domingo, junho 15, 2008

Dois. Lados (3)

Escreve-te com a morte laminada na circuncisão do teu silêncio, escreve-to porque o amor rasga-se quando o branco perfaz o corte calado dos teus lábios. Escrevo-te com o corpo trilhado na nascente das palavras, escrevo-te com a promessa enraizada no vazio do meu corpo. Encontro-te onde as vielas se infestam de solidão, no cheiro infundo da tua memória, a nu num leito encrespado de amor. Que a noite escoa da tua tirania como uma ferida ferrada no calor mutante da tua ausência, que a noite segrega do tempo enquanto te espero com a esperança túmida na fagulha da folha. Não me escrevas, não me escrevas porque o amor te relembra a precisão do teu choro sobre o meu colo. Não escrevas quando esse negror te castiga o lugar que deixas vago entre o sono e o remorso. Não escrevas já esquecida que a terra engole quando o amor se dissemina de avidez. Se eu escrever, escrevo-te seca de negligências, escrevo-te como um brote tardio despertado no descuido das tuas mãos, escrevo-te de jejum antecipado. Se eu me devolver ao retrato das tuas investidas, relembra-nos a ferocidade árdua do teu desconsolo. Se eu me devolver ao desuso do teu coração, castiga-nos a punição serôdia do meu despontar.


(Alice tennis giros)


E pediste-me tu um dia – Conta-me os teus sonhos. Os detalhes que te fazem ficar de olhos abertos quando o mundo se apresenta polido de escuridão – Disseste tu um dia. Como se tivesses esse fim nobre de me quereres conhecer. Todos os fins nobres são impuros. Toda essa transparência de carácter a mim não me diz nada. E depois os sonhos, os meus sonhos. As imagens que povoam pelo território fértil. Não tenho sonhos. Tenho objectivos concretos. E digo-te hoje que é na escuridão que melhor acompanho o compasso dos dias. Numa relação de sentido único. E tu? Tu não fazes parte. Existe uma porta fechada. Poderias querer tentar encontrar a chave. Poderias querer tanta coisa. Dizer-te no meu silêncio. Ocupar todos os lugares em que me situo. E sim, podias tentar adivinhar-me. Saber em que lado da cama durmo. Como coloco as mãos num abraço. O que penso quando olho para ti. O trajecto que faço para os meus lugares. Todos os incidentes que me levaram a andar de olhos fechados até à chegada ao ponto negro do universo. Quantas mais perguntas, mais tempo leva o caminho de me centrar em ti. Diz-me tu agora: qual a quantidade de conhecimento que queres ter de mim antes de fugires? Onde deverás parar tu? Em que incógnita. Em que presente. Ou passado. Sentirás o medo, esse arranhão que não sangra? Saberás tu o que é ser na minha realidade? Quanto tempo? O tempo de antena é teu.


(Narcisa)

5 comentários:

Anónimo disse...

....é por isto que eu gosto de vir aqui....grande poeta.....que talento....estou sem palavras.
Parabêns......parabêns!
abY...muitos.

Ida

Anónimo disse...

um beijinho para ti.

«todos os fins nobres são impuros.»
quanta razão tens.

alice.

flavia disse...

Adorei parabens.
Se você não se encomodar, estarei por aqui sempre que possivel.
Adorei a maneira como você escreve.

Anónimo disse...

Denoto uma "evolução" emocional descontrolada.
É apenas um desejo meu, ou esta mais crente? (em si propria e nas suas capacidades)
Apanhou-me!
beijo

AlmaAzul disse...

:)
***azuis