terça-feira, novembro 22, 2005

E assim acontece encontrar o meu coração nas palavras dos outros:



"Os teus olhos fixados nos meus, com a força que reconheço em ti. És uma mulher maravilhosa, penso. Sorrio. E tento ingnorar a voz na minha cabeça que me alerta para o que está a acontecer. Seduzo-te cada vez mais. Como se a minha paixão fosse demolidora, forte e teimosa como os teus olhos. Não vislumbras a ameaça pendendo sobre ti. Não reconheces o perigo. Apetece-me alertar-te, mas sei que não é possível. Que inevitavelmente pensarias que estava a proteger-me. Todos nos salvamos mutuamente, não é o que pensas? Mas olha, não é verdade. Ou, pelo menos, não é verdade para mim. Nada mais se recuperará deste lugar. A minha história contada é um disparate. Já, outras vezes, tentei avisar. Mas nem eu próprio acreditava, sabes? Ainda pensava que iria recuperar a inocência, essa capacidade de amar como se fosse a primeira vez. Mas a primeira vez também foi um equívoco. Ponho os pés no chão uma vez por dia e gozo a minha felicidade. Essa felicidade de ser amado e de amar. Dura só um instante e depois volto para aqui. Para este lugar de conformação, de não-mudança, de impossibilidade. Tu sabes-me bem, percebes? Não tem nada a ver contigo. Nunca quis magoar ninguém. Talvez seja mais forte do que eu. Antes, via filmes com personagens que tinham um final feliz e acreditava num desses para mim. E tive muitos, muitos finais felizes. Mas o filme não acabava ali. Nunca acabou ali, nesse feliz aguardado. Se estou contigo, deveria acreditar. Mas não acredito. Em nada acredito. Estou apenas a salvaguardar o meu lugar nesta linha encadeada de causas e efeitos incontroláveis e tremendamente banais. Não me queixo do mundo. Da brisa com cheiro a mar, dessas imagens bonitas que colecciono sem qualquer pudor e, ao mesmo tempo, com toda a culpa. Sem pudor, só culpa. Desculpa ter-te feito apaixonares-te por mim. Mas és tão doce, era inevitável. Como não querer estar perto de ti e beijar-te? Dar-te um pouco de luz, um pouco de negro. Um pouco de vida. Desculpa."

Ana Vicente in Eu barra tu barra mim.

2 comentários:

Pode me chamar de... disse...

Belíssimo!

jctp disse...

Olha, a Ana Vicente tem um blog, sabias? Que digo eu, se calhar são grandes amigas e eu já meti os pés pelas mãos, mas como não a tens nos links, pensei que não soubesses, anyway, o blog é este.

Agora só espero que a Ana Vicente não fique zangada com isto que acabei de fazer. É do adiantado da hora. :)