sábado, junho 17, 2006

Guardamo-nos pela noite fora, pernoitando pela música que nos chove, ancorando num abraço as saudades dos dias em que nos libertamos.
Lembro-nos sempre assim, inter-ligadas pela pele, questionadas pelos porquês desgastantes das voltas que damos, dos beijos em que se prendem as nossas bocas. Regressamos sempre ao momento que antecedeu uma qualquer partida. E andamos neste ciclo até que o cansaço chegue e decida o que fazer de nós.

Sentamo-nos no café de sempre. Dentro ou fora. De noite ou de dia. Com a mesma marca de tabaco. Com a mesma marca de café. Com os mesmos copos entupidos de água. Conversamos pelas mãos, sorrimos pelos toques, chateamo-nos pelos porquês que são as tuas respostas às minhas perguntas. Chegamos bem, discutimos a meio, e saímos bem. Nunca pressupus qualquer coisa contigo sem estes três degraus. Se assim não fosse deixaríamos de sermos nós. Seríamos outras dentro de nós. Deixaria de ter piada. Gosto da rotina da turbulência na minha vida. Gosto de discussões. Só contigo. Porque só contigo consigo ser eu, consigo dizer o que realmente penso, sem pensar duas vezes se é apropriado ou não.

- Gosto de ti.
- Porquê?
- Por não saber é que te gosto.
- Dizes isso a todas!
- E?
- E gosto que o digas a mim...
- Então estamos bem!
- Não sei, não gosto de estar bem contigo.
- Vai à merda!
- Vês? É assim que gosto de ti!
- Assim como?
- Insuflada em incertezas.


Nunca dormimos no mesmo sítio duas noites seguidas. Não fazemos rituais. Não dormimos abraçadas. As peles colam-se e nós fazemos tudo para que isso não ultrapasse o sexo. Trocamos beijos em demasia. Sim, sempre achei que nós funcionávamos em excesso. Não nos sabemos conter com tão pouco. E por vezes pedimos um quase-nada. Adormecemos a olhar uma para a outra. Com a chama dos corpos escondida pela distância segura do que temos receio. Talvez seja nesse preciso momento em que nos vemos melhor. No silêncio que se fala em palavras nunca ditas antes. Umas vezes esquecidas. Outras vezes deixadas em nós sem rasto para não as podermos seguir. Mas é nesse silêncio que nos amamos.

- Queres ir passear amanhã? Fugir durante um dia?
- Não sei...
- Porquê?
- Não me enerves. Deixa-me dormir!
- Se calhar fugia era hoje. És impossível!
- Foge. Não voltes. Hoje não te quero mais.
- Desprezo-te

Voltamos. Fugimos. Regressámos intactas com um sorriso na boca. Tratamo-nos mal tantas vezes que já não nos incomodamos. E dizes tu que não te acomodas. Acomodamo-nos ambas aos dias assim. A nunca acabarem como começaram. E mesmo assim são tão iguais. O máximo de tempo que estivemos separadas foram dois dias. Foi a primeira vez que nos tratamos mesmo mal. Gritámos. Assustámo-nos. Fizemos avisos, ameaças. Gritámos mais ainda. Partimos coisas. Dissemos nunca mais. O nunca mais durou 48horas. E custou.

- Já não gosto disto...
- Porquê?
- Porque não podes estar desintegrada de mim.
- A culpa é nossa. Tu gostavas de despedidas.
- Deixou de ter piada. Agora fere!
- Desde quando é que tu sentes dor?
- Desde que te disse nunca mais.
- Estiveste bem agora.
- Eu sei!
- Queres foder?
- Descobre...

Encontramos um equilíbrio. Já por várias vezes to disse. O equilíbrio no desequilíbrio. O desequilíbrio que descobrimos na nossa loucura. A loucura que foi o que nos atraiu. Atracção que se tornou em dias longos. Entendemo-nos bem em quase tudo. Menos nos gostos literários e decoração. Aí discutimos. Cada qual num lado, desistimos da nossa vontade em pouco tempo. Atiramos os desentendimentos para um canto qualquer e voltamos a comunicar. E aí voltamos a ser diferentes. Voltamos à rotina de nunca repetirmos o feito na véspera. Sentimo-nos vencedoras. E brindamos. E sorrimos. E quando estamos perto de dar um abraço, vamos cada qual novamente para seu lado. Se a distância um dia se quebra, todo o vidro que nos envolve se parte. E aí como nos reconheceremos?

- Tenho frio! Vem para mais perto...
- Não me apetece, eu estou bem.
- Egoísta, nunca o irás deixar de ser!
- Paciência.
- Vem!
- Não me canses.
- Merda!
- Queres gelado?
- Depende...
- Diz lá!
- Se o aqueceres primeiro...

Voltamos ao início da noite. Voltamos ao início de tudo.
A madrugada vem-se adiantando nos minutos. Os corpos esquecem-se de se protegerem e aproximam-se. Identificam-se. Cheiram-se. Encontram um espaço em comum. Regridem com os movimentos. Mas voltam a aproximar-se. A manhã não se atrasou e ensaiou-se com a luz nos dois corpos. Os olhos abrem-se. As mãos prendem-se. Dois olhares que se cruzam ainda na ternura do sono. Acordam numa só. Com a pele a transbordar entrega. Com os corpos a quererem conduzir outras noites como esta. Aos poucos sentem que se querem mais. Que a distância nem sempre é tão exacta quando sem nos apercebemos ainda nos guardamos.

13 comentários:

Cátia disse...

Muitas vezes é no meio do caos que encontramos o equilíbrio perfeito. E então sabemos que tudo se encaixa...
Beijinho*

Natalie Afonseca disse...

Olá!!
Isto tudo o que escreves é ficção ou é atu pura realidade???

Não interessa, acho eu!!

Escreves super bem!! :))

Bjs

Natalie Afonseca disse...

Hum....é uma realidade misturada com um pouco de imaginação!! :P

A nossa ilha ando muito bem, pelo menos ainda não se afundou!1 :)
O tempo é que anda meio estranho, mas isso já é costume aqui....

Fica bem!!
:)

p.s. não costumas visitar a tua ilha?

UltimoTango disse...

Tenho frio...
A(es)queces-me?

Maria dos Açores disse...

Como sempre as tuas palavras são arrebatadoras....

Moon_Lady disse...

Deliciei-me prima =)

Alexandra Alpha disse...

Ai filhota, filhota... a mãe avisou!
Um beijo do tamanho do mundo*

Morpheu disse...

Clap! clap! Sei, de certeza que consegues ouvir os meus aplausos! Está estupendo, amiga: gosto especialmente da cadência que imprimes no texto e das sentimentos cravados nas palavras (acho que qt a isto já me repito mas o que queres, gosto mesmo desta tua maneira de escrever).

Beijos

sotavento disse...

Sempre num jogo de toca e foge!... :)

Alexandra Alpha disse...

Escreve! Preciso de ti.

Claudio Kramer disse...

Muito bom texto! parabéns!

Raquel V. disse...

Excelente! Sem dúvida!
Vim espreitar o teu blog e deparo-me com uma escrita sem medo e que prende.
Existem textos q ainda não conseguiria escrever e faz-me bem ler quem tem a capacidade de o fazer e fazer bem!

Beijos

Anónimo disse...

Tenho de te dizer, estou completamente viciada no teu blog.
Escreves muito bem. Obrigada pela partilha.
Beijos de por do sol

sonia