terça-feira, dezembro 06, 2005

Ela acordou com o corpo a tropeçar pela manhã, arregalou os olhos cor de mel e puxou-se para fora dos lençóis. Andou nua pela casa à procura de razões para não voltar ao adormecer quebradiço dos sonhos que a atormentavam. Nos sonhos apareciam as várias mulheres que conhecera durante toda a sua vida. Mulheres que seduziu, mulheres que a seduziram, equívocos e inequívocos. Cansava-se dos sonhos, cansava-se dos corpos e das faces que por vezes desapareciam quando estes se tornavam húmidos, se tornavam reais ao toque. Os sonhos não se repetiam, os toques por si também não.

Cansou-se de rodopios e debruçou-se no seu sofá preto, deixou os olhos abertos e lembrou-se do primeiro amor que também foi a sua primeira relação. Lembrou-se da primeira mulher que ocupara os seus sonhos, da pele branca que contrastaria com o seu sofá preto, lembrou-se das últimas palavras dirigidas ao seu primeiro amor que acabaria por ser o último...as últimas palavras surgidas num adeus que foi um misto de gritos, de agressões físicas...dissera-lhe para não desistir dela, para não ir embora...que o amor nunca acabava assim, que era errado...que tinha de ser eterno. Lembra-se de cair do seu baloiço de menina ingénua e sonhadora e dar de caras com um mundo que não era o que achava. Um acordar provocado assim abarca grandes consequências, transforma as pessoas, transforma os corações e tudo passa a ser visto como o inimigo.

Adormeceu acordada no seu sofá com os braços a tapar os seus seios, sentiu-se a deslizar pelos seus pensamentos, tentando esconder a desilusão, a inquietude de se sentir perdida num amor que não existe para ela, num amor sem nome e que apenas se encontra no corpo das mulheres que julgara amar, nessa ilusão que se sobrepõe ao que se sente e quando se sente. Sentiu uma mão no seu ombro e um sopro no seu cabelo, abriu os olhos. A última mulher que tinha amado estava ali à sua frente, com a satisfação na ponta dos dedos, com os cabelos negros a roçarem as suas costas e os seus seios, debruçou-se sobre ela e disse-lhe que era cedo, pedindo-lhe para regressar ao quarto. Os seus olhos responderam com tristeza e disseram que era altura da última mulher amada ir-se embora. Desculpou-se com compromissos quando a única verdade que sentia era que o amor durou uma noite e como chegou também se desvaneceu.

Ouviu a porta a se fechar e voltou para a cama despedindo-se do amor uma vez mais, esquecendo tudo como se nada mais fosse do que um sonho intermitente, surdo, comestível. Quase nas portas da solidão lembrou-se do que toda a sua a vida ouviu: “O primeiro amor terá como consequência a forma como no futuro estaremos ou não preparados para saber reconhecer e viver outro amor...”
E isso ela sabia de todas as vezes que julgou amar, que julgou sentir o que o corpo lhe dava a sentir, esquecendo-se dela própria, esquecendo-se dos sonhos que tinha para si.
Embriagada de dor, fechou os olhos dentro do coração, na impulsividade desmedida de se sentir a ela própria, de se salvar, de salvar o amor.

7 comentários:

AlexandraAlpha disse...

Linda como sempre!

NoZ disse...

:o)

Anónimo disse...

Quando acabei de ler... senti... senti-me... tão transparente

Mendes Ferreira disse...

boa leitura....esta a que li..:)

Morpheu disse...

A expressão para este teu texto é, como para quase todos os teus textos: "speechless". Continuo a adorar a tua escrita, a tua expressividade, a beleza que colocas nas palavras e principalmente o sentimento; há trechos mesmo em que me revejo, sentimentos porque também já passei.
És um dos meus locais diários de passagem, sempre na esperança de encontrar a magia de novas palavras.

;-) bjs

Maria disse...

lindo...

Anónimo disse...

Sorry, não vou dizer k esta lindo, expressivo, interessante, comovente,intenso(...)
Vou limitar-me apenas a dizer k está único!

"As Histórias não se repetem!"

kiss Darling

C.C!