijo se irrompe pelos escombros que se foram acumulando pelos nossos corpos. Mas fica. O beijo fica na pele quando poderia sempre fugir. A pele na elasticidade dos desejos. O ardor moribundo que se distingue da rotina do que se quer um dia e no outro se satisfaz. E as sombras algures pelos miradouros da cidade, e das sombras as mãos e das mãos tudo o que queremos guardar deste momento.

2 comentários:

manoellimoeiro544 disse...

Meus parabéns amiga por teu blog. Um abraço de: Manoel Limoeiro do Brazil.

Anónimo disse...

E as sombras algures pelos miradouros da cidade, e das sombras as mãos e das mãos tudo o que queremos guardar deste momento.

sorriso. houvesse outra palavra para dizer bonito.

(tennis giros)